
É obsceno viver num mundo em que é preciso coragem para dizer que matar crianças é errado, não acham? Isto deveria ser apenas o mínimo denominador comum daquilo a que, por falta de palavra melhor, ainda chamamos humanidade. E aqui chegámos, insensíveis com milhões de pessoas a viver sem futuro, mas espumar de adrenalina perante a pequena elite que acumula fortunas que já não cabem numa conta bancária nem numa escala moral.
A extrema-direita, entretanto, continua a crescer e a engordar, porque se alimenta da ignorância e porque sabe cavalgar sobre a desgraça. E, no meio disto tudo, há artistas que decidem fazer uma coisa perigosíssima: falar. Falar pela Palestina.
Como “esquerdalho” que sou, admiro-lhes a coragem; continuo a achar que normalizar a mentira lesa a decência das sociedades; que ignorar deliberadamente o sofrimento dos mais fracos é uma manifestação atroz de desumanidade; que glorificar facínoras como Putin, Netanyahu ou Trump é abjeto e próprio de pessoas profundamente mal formadas; e que a vida de um ucraniano, russo, iraniano, libanês, israelita, americano ou palestiniano vale tanto como a vida de qualquer outra pessoa.
São assim os “esquerdalhos” e deveriam ser assim todas as pessoas que se angustiam com o genocídio e a limpeza étnica que o Estado de Israel está a levar a cabo em Gaza e no Líbano. Mas logo vem o embaixador sionista acusar-nos de antissemitismo. Criticar um governo, denunciar crimes de guerra ou defender os direitos dos palestinianos não transforma ninguém num inimigo dos judeus.
A mesma tática usa a cantora Né Ladeiras, sempre com um insulto à mão, a atacar todos os que se indignam com as ações do Governo de Israel. A senhora é uma espécie de Maria Vieira, mas mais perigosa, porque é um pouco mais instruída, mas também mais rasteira, ao ponto de ter perdido tempo a manipular uma fotografia minha, colocando-me uma bandeira de Israel no peito, algo que, se fosse verdade, me causaria hoje vómitos e total repulsa. E é uma pena. Porque discordar não é uma agressão. E responder a argumentos com ataques pessoais não transforma alarvidades em argumentos válidos.
Felizmente, ainda há artistas que continuam, com grande coragem e dignidade, a ter uma voz justa, solidária, empática e humana. Artistas que não compactuam com silêncios comprometedores e cúmplices, embora eu ache que, no caminho que o mundo está a seguir, já nem a música nos vai salvar. Aqui em casa, a da Né já não salva de certeza.









