Com mais de 180 empresas incubadas, cerca de 70 fisicamente e as restantes digitalmente, a Startup Leiria é apontada como um dos ecossistemas de inovação mais dinâmicos do País.
Classificada, em 2024, pelo ranking Global Startup Ecosystem Index, da StartupBlink, como o terceiro melhor ecossistema nacional, a incubadora ocupa também o lugar 450.º à escala mundial.
“Em termos de dimensão, situa-se apenas atrás das startups de Porto, Lisboa, do Instituto Pedro Nunes, de Coimbra, e em posição ex aequo com a Startup Braga. Estamos entre as cinco maiores”, afirma Vítor Ferreira, director-geral da Startup Leiria.
Sediada no antigo Mercado Municipal de Leiria, a instituição funciona como incubadora e aceleradora de empresas, fornecendo o ambiente, as ferramentas e os contactos necessários para que uma ideia de negócio, mesmo em fase embrionária, se transforme num negócio sólido e sustentável.
Para isso, aplica programas estruturados de pré-incubação, incubação e aceleração.
Ao longo do percurso, a Startup Leiria acompanha os empreendedores, desde a validação da ideia até à internacionalização, oferecendo mentoria especializada, acesso a financiamento e acesso a investidores e ao tecido empresarial da região.
Full Stack Valley ou como criar na região e exportar para o mundo
A expressão Full Stack Valley resume a maior vantagem competitiva da região de Leiria.
“‘Roubámos ‘a expressão full stack da área do software. O termo denomina algo ou alguém que tem conhecimento ou acesso a todas as linguagens de programação, do frontend ao backend. Consegue oferecer tudo. Na Startup Leiria, ‘roubámos’ essa ideia, porque temos a certeza de que a região alargada de Leiria tem a capacidade de poder desenvolver integralmente produtos e serviços em qualquer área dos sectores primário, secundário e terciário”, explica Vítor Ferreira.
Talvez o exemplo mais reconhecido desta capacidade seja o da Bhout, startup portuguesa que desenvolveu um saco de boxe com inteligência artificial.
A empresa, que recebeu dez milhões de euros numa ronda de investimento seed em Novembro de 2023, numa operação considerada como uma das maiores alguma vez levantadas em Portugal, tem a sede na Startup Leiria, embora os ginásios com a sua marca tenham sido instalados em Lisboa e noutros pontos geográficos.
“Os algoritmos e o Computer Vision Software foram essencialmente desenvolvidos pela Void, uma tecnológica de Leiria. A espuma que enche o saco é produzida pela Leirispumas, o couro vegano vem também de uma empresa da região, tal como os sensores, as partes de plástico e os moldes. A metalomecânica é feita aqui e uma parte das máquinas que estão a equipar a nova fábrica da Bhout em Leiria estão a ser feitas pela Dommify”, ilustra.
A Dommify – Nextgen Technologies é uma empresa de soluções inovadoras de automação e robótica no âmbito da indústria 4.0, que também faz parte do ecossistema.
“Conseguimos produzir algo tão complexo como o saco de boxe da Bhout e temos tudo o que necessitamos de A a Z. Vem tudo da própria região num raio de 100 quilómetros. Podemos sonhar um produto, desenvolvê-lo, criá-lo, exportá-lo para todo o mundo e recorrer a fornecedores e a parceiros num raio de 100 quilómetros”, garante Vítor Ferreira.
Esta capacidade estende-se a outras fileiras económicas.
“Temos empresas nas áreas da fruta, da agricultura, da criação de animais, do vidro, do plástico e vemos que muitas delas se estão a transformar, e já incluem drones ou software IoT, como faz a Brainr, para a produção alimentar. É possível em qualquer um destes ramos de económicos irmos buscar as soluções necessárias dentro da região”, acrescenta o responsável.
“Já fazemos muita coisa, com cada vez mais engenharia avançada e temos empresas que ajudam outras a desenvolver as soluções que necessitam neste território.”
Empreendedorismo de impacto e economia social
A Startup Leiria lançou recentemente a Academy for Impact, um centro de empreendedorismo de impacto financiado pelo Portugal Inovação Social.
O programa visa conectar conhecimento que não é aproveitado – como programas europeus que geraram conhecimento, patentes ou investigações académicas no Politécnico de Leiria – com empreendedores sociais para resolver problemas concretos.
“Estamos a procurar o que existe e depois vamos cruzá-lo com empreendedores sociais e tentar usar esse conhecimento para resolver problemas. O nosso primeiro programa de aceleração acaba em Janeiro e temos muitas pessoas interessadas. Dentro da Startup Leiria, a área de impacto tem muita relevância”, diz o responsável.
O plano passa por criar startups de impacto com modelos de negócio sustentáveis, que não dependam exclusivamente de financiamento público.
“Embora tenhamos o objectivo de ter mais startups de impacto, com modelos de negócios sustentáveis, que não dependam de financiamento público e que tenham modelos de negócio que podem ser for-profit e auto-sustentáveis, estamos, no fundo, a treinar as pessoas e a capacitá-las para que isso possa acontecer”, adianta.
“Precisamos de aliar o impacto à sustentabilidade financeira. Não podemos esquecer que a Vinted e outras desse género são for-profit e empresas de impacto, com modelos de negócio super resilientes e de crescimento.”
Chamamento da região
A localização estratégica de Leiria e a qualidade de vida são razões para fixação de empreendedores e empresas.
“Estamos a falar de uma mancha de óleo de inovação e investimento que se está a espalhar para o norte de Lisboa, rumo a Leiria, constituída por investidores e stakeholders que querem explorar a qualidade de vida, a centralidade e o talento”, observa Vítor Ferreira.
Embora a habitação comece a ser cara em Leiria, ainda não está aos níveis de Lisboa, recorda o responsável.
Além disso, existe uma vantagem fiscal em estar fora da capital, na majoração dos fundos nacionais do PT 2030.
“Leiria fica na área de influência da capital, a uma 1:15 horas de Lisboa e 1:30 horas do Porto. Com a linha ferroviária de alta velocidade (LAV) será melhor ainda. Todas as cidades que estão no eixo da LAV vão ter um impacto altamente positivo.”
Neste momento, a região já atrai profissionais que trabalham remotamente para empresas de Lisboa.
“Temos incubados e pessoas que fazem parte de empresas de Lisboa, e rodam entre o nosso cowork e o teletrabalho. Quando há um meeting em Lisboa, poderão, no futuro, apanhar o comboio”, exemplifica Vítor Ferreira.
Falta de espaço limita crescimento
O sucesso da Startup Leiria trouxe, paradoxalmente, a sobrelotação, que impede o acolhimento de novas iniciativas empresariais.
“Precisamos de mais espaço. Estamos completamente lotados. Já temos uma lista de espera bastante grande e as pessoas cansam-se de esperar e desistem”, revela o director-geral.
“Isso inibe os nossos esforços de atracção de startups de outras geografias para Leiria, porque não temos espaço para as alojar.”
A curto prazo, a solução passa pela negociação com a Câmara Municipal de Leiria para expansão ao piso superior do edifício do lado, também do antigo mercado municipal, onde funcionava o antigo Centro Associativo Municipal.
“É uma conversa que estamos a ter há alguns meses com a autarquia, vamos ver como resulta. Isto seria uma solução interessante porque nos daria mais 900 metros quadrados, em apenas 6 a 8 meses de obra. Seria relativamente rápido”, acredita Vítor Ferreira.
A longo prazo, a ambição é maior. “Temos uma lógica orgânica dentro da própria cidade, mas tudo relativamente próximo, em termos geográficos.
Uma espécie de um grande campus na área onde se localiza a Startup Leiria e o topo norte do Estádio Municipal Dr. Magalhães Pessoa.”
A expansão é vista como crucial para manter a capacidade de captação de empresas.
“Um novo espaço agilizaria o processo de incubação e traria mais startups e mais inovação para a região de Leiria. No fundo, estamos a falar de uma mancha de óleo de inovação e investimento que se está a espalhar desde a zona norte de Lisboa até Leiria e Pombal”, descreve.
Como a Startup Leiria ajuda a montar novas startups
O processo de transformar uma ideia em negócio passa por três fases distintas, cada uma com metas e ferramentas específicas. Na fase de pré-incubação, os empreendedores são ajudados a validar a ideia, a definir o problema que pretendem resolver e a identificar o mercado, através da criação do modelo de negócio.
Segue-se a incubação, onde a equipa é apoiada na formalização da empresa, desenvolvimento do Produto Mínimo Viável (MPV) e na criação da primeira estratégia de entrada no mercado.
Finalmente, a aceleração foca-se em startups que já têm produto e clientes, mas precisam de escalar rapidamente, com crescimento de vendas e internacionalização.
A mentoria é um dos pilares fundamentais deste processo.
A Startup Leiria coloca os empreendedores em contacto com uma rede de mentores, constituída por empresários, investidores e especialistas de diversas áreas, que oferecem orientação estratégica e aconselhamento em finanças, questões legais, marketing, vendas e desenvolvimento tecnológico.
O acesso a financiamento é outro elemento essencial.
A incubadora prepara as startups para angariar investimento através de treino intensivo para apresentações a investidores (pitches), a conexão com business angels e fundos de capital de risco, como a Portugal Ventures ou fundos regionais, e apoio em candidaturas a programas de apoio e fundos comunitários.
A Startup Leiria promove ainda eventos, oficinas e sessões de networking, permitindo que os empreendedores troquem experiências e criem parcerias, facilitando a ligação das novas startups ao tecido empresarial mais consolidado da região e a parceiros estratégicos.
Em termos de infraestrutura, fornece escritórios privados ou espaços de coworking com acesso a serviços administrativos, salas de reunião e laboratórios, em parceria com outras entidades como o Politécnico de Leiria, ajudando a reduzir os custos iniciais das empresas nascentes.










