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A origem da tragédia

O grande dano colateral (mas também tão directo que dói no corpo) é a saúde mental

Fernando Ribeiro, músico Fernando Ribeiro, músico
7 de Março de 2026
em Opinião
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Fernando Ribeiro, músico
Fernando Ribeiro, músico7 de Março de 2026

Sendo a primeira vez que publico a minha crónica desde que a tempestade Kristin assolou a área de Leiria, não há como evitar o trágico assunto que, por ora, domina as nossas atenções. Depois da destruição, simultâneo à lenta reconstrução do “que se foi”, aparece o trauma que estará para sempre associado a este início terrível de ano. E é dele que quero falar. 

O grande dano colateral (mas também tão directo que dói no corpo) é a saúde mental e será preciso um esforço ainda maior da comunidade para ajudar a resolver o desgaste que habita as cabeças daqueles que viram os telhados a voar, as paredes a ruir, as árvores a tombar.

Quem foi ajudar, teve não só o privilégio de mitigar utilmente o sofrimento, como beneficiou de algumas horas da improvável paz que traz o embalar de sacos com bens de primeira necessidade, o limpar sucata, detritos e matéria orgânica das ruas, ou, simplesmente, o organizar-se logística, peditórios, canalizando recursos para quem mais precisa. Ao contrário da categoria moral kantiana que fala do (fazer) o bem “desinteressadamente”, aqui o bem tem interesse social, porque na metafísica não vivem velhinhos sem luz durante semanas, nem crianças sem água para tomar banho. Ajudar faz (nos) bem, a todos.

Ao contrário, a mais-que-sensação-uma certeza da solidão, insegurança e impreparação por parte do País político e decisor (salve-se o poder local) causou muita mossa às vítimas destas ocorrências. É, provavelmente, uma das evidências mais tristes desta catástrofe: a falta de empatia, de reacção, uma certa altivez governamental que agudizou decerto as penas das pessoas, barradas pela burocracia, iludidas pelas promessas e cada vez menos confiantes em quem votamos (ou não) para nos ajudar a salvaguardar a nossa vida e posses. 

Haverá mais cura em ca(u)sa própria do que em delegar em quem de “direito” e é essa confiança reencontrada em nós mesmos que nos salvará da exaustão mental que tão bem se nota quando se anda pelas ruas de Leiria. 

 

Tópicos: alcobaçacolateraldanoFernando Ribeirojornal de leiriaLeiriamúsicoopiniãosaúde mentaltempestade
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