Há dez anos que estuda, com a sua equipa, o Abrigo da Buraca da Moira, no vale dos Murtórios, na Boa Vista, em Leiria. Em traços gerais, em que consiste o EcoPLis?
Temos duas vertentes. Uma científica, para fazer o desenvolvimento da ciência, do conhecimento e outra pedagógica, para formar estudantes, para que depois possam também desenvolver outros estudos. A finalidade científica prende-se com as características da região. Está muito na voga falar-se das alterações climáticas, mas elas não são uma novidade. São um pulsar da forma como o planeta funciona e que tem a ver, por exemplo, com a distância do planeta ao Sol, que não é sempre a mesma. Sabemos que, entre 27 mil e 19 mil anos atrás, houve uma grande crise climática, quando o planeta esteve mais frio. A leitura do planeta mostra-nos que, nos períodos quentes, as calotas polares são menores e, portanto, há mais água em circulação e mais vida. Quando está mais frio, há menos água disponível, porque está congelada, e há menos biodiversidade. No período que estamos a estudar, através de escavações em Leiria, na Buraca da Moira, vemos populações caçadoras-recolectoras, com menos meios para mitigar o frio e menos recursos. Esse tempo, ao qual chamamos o último “máximo glaciar”, é um período de muito frio. Era possível ir à Berlenga a pé, pois o nível do mar estava cerca de 130 metros mais baixo do que agora, devido à água retida nos pólos e nas montanhas. Mas havia locais onde, apesar das dificuldades, havia condições boas, ou pelo menos melhores, para viver.
Tais como?
Um deles é a região da Estremadura, onde há uma zona fantástica que é a bacia do Lis. Embora não seja um rio muito grande como o Tejo ou o Douro, nasce nas montanhas, atravessa uma série de regiões em calcário e vai desaguar ao mar, que, à época, estava muito mais afastado. Ao longo de muitos anos a correr por esta região, o Lis e os seus afluentes criaram uma série de grutas e de abrigos, em vales abrigados como o dos Murtórios, na Boa Vista, o do Lapedo ou o das Chitas, onde havia nascentes que corriam o ano inteiro e vegetação. Onde havia vegetação, havia animais para caçar e excelentes condições para se sobreviver. Nós queremos saber como essas pessoas viviam nessa época e quais as suas características. Este território é quase um laboratório, porque é relativamente pequeno, conseguimos correr a paisagem com alguma facilidade e ir da montanha até ao mar e perceber por que razão aqueles sítios específicos foram escolhidos em detrimento de outros. Depois, iremos transpor esse retrato para territórios maiores, como os vales do Tejo ou do Douro.
E a questão pedagógica do trabalho?
É, no fundo, explicar aos estudantes estas problemáticas, porque estudar o Paleolítico e o ambiente, para quem vem da arqueologia, que é uma área associada à História, representa algumas dificuldades. É muito mais fácil mostrar um castelo, um aqueduto romano ou um mosaico romano, que as pessoas vêem, do que estar a analisar pequenos pedaços de fauna, de carvões e de artefactos em pedra talhada. Estudando estas problemáticas, conseguimos apresentar e propor modelos, ideias e propostas para que, até os decisores, tomem medidas de uma forma mais sólida. Na arqueologia, e principalmente na pré-história antiga e no Paleolítico, conseguimos ver as problemáticas e os fenómenos com uma grande distância temporal e conseguimos ver os padrões. Como é que a natureza se comporta, como é que podemos lidar com o fenómeno e como é que podemos gerir o território a partir destes padrões?
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Na Buraca da Moira encontraram milhares de vestígios humanos, entre dentes, falanges, fragmentos de mandíbula e outros ossos de pequena dimensão. Mas quem eram as pessoas mais antigas que habitavam esta região que, no máximo glaciar, era mais parecida com uma estepe árctica, fria, sem árvores e com vales cheios de vegetação e de caça?
É isso que estamos a investigar. Temos, na gruta, muitos vestígios mais recentes, do Neolítico e do Calcolítico, mas, do período entre há 27 mil e 19 mil anos, são apenas seis dentes. Não é uma coisa de encher o olho, como os achados do Abrigo do Lagar Velho, mas, com a tecnologia que existe hoje, estamos a trabalhar estes dentes, que se preservam muito bem e guardam informação relativa à mobilidade, aos códigos genéticos e a outras questões. São de Homo sapiens, portanto de populações de humanos modernos, ou pessoas iguais a nós, que, há cerca de 42 mil anos, entraram na Europa e vieram viver para a nossa costa e para o vale do Lis. Esses humanos têm características específicas em cada uma das regiões europeias. O que não sabemos são as características genéticas que esta população tem no território que corresponde a Portugal, porque os estudos nunca foram feitos. Os dentes encontrados há pouco tempo estão a ser processados para análise, porque queríamos garantir que iríamos conseguir fazer boas réplicas e que a informação seria trabalhada nos melhores laboratórios. Poderemos ter estes resultados muito em breve.
Há algo mais no sítio da Boa Vista que indique questões culturais ou movimentação no território?
Sabemos que comiam javali, cavalo, corço e veado, animais que se encontram aqui na Estremadura. As culturas são o Gravetense e o Solutrense, que não correspondem exactamente ao mesmo intervalo, mas é muito parecido com o do Lagar Velho e, como a gruta é pequenina, nunca poderia haver ali um acampamento grande. Parece-me ser uma de duas coisas, que estão a ser alvo de dissertações de mestrado e de uma tese de doutoramento. Ou uma zona de bivaque para observação para depois fazer a caça ou um espaço de paragem temporária enquanto as populações circulavam entre a costa e as montanhas mais para o interior profundo da Serra de Aire. São caçadores-recolectores que circulavam bastante numa paisagem recortada e com muito relevo. Por onde é que eles passam? Preferencialmente, por estes vales encaixados, porque têm tudo. Há água, há alimento, tanto vegetal como animal, e uma série de abrigos onde podem pernoitar e parece ter sido o caso desta gruta, o Abrigo da Buraca da Moira, onde os indícios nos mostram que se faziam pequenas lareiras e se consumia uma quantidade de carne da fauna. Ali, temos ossos pequenos que nos permitem identificar grande parte da fauna. Estamos a fazer um estudo para conseguirmos ir mais fundo nessa questão, com colegas indianos, apoiados por laboratórios na Alemanha, para os conseguirmos classificar através de estudos moleculares.
Este abrigo, afinal, era uma gruta, que foi desmontada em parte pela exploração de uma pedreira, mas antes disso teve mais usos, até o de necrópole.
É isso que estamos a averiguar agora, com esta dissertação de mestrado e com o doutoramento. Após o máximo glaciar, quando as populações de caçadores-recolectores desaparecem e são substituídas por uma nova economia, pelos agricultores, as grutas são usadas para outro fim. Já não para viver, porque as pessoas vivem em pequenos povoados, em cabanas, perto dos campos e da comida. Como a comida está parada, eles também estão parados e, portanto, o povoamento é diferente. Mas precisam de marcar o seu território, que acaba por ser definido depositando os mortos ou em antas, construídas onde não há grutas, ou dentro delas, como aqui na Estremadura, onde existem muitas, num ritual funerário. No País e na região, praticamente em cada gruta em que se entra há uma necrópole, o que indica que, durante milhares de anos, haveria alguma densidade populacional.
O que vai acontecer agora? Há mais alguma fase programada?
Este ano tive uma série de mudanças, mudei-me para a Universidade do Minho com a família, e isso coincidiu com o final dos quatro anos desta fase do EcoPLis. Este ano parámos para dar o pontapé de saída a uma série de teses académicas, de estudos e de publicações que, nalguns casos, até estão um pouco atrasados e já deveriam ter saído. Portanto, estamos numa fase de escrita. A nossa meta, para o ano, é ir, não com grandes grupos, porque a gruta é pequenina e não dá para ter lá dez ou 15 pessoas ao mesmo tempo, mas com estudantes já muito direccionados e muito focados. Tendo em conta a importância da gruta, também convém que quem vai para lá já tenha algum treino, porque assim evitam-se erros desnecessários. Resumindo, a ideia é continuarmos a trabalhar lá, porque temos bons resultados, mas agora temos de publicar, e isso demora algum tempo, e também temos de processar os dados recolhidos.
O nome, Buraca da Moira, e as lendas de locais com mouros e mouras encantadas são mesmo um prenúncio de achados arqueológicos pré-históricos?
Os cientistas são muito bons a perceber as boas ideias de outras ciências, tais como a antropologia e a etnografia. Sabemos que as populações quando encontram um espaço e nele identificam coisas que sabem que foram feitas por pessoas, que não são da mesma cultura ou da cultura que conhecem, remetem-nas para o passado. Em Portugal, isso é muito comum. Acresce que, o passado, para a população tradicional cristã, eram os mouros, porque eram aqueles que ali tinham estado antes. Os cristãos, na Reconquista, conquistaram quem estava antes, que eram os mouros. Na Estremadura, onde há muitas grutas, há dezenas e dezenas de buracas das mouras, das moiras e dos mouros. É uma designação que se aplica a outras coisas também, até às antas. Existem imensas que são a “casa da moura” ou a “cova da moura”, como a famosa e mal-afamada localidade, na Amadora, tem também lá grutas e tem vestígios. Em qualquer local que tenha esta designação, é quase certo que encontramos algo. Às vezes não é pré-histórico, às vezes é uma construção que pode ser romana, e isso é muito interessante, pois os romanos, como cultura, não ficaram na memória. Muitas pessoas não remetem para os romanos e só o fazem depois de irem à escola. Fala-se dos romanos como população, mas tradicionalmente, no topónimo, não existem: só há mouros.
Abrigo da Buraca da Moira mostra pré-história do Lis
As escavações arqueológicas no Abrigo da Buraca da Moira, na freguesia de Boa Vista(Leiria), continuam a revelar segredos fundamentais sobreo povoamento humano na Bacia do Lis.










