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A sina do manga de alpaca

"Se o problema é do sistema não posso fazer nada. Têm que se mexer por outro lado. Ou voltar noutro dia"

João Lázaro, psicólogo clínico e director do TE-ATO João Lázaro, psicólogo clínico e director do TE-ATO
10 de Setembro de 2026
em Opinião
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João Lázaro, psicólogo clínico e director do TE-ATO
João Lázaro, psicólogo clínico e director do TE-ATO10 de Setembro de 2026

Isto hoje está calmo. Deve ser por não haver aulas. Pouco trânsito. Com sorte talvez consiga estacionar na transversal por trás do serviço. A esta hora pode ser que aconteça aquele fulano do carro azul estar para sair e aproveito o lugar dele. Fica encostadinho à parede, mas saio pela porta do pendura. Tenho é que recolher os retrovisores. O meu para não riscar na parede, o do lado direito também, não vá alguém passar com um embrulho ou uma caixa e dar-me uma pantufada no espelho. Ou passar algum daqueles parvalhões montados numa trotineta, desequilibrar-se e riscar-me o carro.

O gajo é que tem sorte! Para o carro mesmo à porta de casa! Deve viver ali perto, acho eu. Está lá sempre. Mesmo ao domingo, que eu de vez em quando gosto de passar por lá só para ver se algum gandulo não anda por ali a tirar medidas, a estudar as rotinas e a ver se o edifício ficou bem fechado. Ele há gente para tudo. Não é que haja lá dinheiro, foi bem inventada esta coisa de se pagar tudo com cartão, mas estão lá os computadores e são coisa que se leva de baixo de um braço. Não que sejam meus, o serviço deve ter seguro para essas coisas, mas ainda era capaz de desarrumar a papelada toda só para chatear.

Se tiver lugar ainda tenho tempo para ler as gordas no jornal enquanto bebo a bica. Isto se aquele velho ranhoso que se senta sempre na mesa do canto da esplanada não o tiver já sacado. Sacana do velho está lá sempre. Até parece que não tem mais nada para fazer. Até deve dar prejuízo. Bebe um café e fica para ali como se tivesse lugar cativo. Um abusador, é o que é.

Já reparei que faz sempre as palavras cruzadas. Não está certo. O jornal não é dele. Quanto muito lia o que tinha a ler e ia por o jornal no sítio. O jornal é do café, não é dele. Ainda bem que nunca tive que o atender. Estava lixado. Ou trazia a papelada toda preenchida como deve ser ou saía por onde entrou. Que voltasse mais tarde para tirar outra senha e esperar a sua vez. Em vez de ir logo para o café ia para a fila como os outros.

Levantava-se cedinho e ia amochar uma hora e tal até que o segurança abrisse a porta e desse ordem para entrarem. Dizia ao que ia e o segurança carregava na tecla respetiva e que esperasse na cadeira a olhar para o écran até chegar a vez dele. Há vezes em que até parece que são burros, veem o número e vão logo chatear, nem percebem que aquilo funciona por letras e cores. Só atrapalham e fazem-nos perder tempo. Valha-nos o sistema.

Ao princípio ainda me atrapalhava um bocado, mas depois, depois da formação e com a prática, lá encarrilhei. Agora é simples, introduz-se o NIF e está tudo ali escarrapachado. Antigamente não, era uma trabalheira. Tinha uma pessoa que se levantar e, por vezes, quando eram coisas mais antigas, tínhamos que ir ao arquivo. Que aquilo até fazia mal à saúde, só pó e traças e alguns livros de registo até eram pesados. Agora não, é mais fácil, é só procurar no écran.

Já aconteceu o sistema ir abaixo. Aí é uma chatice. Ou pior ainda, haver situações em que o sistema não resolve. Lá temos que explicar que a culpa é do sistema. E aqueles brutos ainda nos dizem “Então resolva!” Uma pessoa tem que ouvir cada desaforo. Vê-se mesmo que não percebem nada daquilo. Se o problema é do sistema não posso fazer nada. Têm que se mexer por outro lado. Ou voltar noutro dia. A única chatice é que só posso sair à hora por causa do relógio de ponto. Quando acontece aproveito para fazer umas palavras cruzadas de uma revista que comprei há tempos.

Tópicos: João Lázaroopinião
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