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3502 caracteres (incluindo os espaços)

Haja para sempre cancioneiro popular, entre vivos e mortos, que nos solte as goelas na viagem onde queremos ser penduras pendurados ao pescoço do amor que conduz. Porque o amor há-de sempre conduzir-nos, ainda que queiramos travar a fundo

Isabel Miranda, autora do blog Por Acaso Não Acho Nada Isabel Miranda, autora do blog Por Acaso Não Acho Nada
28 de Julho de 2026
em Opinião
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Isabel Miranda, autora do blog Por Acaso Não Acho Nada
Isabel Miranda, autora do blog Por Acaso Não Acho Nada28 de Julho de 2026

Bate-se o pé a bater a bota por dá cá aquela palha, a mesma que chega a parecer-nos a agulha no palheiro quando infelizmente não temos os óculos postos. Tudo a postos para mais uma enganação na curva, não era aqui era ali. Apanhados na curva uma e outra vez. Faz as vezes de viver, viver assim ao engano. Engana-se quem achar que perder é só perder, vai-se sempre ao encontro de um encontro essencial com os demónios fofinhos que nos põem no sítio. Picapaus amarelos na vez de borboletas estafadas, na barriga que cresce ao sabor de amêijoas à bulhão pato. Há que agradecer.

A palavra ‘gratidão’, dita assim ao outro: gratidão!, sabe-me sempre ao enfianço em contínuo de colheradas de creme de ovos com dez vezes o açúcar da receita pela goela abaixo. Não tem nada que agradecer mas, se o fizer, profira aquele singelo ‘obrigado’ que serviu sempre tão bem, desde os tempos imemoriais do convento onde se inventou o doce de ovos.

Já que estás no convento, reza como a lenda que é ateia mas que se viu encantada com o santo que lhe calhou. Mal não fará. Arre gaita, não te enfoles, não finjas com tanto afã, o negrume da magia pede meças à santidade embalada em vácuo que se conserva sempre fresquinha. As velas que se afogam na própria cera ficam a dever-te o milagre. Fizeste bem em deixá-las arder no templo marmoreado, sempre poupaste uma floresta.

Canta o Abrunhosa que eu e tu / perdidos e sós / amantes distantes / que nunca caiam as pontes entre nós, e eu acho que um engenheiro civilizado no suster das pontes importa mais do que todos os santos em todos os dias que não suscitam feriado nacional. Uma falha de milésimo de milímetro no cálculo, de cagagésimo de grau na esquadria, e ponte para que te quero. Quero-te para acreditar que há possibilidade na margem de lá, que posso caminhar sobre as águas sem a condição obsoleta de profeta predestinado. Ir só porque me está na natureza confiar ceguinha no que não vejo e, armada em visionária, querer, mas querer mesmo – ir. Trocar as voltas à hora de voltar. E encontrar sempre a ponte de pé.

Ai ai ai ai, tu gostas dessa mulher. Mas ela pede carapaus à espanhola no tasco de estrada onde te levou a almoçar, era o prato do dia feliz em que foram comer-se juntos. E beija-te com língua depois do cigarro e antes de entrar no carro. Voltas ao escritório com cebola alheia no hálito, tu que a respeitaste com a escolha sensaborona de um peito de frango grelhado sem esmero nem tempero. Nem com sal nem com sol, o peito já não vai lá. Os mamilos murcham e o coração acompanha melhor do que a salada mal temperada que encostaste no prato. Ai ai ai ai, a cantina da empresa é que é, um gajo come descansado e poupa-se a digerir encantamentos gorados.

Toca Paredes e eu não confesso. Olho para trás e não vislumbro vivalma no encalço. Calço os teus sapatos e lá está o mesmo aperto que sentes, que também a mim me massacra o chispe cinco números abaixo. Haja para sempre cancioneiro popular, entre vivos e mortos, que nos solte as goelas na viagem onde queremos ser penduras pendurados ao pescoço do amor que conduz. Porque o amor há-de sempre conduzir-nos, ainda que queiramos travar a fundo. É aumentar o volume, com o cuidado de não parar nos números ímpares que me causam ansiedade. É isso e não chamar a atenção para as minhas notas ao lado, os desafinados também têm coração e eu quero mesmo é ser o crítico de arte que há-de para sempre declarar-te obra-prima à escala mundial.

Tópicos: 3502 caracteres (incluindo os espaços)Isabel Miranda
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