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Home Viver

Colecção do Estado: os fantasmas que habitam a Villa Portela

Pedro Miguel Carvalho Pedro Miguel Carvalho
02/08/26 10:08
em Viver
Colecção do Estado: os fantasmas que habitam a Villa Portela
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A casa rosa atrás do portão acolhe uma exposição, até ao fim de Agosto, que pensa a ausência como forma de presença. Da Colecção de Arte Contemporânea do Estado, Corpo-Fantasma é um exercício sobre o que resta quando alguém já não está.

Ana David, da coordenação do espaço, fala da casa como quem fala de uma pessoa tímida: “De fora da cidade não se via a casa. Tínhamos que chegar ao portão para termos uma noção.” Esta singularidade arquitectónica – uma casa que não foi pensada para ser centro de arte, com salas que não foram dimensionadas para obras monumentais – é, paradoxalmente, a sua maior força. Impõe à curadoria um constrangimento que Ana David lê como oportunidade: “O constrangimento é um desafio. E eu entendo sempre os desafios como uma oportunidade de inovação.”

Mulheres visíveis

Marta Espiridião, jovem curadora, organizou a exposição em torno de três premissas: assinalar as aquisições da colecção, garantir uma presença feminina mais expressiva e trabalhar a dicotomia entre corpo e fantasma, visível e invisível. É neste último eixo que a exposição encontra o seu centro. O ponto de partida é quase clínico: o membro fantasma. A medicina conhece o fenómeno – o amputado que continua a sentir o braço que já não existe, que age como se ele lá estivesse. A curadora transpõe esta noção para o campo da arte: o fantasma não é o que assombra, é o que persiste. É a sensação de presença mesmo quando há ausência, a marca deixada por um corpo num espaço. A evidência de que houve alguém ali. Que algo foi tocado.

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Entre as obras, veja-se o exemplo de Rosa Carvalho, inspirada numa pintura de Jacques-Louis David de 1800: uma chaise longue de estilo imperial, com uma almofada marcada pelo peso de um corpo. Na obra original, uma senhora está deitada. Na releitura de Rosa Carvalho, a almofada conserva o vinco, mas não há ninguém.

“Mas ela não pinta a obra só por isso”, nota Ana David. “Pinta porque acha que as mulheres, na pintura, foram durante muito tempo um elemento bonito, decorativo. É uma crítica a essa convenção.” O fantasma, aqui, é duplamente fantasma: a mulher ausente da tela e a convenção que a tornara, durante séculos, apenas ornamento.

Actividades paralelas

A exposição tem ainda uma dimensão pedagógica: a equipa da Colecção do Estado trabalha com a casa de exposições num serviço educativo articulado com o Plano Nacional das Artes — tirar os miúdos da escola, trazê-los para lá, fazê-los trabalhar com as obras.

E depois há uma frase da curadora: “o futuro pertence aos fantasmas”, e que fica a pairar na sala. Mas é também, talvez, a mais justa para um espaço como este. Uma casa durante muito tempo fechada à rua, uma colecção que prefere o avesso do cânone, uma exposição que pensa a ausência como forma de presença. Se o futuro pertence a alguém, que seja aos fantasmas, esses que insistem em ficar quando todos os outros já saíram.

Artistas de Leiria representados

Dos 28 artistas em exposição, até 30 de Agosto, dois são de Leiria – João Gabriel e Didier Fiúza Faustino. É uma posição que merece ser sublinhada. Num tempo em que se confunde frequentemente valorização do território com proteccionismo, a Villa Portela escolhe outra via: trazer artistas da região sem que isso determine a leitura da obra. O reconhecimento não é geográfico; é artístico. A região empodera-se não por fechar-se sobre si, mas por se reconhecer em circuitos mais largos.

Tópicos: exposiçõesLeiriaVilla Portela

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