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João Caldeira Heitor: Quem se preocupa com o que não se vê?

João Caldeira Heitor, Coordenador Científico da Licenciatura em Gestão do Turismo do Instituto Superior de Gestão João Caldeira Heitor, Coordenador Científico da Licenciatura em Gestão do Turismo do Instituto Superior de Gestão
10/09/26 09:09
em Opinião
João Caldeira Heitor: Quem se preocupa com o que não se vê?
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João Caldeira Heitor, Coordenador Científico da Licenciatura em Gestão do Turismo do Instituto Superior de Gestão

Passaram sete meses sobre a madrugada de 28 de janeiro. Hoje, percorremos alguns dos territórios mais afetados e percebemos que, afinal, a Kristin ainda não passou. Continuamos a ver árvores caídas e partidas, florestas profundamente alteradas e casas onde permanecem as marcas da destruição. A catástrofe veio expor os limites do Estado, das autarquias, das empresas e das comunidades.

Houve apoios públicos e a mobilização de instituições, associações, empresas e cidadãos. Houve solidariedade. Mas houve também famílias com despesas elevadas, seguros insuficientes, processos demorados e apoios aquém do necessário para reconstruir. Podemos contabilizar casas, estradas, postes, árvores, empresas e milhões de euros de prejuízos.

Mas há uma pergunta que raramente fazemos: e as pessoas? Quem mede aquilo que ficou na memória de quem viveu aquela noite? Quem mede o medo de uma criança que acordou com o vento, telhas a partir e árvores a cair? Ou a inquietação de quem, perante uma nova noite de chuva e vento, regressa inevitavelmente àquela madrugada? Quem mede o impacto de abrir a porta de casa, da fábrica, da oficina ou do pequeno negócio e encontrar destruído aquilo que demorou anos, talvez uma vida, a construir?

A reconstrução material vê-se. Tem orçamento, empreitada e prazo. A outra não. Seguir em frente não significa esquecer, nem deixar cada pessoa entregue à sua capacidade de ultrapassar o que aconteceu. Uma comunidade também se mede pela forma como acompanha os seus membros depois de desaparecerem a imprensa e a emergência deixar de ser notícia. Existe ainda outra reconstrução: a do território.

A tempestade transformou profundamente as paisagens. Onde existiam manchas verdes e árvores adultas ficaram clareiras e espaços que levarão anos a recuperar. E isso também tem consequências económicas. O turismo vive de alojamento, restauração, atrações e acessibilidades, mas também da perceção de um lugar. A paisagem faz parte da identidade de um destino.

Podemos reconstruir um telhado em três semanas, porém não conseguimos devolver uma árvore adulta em três anos. Na região Centro, o património natural, a paisagem, a tranquilidade e a diversidade do território são importantes argumentos turísticos. Contudo, dificilmente conseguiremos medir o tempo necessário para devolver a alguns lugares o brilho que tinham antes daquela madrugada.

Precisamos de discutir prevenção, capacidade de resposta, seguros e mecanismos de apoio. Há que alargar a ideia da reconstrução. Reconstruir é recuperar casas, estradas, empresas, mas sobretudo confiança. É acompanhar comunidades e não esquecer as pessoas quando aquilo que ficou partido já não é suficientemente visível para aparecer nas notícias. Sete meses depois, talvez a pergunta mais importante seja outra: quem continua a preocupar-se com aquilo que não se vê?

Tópicos: João Caldeira HeitorKristinopinião

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