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100 anos de solidão

As uniões económicas e monetárias só funcionam de forma ótima quando juntamos países com situações económicas e institucionais muito semelhantes (mesmo nível económico, regras tributárias, etc.).

Vítor Hugo Ferreira, director-geral da Startup Leiria Vítor Hugo Ferreira, director-geral da Startup Leiria
27 de Abril de 2020
em Opinião
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Vítor Hugo Ferreira, director-geral da Startup Leiria
Vítor Hugo Ferreira, director-geral da Startup Leiria27 de Abril de 2020

O título literário combina dois importantes temas que emergem da espuma da quarentena – o isolamento social e a pior crise económica dos últimos 100 anos.

Não vou fazer considerações epidemiológicas ou de saúde pública, mas sim de economia e UE. As primeiras estimativas do FMI apontam para uma quebra de 8% do PIB português (que poderá ser de 10% ou mais, dependente de novos surtos) e aponta também para um regresso ao desemprego acima de 14% (em Espanha e na Grécia pode atingir os 20% a 25%, um número assustador).

A solução para esta crise deveria ser encontrada no seio da UE, mas a Alemanha e outros países adoram uma união monetária com todos os seus benefícios e nenhuma das respetivas obrigações.

As uniões económicas e monetárias só funcionam de forma ótima quando juntamos países com situações económicas e institucionais muito semelhantes (mesmo nível económico, regras tributárias, etc.).

O que aconteceu na Europa é que países com níveis muito diferentes de desenvolvimento aderiram.

No passado, sempre que Portugal/Espanha/Grécia/Itália importavam demasiado e exportavam pouco, a sua moeda desvalorizava, criando uma barreira para este fenómeno.

Situação inversa verificava-se em países com vantagem competitiva (e.g. a Alemanha via as suas exportações mais caras e as importações da periferia mais baratas).

No entanto, hoje, países como a Alemanha e a Holanda ficaram com uma moeda artificialmente baixa. Além disso, graças à liberdade de circulação de pessoas e capitais, elas atraem os recursos humanos mais qualificados e os investimentos mais produtivos.

A única maneira de combater isso é com transferências fiscais, uma segurança social comum, etc. (por exemplo, Alabama versus Califórnia) ou através de uma desvalorização real (custos de mão-de-obra), tornando Portugal mais atraente porque tem mão-de-obra barata.

Em termos económicos, há muito pouco que o governo português possa fazer sem uma união económica e fiscal real, principalmente porque há uma armadilha de especialização produtiva (a produtividade do sul é baixa, não porque trabalhamos pouco – trabalhamos muito mais horas do que os países do norte – ou mal, mas porque produzimos coisas com baixo valor agregado).

Exportamos peças de automóveis com uma margem industrial muito fina e importamos carros e tecnologia de alto valor da Alemanha e de outros países. As únicas soluções para esses problemas estão ligadas a uma educação melhor e à mudança para setores com maior valor agregado (ambas levam décadas e implicam investimento que não temos).

E sempre que surge uma nova crise todo o investimento que nos poderia ajudar é canalizado para sobreviver (foi assim em 73, 87, 2001, 2008), com a diferença que agora não podemos desvalorizar a moeda.

A solução para esta crise só poderia passar no Sul por uma maior integração europeia… que não vai acontecer.

Existe outra? Sim, sair do Euro… mas é um tema para outra crónica.

Tópicos: opiniãoVítor Hugo Ferreira
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