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Home Sociedade

Dois pares de botas, mil eiras e outros tantos kms para cartografar património de Ansião

Levantamento histórico

Jacinto Silva Duro Jacinto Silva Duro
7 de Março de 2026
em Sociedade
João Forte caminhou cerca de 1700 kms sem sair de Ansião
João Forte caminhou cerca de 1700 kms sem sair de Ansião
João Forte caminhou cerca de 1700 kms sem sair de Ansião
João Forte caminhou cerca de 1700 kms sem sair de Ansião
João Forte caminhou cerca de 1700 kms sem sair de Ansião
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João Forte, geógrafo físico e docente do ensino superior, gastou as solas de dois pares de botas de montanha para, no último ano, percorrer, praticamente, todos os caminhos e carreiros do concelho de Ansião, num total de 1.700 quilómetros, a fim de concluir aquele que já é considerado, entre a comunidade científica, como o mais extenso trabalho de inventariação municipal realizado em Portugal.

Pegadas pré-históricas, formações cársicas como canhões, campos de lapiás, dolinas, charcas, fósseis, exsurgências (olhos de água), nascentes e minas de água, eiras, noras e engenhos, bases de moinhos e até pedreiras e antigas minas, provavelmente de tempos romanos, fazem parte deste levantamento.

“Não tenho a mínima dúvida que este trabalho vai ser um marco”, afirma o investigador, sublinhando que o trabalho servirá para “abrir portas a nível académico” e tornar-se um exemplo a seguir.

A submissão dos resultados está prevista para este mês de Março, na prestigiada revista internacional Geoheritage (The International Journal of Geoheritage and Parks).

A descoberta mais mediática deste estudo promovido e contratado pelo município local aconteceu logo no primeiro dia dos 100 dias de trabalho no terreno, marcando-o de forma quase profética.

João Forte aponta o achado de pegadas de dinossauro como um dos momentos mais altos.

Após a limpeza do local, confirmou-se a existência de, pelo menos, dois trilhos distintos, num processo que contou com a validação do paleontólogo Silvério Figueiredo.

O inventário revela uma densidade patrimonial e antropológica impressionante.

“Já passei a barreira das mil eiras inventariadas”, revela o geógrafo, explicando que, por vezes, fez descobertas a partir da tradição oral local ou mesmo de inusitadas referências onomásticas, como “rua do Minério”.

“Um nome assim pode indicar, e indicou, a existência de extracções mineiras e depósitos de escórias cuja memória se havia perdido”, conta.

As duas fórneas de Ansião

Largas dezenas de noras em Chão de Couce, bases de moinhos e antigas minas de gesso que funcionaram até à década de 80, juntam-se a uma lista que conta ainda com fórneas, imponentes anfiteatros naturais que também existem na serra de Sicó, apesar do seu desconhecimento geral.

“Temos uma que está localizada entre a serra da Ameixeira e a serra de Casal Soeiro, e outra entre a serra de Casal Soeiro e serra da Portela.”

Até ao momento, foram referenciados 261 locais de interesse geológico, incluindo cascatas, campos de lapiás e grutas com mais de 60 metros de profundidade.

O esforço de inventariação foi realizado em condições extremas, com temperaturas altas e um episódio de insolação, contudo, nada o fez esmorecer, movido por “uma questão de orgulho ser de Ansião e querer fazer o trabalho mais completo”.

O primeiro passo deste trabalho, o levantamento, foi concluído no final de Janeiro, e tem o potencial de servir — caso seja esse o entendimento da entidade promotora — para a criação de uma estratégia de geoconservação e promoção do território, como explica João Forte.

A informação permite classificar geo-sítios, incluí-los no PDM e potenciar o geoturismo e a vertente educacional com as escolas locais.

A meta para o geógrafo é clara: “Transformar este vasto conhecimento num motor de desenvolvimento sustentável e orgulho para o território de Ansião.”

Tópicos: AnsiãoJoão Fortelevantamentopatrimónio
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