A casa rosa atrás do portão acolhe uma exposição, até ao fim de Agosto, que pensa a ausência como forma de presença. Da Colecção de Arte Contemporânea do Estado, Corpo-Fantasma é um exercício sobre o que resta quando alguém já não está.
Ana David, da coordenação do espaço, fala da casa como quem fala de uma pessoa tímida: “De fora da cidade não se via a casa. Tínhamos que chegar ao portão para termos uma noção.” Esta singularidade arquitectónica – uma casa que não foi pensada para ser centro de arte, com salas que não foram dimensionadas para obras monumentais – é, paradoxalmente, a sua maior força. Impõe à curadoria um constrangimento que Ana David lê como oportunidade: “O constrangimento é um desafio. E eu entendo sempre os desafios como uma oportunidade de inovação.”
Mulheres visíveis
Marta Espiridião, jovem curadora, organizou a exposição em torno de três premissas: assinalar as aquisições da colecção, garantir uma presença feminina mais expressiva e trabalhar a dicotomia entre corpo e fantasma, visível e invisível. É neste último eixo que a exposição encontra o seu centro. O ponto de partida é quase clínico: o membro fantasma. A medicina conhece o fenómeno – o amputado que continua a sentir o braço que já não existe, que age como se ele lá estivesse. A curadora transpõe esta noção para o campo da arte: o fantasma não é o que assombra, é o que persiste. É a sensação de presença mesmo quando há ausência, a marca deixada por um corpo num espaço. A evidência de que houve alguém ali. Que algo foi tocado.
Entre as obras, veja-se o exemplo de Rosa Carvalho, inspirada numa pintura de Jacques-Louis David de 1800: uma chaise longue de estilo imperial, com uma almofada marcada pelo peso de um corpo. Na obra original, uma senhora está deitada. Na releitura de Rosa Carvalho, a almofada conserva o vinco, mas não há ninguém.
“Mas ela não pinta a obra só por isso”, nota Ana David. “Pinta porque acha que as mulheres, na pintura, foram durante muito tempo um elemento bonito, decorativo. É uma crítica a essa convenção.” O fantasma, aqui, é duplamente fantasma: a mulher ausente da tela e a convenção que a tornara, durante séculos, apenas ornamento.
Actividades paralelas
A exposição tem ainda uma dimensão pedagógica: a equipa da Colecção do Estado trabalha com a casa de exposições num serviço educativo articulado com o Plano Nacional das Artes — tirar os miúdos da escola, trazê-los para lá, fazê-los trabalhar com as obras.
E depois há uma frase da curadora: “o futuro pertence aos fantasmas”, e que fica a pairar na sala. Mas é também, talvez, a mais justa para um espaço como este. Uma casa durante muito tempo fechada à rua, uma colecção que prefere o avesso do cânone, uma exposição que pensa a ausência como forma de presença. Se o futuro pertence a alguém, que seja aos fantasmas, esses que insistem em ficar quando todos os outros já saíram.
Dos 28 artistas em exposição, até 30 de Agosto, dois são de Leiria – João Gabriel e Didier Fiúza Faustino. É uma posição que merece ser sublinhada. Num tempo em que se confunde frequentemente valorização do território com proteccionismo, a Villa Portela escolhe outra via: trazer artistas da região sem que isso determine a leitura da obra. O reconhecimento não é geográfico; é artístico. A região empodera-se não por fechar-se sobre si, mas por se reconhecer em circuitos mais largos.











