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Home Opinião

A calamidade interna

Abalou-se o que tínhamos como garantia mínima e o previsível deixou de o ser

Cláudia Camponez, psicóloga educacional Cláudia Camponez, psicóloga educacional
20 de Fevereiro de 2026
em Opinião
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Cláudia Camponez, psicóloga educacional
Cláudia Camponez, psicóloga educacional20 de Fevereiro de 2026

Já muito se disse e escreveu sobre este assunto e, ainda que a minha história seja só mais uma, não me faz sentido falar de outra coisa. 
São cinco da manhã e 120h passaram depois da noite que virou marco na história das nossas vidas. Haverá sempre um antes e um depois da depressão Kristin. 

Não consigo dormir. Sinto um temor vigilante constante e uma espécie de culpa pela impotência e pelo privilégio incómodo, porque eu estou bem, mas e os que não estão? 

Ainda não me dei espaço para chorar ou rever aquela noite, parece que ainda não houve tempo (ou vontade) para o fazer. Como se fosse um capricho perder tempo com prantos. Estou viva. Os estragos que me bateram às janelas são meras cócegas quando comparados com o que aconteceu a tanta gente. Não tenho direito a queixar-me. Chorar para quê? 

No entanto, há um estado de alerta que me habita e no silêncio estou atenta ao que não se faz ouvir. Aquele vento, aquele barulho, aquele medo, aquela escuridão, aquela porta que ia rebentar, o coração que cavalgava no peito. Os meus, os outros, o carro na rua… a incerteza do próximo instante e a certeza de sermos tão frágeis. 

Será que os traumas nascem assim? Qual o impacto daquilo que sentimos naquela noite e daquilo que vimos nos dolorosos e primitivos dias que se seguiram? Abalou-se o que tínhamos como garantia mínima e o previsível deixou de o ser. É impossível seguir igual. Há, por isso, que estar atento às manifestações que sinalizam essa mudança, olhar os estragos internos e voltar a criar raízes estáveis. Pedir ajuda, se necessário. Não podemos ficar ao sabor do vento…

Três semanas passaram. Os despertares frequentes, a sudação noturna e a confusão mental que senti inicialmente parecem ter cessado. Também o medo fraquejou. Deu lugar a uma comoção imensa, porque no meio do caos foi o amor ao próximo que prevaleceu.  
Cheirava a árvores no meu quarto e as que via da janela contorciam-se como molas. Do resto não me lembro ou não me quero lembrar. Talvez precise de falar sobre isto…

Texto escrito segundo as regras do novo Acordo Ortográfico de 1990

Tópicos: Cláudia Camponezconflitogestãointernojornal de leiriaLeiriamau tempoopiniãopensamentopsicologiatempestade
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