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Home Opinião

De pé com as mãos | O deserto e a ilha

Ricardo Gomes, artista plástico e formador Ricardo Gomes, artista plástico e formador
17/09/26 08:09
em Opinião
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Ricardo Gomes, artista plástico e formador

DIA 1

Somos uma ilha.

John Donne não concordaria. Defendia o poeta que «nenhum ser humano é uma ilha isolada». No entanto, é essa a primeira condição que temos de aceitar quando vivemos em Portugal. Há países que estão no centro; nós estamos no canto. No fim da Europa, com o mar a bater-nos nas costas e sem mais para onde fugir, nesta solidão de sentinela cega que vigia um horizonte vazio, condenados a ser a varanda de pedra onde a Europa espreita o abismo. Ou então meros inquilinos de um beco sem saída que finge ser oceano.

Temos fronteira com Espanha, sim, no mapa. Na alma, não. Somos uma ilha continental, cercados de mar por um lado e de imensidão por outro. E por isso sentimos a necessidade orgânica de fazer parte de um continente maior, do todo da humanidade de que Donne falava.

Mas para sairmos de nós, para o português chegar à Europa, a distância é sempre a dobrar. Temos de atravessar um deserto. E o nosso deserto chama-se Espanha.

Não se trata de uma afronta dos homens, mas de um decreto da terra. É que Espanha não é um país que simplesmente se atravessa; é uma provação que se vence. É larga, amarela, infinita. Sair de Portugal de mota no Verão é isto: metes o fato e já estás a suar. São trinta graus à sombra, mas tu não tens sombra. Tens apenas uma estrada branca a perder de vista na Meseta, horas e horas de nada, de trigo seco, de miragens de gasolineiras e de um calor sufocante que sobe do alcatrão e te entra pelo capacete.

Há quem veja a viagem como um catálogo de prazeres geométricos e confortáveis, uma bela coreografia hedonista para uma metafísica de acamado onde o corpo nunca deve sofrer — como propõe Michel Onfray. Mas a geografia que me move exige outra moeda de troca. Não se conhece o mundo sem lhe pagar um tributo em pele e cansaço, há caminhos que só se revelam quando o corpo é testado até ao limite. Na mota, a beleza não se pede ao prazer; conquista-se no asfalto incandescente.

Vais cozer dentro do fato, colado ao depósito, sentindo o suor a escorrer-te em bica, colando a pele ao tecido como uma armadura de tortura, enquanto o motor zumbe como um insecto fiel. Quem anda de mota sabe que o ruído do motor e o vento não ficam na estrada — entram connosco no hotel, deitam-se connosco na cama e continuam a ecoar na cabeça durante horas, como um fantasma acústico da viagem.

Meseta não é um clima, é uma parede invisível contra a qual bates a cento e vinte quilómetros por hora — nem mais um metro, por causa dos radares que vigiam a planície.

Cada quilómetro àquela velocidade exacta parece durar o dobro, como uma tensão muda. Se dependesse do instinto, era a rasgar o horizonte para fugir dali; mas a lei condena-nos à lentidão. Manter essa cadência imutável torna-se uma tortura compassada. É o punho tenso, travado, enquanto a mota pede estrada e o asfalto nos vai bebendo o suor. Essa velocidade imposta não nos deixa fugir do calor; obriga-nos, sim, a saboreá-lo gota a gota  — um gosto seco a poeira e a alcatrão queimado que se cola ao céu da boca, com aquele travo metálico que a sede ganha, a mastigar o sabor a cinza e a fogo de uma planície que nunca mais acaba.

O ar que se respira é fogo líquido; entra pelos pulmões e queima. A desidratação instala-se na boca seca, pastosa, onde a água já não sabe a nada. A estrada deixa de ser asfalto e passa a ser uma chapa incandescente que te derrete os pneus e te baralha os sentidos. É um combate cego contra a vertigem do cansaço, onde o horizonte treme constantemente, e a concentração é como uma corda esticada ao limite.

Mil quilómetros seguidos não são quilómetros. São horas de conversa contigo mesmo, o corpo a pedir para parar e a alma a dizer: «mais um pouco, já estamos quase a sair da ilha». Não é uma viagem. É uma travessia, uma penitência voluntária.

Portugal prende-te com carinho. É mãe-ilha. Diz-te «fica, aqui tens tudo». E tu, ingrato, queres ir. Então ela cobra-te portagem em suor e quilómetros.

Fazer mil quilómetros de mota para ir jantar a Guernica é estúpido. E é precisamente nessa inutilidade soberana que reside a sua beleza. Ninguém o faz por ser prático ou útil. Faz-se por ser necessário. É nessa deliberada falta de serventia que a viagem se redime, transformando-se numa peregrinação ao contrário, da forma mais dura e crua, para chegar a Guernica, a Omaha, ao outro lado do mundo. Uma forma de merecer a premissa de Donne de que «a perda ou o sofrimento de qualquer indivíduo diminui-nos a todos nós». Às vezes, é preciso atravessar o deserto para nos lembrarmos de por que razão gostamos da nossa Ítaca — essa mesma que tanto criticamos.


Dia 2

Ficámos em Mundaka: foi o nosso fôlego de mar e silêncio antes do embate com a história em Guernica. É o lugar onde a vertigem do infinito encontra a precisão da terra. Falar deste canto de Biscaia não é apenas descrever uma paisagem basca; é decifrar um poema escrito pela água e pelo tempo, um cenário onde a geografia se transforma em ilustração líquida.

Mundaka é a personificação da impermanência. Como observou o Guilherme filosoficamente, Mundaka é um templo dedicado ao pensamento de Heraclito: tudo flui. A sua famosa onda esquerda (entre as dez melhores do mundo) — que nasce na barra de Urdaibai — é, talvez, a melhor definição, não é um objecto fixo, mas uma escultura efémera. É a beleza que se destrói no mesmo segundo em que atinge a perfeição.

Naquele ritmo do estuário, onde o rio Oka se funde com o Mar Cantábrico, há um diálogo constante entre a doçura da terra e a fúria do oceano. A maré cheia e a maré vazia redesenham o mundo a cada seis horas nesse ciclo heraclitiano. Este ciclo mostra que a paisagem, tal como nós, nunca somos os mesmos.

Se observarmos a Ermida de Santa Catalina, empoleirada na falésia, vislumbramos um farol espiritual. É o ponto de transição entre o refúgio humano e o abismo do mar, assim como um verso de pedra que resiste à erosão.

Esta crónica não tem espaço para meditar sobre os três grandes conceitos existenciais que Mondaka suscita, de qualquer modo, fica a síntese possível:

A paciência exigida pelo “eterno retorno”, a espera pela onda é uma lição estoica sobre o tempo, ensina-nos que as condições perfeitas na vida são raras, cíclicas e exigem uma prontidão absoluta para quando finalmente decidirem manifestar-se. A dialética das forças, o resultado de uma tensão criativa, lembra-nos que a verdadeira harmonia e a beleza mais sublime não nascem da calmaria, mas sim do conflito equilibrado entre duas forças opostas. E o desapego, a onda humana, o Kairós grego —, onde o homem não contempla a natureza, mas torna-se parte dela.

Por fim, que Mundaka é uma metáfora da própria vida: uma foz onde as nossas certezas se dissolvem no imenso, e onde a única constante é a beleza do movimento. Mundaka foi o nosso fôlego de mar e silêncio antes do embate com a história.

Guernica

A Pele Escaldada

Há lugares no mundo que não se visitam; cumprem-se como um dever da consciência. Levar o meu filho a Guernica não foi um acto de turismo ou de colecionismo geográfico, mas a resposta a uma urgência muda. Se ele me perguntasse o que ali aconteceu, a minha voz falharia. Se eu cedesse à tentação soberba de domesticar o horror com lições de metafísica de café-concerto, a tentar explicar o inexplicável para iludir as incertezas da vida, estaria a traí-lo. Há fracturas na história que nenhuma pedagogia paternal consegue traduzir. Por isso, fomos: não para decifrar o passado, mas para nos colocarmos, juntos, perante o enigma da nossa própria fragilidade, onde as palavras estão reduzidas a escombros e a memória exige o testemunho do olhar

Antes de a história ser gravada a tinta nos arquivos ou traduzida na secura dos relatórios militares, a dor humana exige um idioma que o tempo não consiga apagar. Há tragédias tão profundas que a mera cronologia dos factos não consegue resgatar; momentos em que a realidade se estilhaça e só a alma de alguns artistas é capaz de recolher os pedaços. É no silêncio da tela que o grito sufocado se torna eterno, ao transformar a memória num eco que atravessa gerações.

Hoje, o horror que devastou Guernica a 26 de abril de 1937 não nos vem, na maioria das vezes, pela frialdade dos relatórios militares ou pelas páginas gastas dos manuais de história. Abraça-nos, antes, pelo olhar e pelo pincel indomável de Pablo Picasso. É na tela, e não no arquivo, que a memória da tragédia se faz carne; a arte torna-se o verdadeiro portal de entrada para o drama histórico.

Esta inversão — em que a representação artística se torna mais viva e perene do que o próprio acontecimento que a originou — resulta de uma verdade profunda.

Os detalhes militares tendem a esbater-se na memória colectiva à medida que as décadas passam, convertendo-se em assuntos de nicho para historiadores. O quadro de Picasso, contudo, ignora as barreiras do tempo e do idioma. O rosto da mãe que chora com o filho morto nos braços, o cavalo que relincha de dor e o guerreiro caído no chão transmitem uma angústia universal. Ao fazê-lo, a arte transfigurou uma tragédia local num manifesto eterno.

Recordar o contexto de Guernica é compreender as fracturas da Guerra Civil Espanhola (1936–1939) — um embate sangrento entre a legitimidade democrática do Lado Republicano e a insurgência militar do lado sublevado. Olhar para esse abismo ao lado do meu filho é incluir que tal herança não é um assunto do passado, mas uma lição viva.

Naquela primavera de 1937, a Guernica de Picasso foi antes a Guernica de Hermann Göring. Para a aviação alemã, a vila basca não passou de um ensaio clínico de «guerra total». Longe dos olhares do mundo, operou-se uma álgebra do horror: calculou-se com precisão milimétrica o impacto psicológico do pânico e mediu-se o poder de aniquilação ao combinar, sobre carne e pedra, a fúria das bombas explosivas com o fogo das incendiárias

Ao transmitirmos esta lição aos nossos filhos, sobressaem três factores centrais que demonstram como a geopolítica da época selou o destino da democracia espanhola. A República não sucumbiu apenas perante as forças do General Franco; foi asfixiada ao ser convertida numa guerra subsidiária. Enquanto o bando nacionalista recebia um fluxo massivo, regular e tecnologicamente devastador da Alemanha Nazi e da Itália Fascista, o governo legítimo viu-se tragicamente isolado. A assistência que a República obteve da União Soviética, além de cobrada a preço de ouro — literalmente esvaziando as reservas financeiras de Madrid —, fez-se acompanhar de exigências ideológicas que fracturaram e canibalizaram as próprias forças de esquerda por dentro.

Foi essa mesma autofagia que George Orwell testemunhou e imortalizou em Homenagem à Catalunha. Ao lutar nas trincheiras republicanas, o escritor britânico viu as armas de Estaline voltarem-se não contra o fascismo de Franco, mas contra os seus próprios camaradas anarquistas e marxistas dissidentes. Na repressão interna de Barcelona, Orwell compreendeu precoce e tragicamente que a República não estava apenas a perder a guerra no mapa; estava a ser corrompida na sua própria alma totalitária. Em Barcelona, a utopia republicana devorou os seus próprios filhos, ao transformar o sonho da resistência num espelho partido onde o fascismo já conseguia ver o seu reflexo vitorioso.

O segundo factor reside no cinismo da apatia internacional. Paralisadas pelo espectro de uma nova guerra mundial, democracias como a França e o Reino Unido promoveram o Comité de Não-Intervenção. Teoreticamente, o acordo impunha um embargo bilateral; na prática, esta política funcionou como uma sentença de morte para a Segunda República, legalmente impedida de adquirir armamento para a sua legítima defesa, enquanto Hitler e Mussolini rasgavam abertamente o tratado para municiar as forças de Franco.

Por fim, o terceiro factor desta tragédia expõe a fragilidade intrínseca das instituições. A queda de Espanha demonstra que a legitimidade do voto popular não assegura a sobrevivência de um regime se as suas estruturas de defesa e segurança forem infiltradas por facções dispostas a usar a força contra o próprio Estado. Quando o monopólio das armas abdica das regras democráticas para abraçar a violência ideológica, o colapso social torna-se inevitável e devastador.

Entregar esta memória aos mais novos é rasgar-lhes a ilusão de que a liberdade é ar que se respira de graça; é mostrar-lhes que a democracia é um corpo vivo e sangrante, uma trincheira aberta que se defende todos os dias com os dentes, sob a ameaça constante de nos ser degolada no escuro. É um campo de batalha, que exige garras afiadas e uma vigília de lobo para que não seja esmagada pela bota do primeiro tirano. Se desviares os olhos por um segundo, o monstro acorda e devora-te o futuro.


O Parto ao Contrário.

O bombardeamento de Guernica — imortalizado no clamor monocromático da tela de Picasso — permanece como um aviso intemporal do abismo para onde a rutura da ordem democrática nos pode arrastar. Aquela tinta cinzenta ainda não secou; continua a escorrer pelas paredes do presente, a lembrar-nos de que os monstros decapitados na tela estão apenas à espera que fechemos os olhos para saltarem do quadro.

Quase tudo o que se podia dizer sobre o que o Guernica mostra já foi dito. Que é sobre a guerra. Sobre o fascismo. Sobre a dor da mãe com o filho morto, o touro impassível, o cavalo estripado, o grito. Que é cubismo político, que é um jornal em forma de pintura, que é preto e branco porque era a cor das fotografias do bombardeamento nos jornais de Paris.

O que ainda não se disse é sobre aquilo que o Guernica cala. Guernica não é uma pintura da guerra. É uma pintura da impossibilidade de pintar a guerra. Todo o quadro de guerra até então tentava representar a acção: a batalha, o herói, a explosão. O Picasso faz o oposto. Não há aviões. Não há bombas. Não há alemães. Não há sequer a vila de Guernica.

Ele pinta o que sobra quando o acontecimento já se foi embora. É o primeiro quadro aporético da História: ele prova a falência da representação ao representar essa mesma falência. É por isso que não tem cor. Não é uma escolha estética. É uma recusa ontológica. O mundo ficou sem espectro. Quando o real se torna absoluto de mais, queima a cor.

Neste sentido, o Guernica está mais próximo de Levinas do que de Marx: não é um manifesto, é uma ética do Rosto. Aqueles rostos não nos pedem para entendermos. Pedem-te para não te virares. A pintura não te deixa ser espectador. Acusa-te de estares a ver de fora.

Guernica não grita. Está mudo de tanto ter gritado: todas as bocas estão abertas, mas o quadro é de um silêncio absoluto. É um grito pintado que já não tem ar nos pulmões. Nunca a teoria crítica disse que o Guernica não é uma cena de morte. É uma cena de parto ao contrário.

Na composição tudo acontece dentro de uma espécie de útero escuro, iluminado por uma lâmpada-olho, um sol-bombilha. A mãe à esquerda não segura um filho morto, está a devolvê-lo. O cavalo ao centro não está a morrer, está a tentar não nascer. O touro não é a Espanha, é o parteiro imóvel que já desistiu.

É por isso que nos condói de uma forma tão estranha. Não é a dor de quem vê morrer. É a dor de quem vê o mundo a recusar-se a nascer.

O que de facto ainda ninguém teve coragem de dizer, é que o Guernica é uma pintura ateia que reza. Não tem Deus, não tem céu, não tem redenção. Mas tem a estrutura que corresponde a uma Pietà. E tem uma lâmpada no topo em forma de olho divino, fria, eléctrica, que não ilumina, vigia. É a primeira vez na História da arte ocidental que o sagrado é substituído por electricidade e continua a ser sagrado.

Mais: que o quadro/mural Guernica nos odeia por gostarmos dele. Foi feito para ser insuportável, para não poder ser pendurado numa sala, para não poder ser postal, para não poder ser belo. E nós conseguimos torná-lo belo. Conseguimos torná-lo ícone. O maior fracasso filosófico do Guernica é o seu sucesso estético. Ele queria ser um muro que não se pode transpor e nós transformámo-lo num quadro/mural que se visita.

Por isso, a única forma honesta de evocar o seu espírito hoje na vila de Guernica, ou de ver a tela em Madrid, no Reina Sofía, é não tentar entendê-lo. Foi essa a urgência muda que me levou a guiar ali os olhos do meu filho: a necessidade de ficarmos diante dele e aceitarmos que ele não nos quer ali. Que ele não foi feito para nós. Que ele foi feito para as pessoas que já não estão cá para o ver. O Guernica não é sobre Guernica em 1937. É sobre todas as Guernicas que aconteceram depois e que continuam a não ter quem as pinte.

 

Dia 3/4

A Anatomia da Viagem

A estrada costeira entre Guernica e San Sebastian — seguindo pelas estradas secundárias como a BI-3238 e a mítica N-634 — é uma das rotas mais belas da Europa. É o desenho onde a montanha esmaga o mar. Um asfalto labiríntico, onde a estrada é um traçado sinuoso de curvas constantes, que nos obriga a uma condução contemplativa, quase ritualística, a serpentear pelas encostas, a rasgar encostas verdes de pinheiros e eucaliptos que exalam um aroma húmido e fresco. Um verdadeiro abismo azul onde o Mar Cantábrico surge e desaparece de forma intermitente, ora se esconde atrás de uma falésia maciça, ora se revela num horizonte imenso, com ondas a rebentar centenas de metros abaixo do nível da estrada.

Mas rota transfigura-se sob o açoite do vento Cantábrico. Em troços onde o asfalto corre mesmo ao nível da rebentação, o mar reclama a prioridade, cada curva cega, escavada na rocha viva, traz consigo a chicotada húmida do mar: a viseira do capacete fica permanentemente baça, fosca de sal, e obriga-nos a um esforço quase cego.  Quando a água se espraia pela via, mistura-se com as folhas caídas dos pinheiros das encostas, num lodo escuro que exige respeito.

Ao aproximarmo-nos de San Sebastian, a estrada atravessa vilas piscatórias encravadas nas rochas. O asfalto corre mesmo ao nível da água, protegido apenas por muros de pedra onde a espuma das ondas nos vai salpicando tocada pelo vento. É uma síntese vática feita de contrastes absolutos, a unir o silêncio denso e florestal do interior basco à fúria atlântica da costa. Conduzirmos por ela é sentir que a terra está constantemente a tentar travar o avanço do mar, ao oferecer-nos um miradouro suspenso sobre este combate eterno.

Ondarroa escreve-se como quem respira entre duas forças.

O-n-d-a-r-r-o-a.

Não é uma cidade para visitarmos. É uma cidade que nos atravessa. O Artibai não desagua no mar – entrega-se. Cansado de ser rio, faz a última curva como quem se deita. E nós, em cima, no miradouro, a olhar os barcos amarrados como ideias que ainda não partiram.

Veja-se a ponte de Calatrava.

É um arco branco que não serve para passar de um lado ao outro. Serve para provar que o vazio também pode ter estrutura. O Santiago Calatrava não fez uma ponte. Fez uma pergunta em aço: quanto pesa a leveza quando tem de segurar o mundo?

E a estrada…

A estrada não tem número. O número é a desculpa que o mapa arranjou para não dizer a verdade.  Chamam-lhe GI-638 / BI-638. Mas para quem vai de mota, ela chama-se entre.

Entre Gernika e Donostia.

Entre a memória do bombardeamento e a promessa da cidade elegante. Entre a montanha que te empurra e o Cantábrico que te chama. A BI-633 traz-te de Trabakua, de Durango, do interior duro onde se forja o ferro. A GI-638 leva-te pela costa, onde o ferro se enferruja e se transforma em sal. Não estamos aqui a passar de mota. Somos a própria costura. Ondarroa é o ponto onde Bizkaia acaba e quase se arrepende. Onde Gipuzkoa começa e ainda não tem a certeza. É uma fronteira que não divide – dobra. Como esta estrada, que nos últimos 900 metros muda de nome mas não muda de alma. De GI para BI. De Gipuzkoa para Bizkaia. Como nós, que mudamos de nome conforme quem nos chama, mas continuamos a mesma viagem. Uma vila que cabe toda num olhar, mas que precisa de duas pontes para se explicar – uma que gira, antiga, que se abre para deixar passar os barcos, e outra que arqueia, moderna, que se fecha para deixar passar os homens. Uma abre-se ao mar. A outra sustenta o homem. E no meio, o rio. Que não escolhe. Só vai.

 

 A Revelação da Baía

 A entrada em San Sebastian por esta rota faz-se a descer suavemente pelas encostas do Monte Igueldo. A estrada abre-se e a baía surge de repente, como uma concha de areia dourada e águas calmas, protegida do Atlântico pela Ilha de Santa Clara.

O mar, que antes era uma força fustigante, surge agora domesticado, num tom azul-turquesa que espelha a luz do fim do dia. As Duas Sentinelas: À esquerda, o Monte Igueldo vigia o abismo; à direita, na outra ponta da praia, o Monte Urgull ergue-se como o guardião da zona velha. Entre ambos, estende-se um areal perfeito com mais de um quilómetro de extensão. O contraste é imediato: o drama das rochas cinzentas e o isolamento das vilas piscatórias dão lugar a uma elegância aristocrática.

San Sebastian não é um lugar que eu visite, é uma memória familiar que me habita; quando aqui estou, o pensamento cala-se para que o coração possa ver. A minha história confunde-se com estas ruas de tal forma que perdi a distância crítica; Donostia é o meu «eclipse da razão», para tomar de empréstimo a expressão a Max Horkheimer.


A Semântica de Plástico.

Donostia lê-se com os pés e com a boca. O pintxo afirma-se como a versão comestível da literatura basca: pequeno, intenso, com uma história por trás e feito para ser partilhado ao balcão. Diferencia-se, por inteiro, das tapas. Em Sevilha peço; aqui roubo com os olhos. O meu ritual com o Guilherme cumpre-se numa geometria litúrgica: entramos, pedimos uma cerveja curta ou um txakoli, apontamos para a barra, depositamos o palito no prato e avançamos para o próximo bar. Três bares, três pintxos, nunca mais do que isso num só.

Os artífices do verbo escavam a fundo esta máquina de sangue. Pío Baroja, glutão confesso, descreveu a Parte Vieja como uma cozinha sem fim. Aramburu, em Pátria, não consegue narrar a vida sem o bar onde o ETA cobrava o imposto revolucionário. E Atxaga cresceu a ouvir as histórias de sagardotegi — as sidrarias.

A aristocracia basca nada tem que ver com a parolice fútil de quem necessita da exibição ou da ostentação para provar que existe. Trata-se de uma nobreza cultural, avessa ao nosso reflexo português de montras, onde nos avaliamos pela casca alheia. O orgulho basco exibe um rosto limpo que despreza o alarde pacóvio do consumismo. É a encarnação viva dos mendigos e altivos de Cossery: uma soberania despojada, que prefere a crueza da própria terra e a dignidade do seu verbo milenar a curvar-se perante o fetiche das aparências.

Enquanto o remediado se endivida para ostentar uma carroça de luxo importado, em San Sebastian a opulência possui a gravidade de quem se sabe nobre por linhagem cultural, a anos-luz de uma existência cuja única transcendência assenta no logótipo de um automóvel. A sofisticação aqui é discreta, telúrica e de uma lealdade económica feroz: se podem dar a ganhar a um dos seus, jamais enriquecerão um estrangeiro.

Sentimos a pulsão de um povo antigo, cuja identidade se ancora numa língua misteriosa, o Euskera. Sem parentesco conhecido, isolada no tempo e dotada de uma sonoridade áspera, essa fala milenar soa-nos com a mesma força clássica e incompreensível do grego antigo — uma barreira de pedra e verbo que protege o orgulho de quem sabe exactamente de onde vem.

Esta barreira, longe de isolar a terra na esterilidade, deságua no ritual sagrado do balcão. Na Parte Velha de Donostia, a gastronomia não se curva à sumptuosa liturgia dos restaurantes com estrelas e mordomos, criados para pasto da vaidade pequeno-burguesa e para a punheta conceptual do novo-rico. Esse triunfo da parolice gourmet, onde o eunuco mental salivará perante a impostura de um “empratamento desconstruído” e babará o paleio “sensorial com assinatura”, – uma pretensa “experiência imersiva”, como um prato que existe apenas para o telemóvel e para a ditadura dos likes. Esse gabolas engole a espuma, mastiga o conceito e arrota estatuto, enquanto ignora a relojoaria do alimento. Desconhece a mecânica de sangue, sal e ferro que traz a matéria ao prato.

Afinal, esse bicho-gaiola nunca entenderá que a única forma justa e sagrada de comer uma sardinha cumpre-se à mão, sobre uma fatia grossa de broa, num rito onde a gordura e o sal saturam o miolo e ditam a nossa comunhão com o fogo.

Os balcões dos bares surgem como altares profanos onde repousam pequenas esculturas de sabor — desde a clássica e telúrica Gilda ao mais complexo pedaço de bacalhau —, miniaturas que condensam a verdade do mar Cantábrico e das hortas da província. O basco come de pé, em permanente trânsito e tertúlia, a celebrar a abundância da sua própria eira. É a sofisticação suprema que prescinde de mordomias e de artifícios cenográficos, pois assenta na pureza do produto e no vigor da partilha.

A boca de Donostia vomita essa semântica de plástico, porque a Parte Velha sabe que comer constitui um acto de comunhão com o abismo. Como escreveu Raul Brandão em Os Pescadores, «basta pegar num velho búzio para se perceber distintamente a grande voz do mar». Atrás de cada balcão não habitam conceitos; habita o trabalho daqueles homens broncos e espessos que «se entranham de salitre» e trazem na pele a respiração do mar. A sua culinária assume-se como uma arte de rua, vertical e altiva.

No final da noite, quando os balcões se despem da sua abundância e o rumor dos copos se apaga nas pedras húmidas da Parte Velha, resta apenas o hálito salgado que sobe do porto. Comer aqui, de “pé com as mãos” e sem artifícios, foi o despojamento necessário.

Sob a guarda dos montes Urgull e Igueldo, a cidade recolhe-se na sua penumbra aristocrática. É então que a verdadeira viagem não se mediu pela distância percorrida, mas por este instante de absoluto regresso: um palito de madeira na mão, o traço azedo da futilidade desfeito na boca, e, ao fundo, a grande voz do mar que continua a rebentar na noite, alheia à comédia dos homens.

 

O Pano mais Pesado

 Em Donostia, na Parte Velha.

Uma bandeira da Palestina presa a um candeeiro de ferro forjado. Não no mastro de um palácio. No braço negro e rendilhado de uma luz de rua. Como se fosse um lenço deixado ao vento por alguém que por ali passou.

San Sebastian entende de bandeiras. Entende de línguas proibidas, de nomes riscados dos mapas, de um povo que teve de aprender a ser pátria sem ter Estado. Por isso esta bandeira não destoa. O verde, o branco, o preto e o triângulo vermelho não são aqui um corpo estranho. São um espelho.

E é algo simples nas ruas que se cobrem com o pano de um outro: um povo que sofreu a negação reconhece o outro pelo seu silêncio. O País Basco sabe o que é a luta pelo direito a existir na própria língua, na própria pedra. Sabe o que é a dor de uma identidade vista como excesso, como ameaça. Quando olha para Gaza, não vê só uma guerra distante nos telejornais. Vê a ideia de cerco. A ideia de um território pequeno, encurralado entre o mar e um muro, que insiste em continuar a ser.

A bandeira, está suspensa por cima das cabeças de quem passeia. Ninguém lhe presta vassalagem. Ninguém pára para a saudar. E é isso que lhe dá força. Não é poder. É lembrança. É um acto ético. A bandeira palestiniana aqui não afirma: “nós somos donos deste lugar”. Mas pergunta: “quem se lembra daqueles que não têm lugar?”. O pano mais frágil da rua – um rectângulo de tecido barato – torna-se no objecto mais pesado. Carrega o peso de milhares de mortos, de casas que já não existem, de crianças que não tiveram tempo para ter nome.

Obriga-nos a pensar na condição humana do exílio. Nós, que caminhamos livres numa rua basca, de estomago cheio com pintxos, com o mar ao fundo, somos cúmplices de quê? A bandeira não nos acusa. Apenas existe. E ao existir, desfaz a nossa inocência de turistas.

Donostia, que durante tanto tempo foi silenciada, hoje dá voz. Pendura no seu ferro a dor dos outros, para que a dor dos outros não seja esquecida. Não é solidariedade política. É irmandade ontológica. A de quem sabe que uma língua, uma casa, uma bandeira, são formas frágeis e sagradas de dizer ao mundo: nós ainda estamos aqui.


Tinta Sobre Ferro

Um graffiti que é um axioma. Em San Sebastian, o País Basco não fala. Grita. E fá-lo com tinta sobre ferro. O Arrano Beltza, a águia negra. É o pássaro antigo dos reis de Navarra, anterior ao Estado que hoje o nega. É um símbolo que não pede licença para existir. À direita, o mapa, a pátria recortada como um coração em brasa, com o seu escudo ao centro. E ao meio, a palavra que cose tudo: INDEPENDENTZIA!

Esta luta não é sobre economia ou fronteira. É sobre ontologia. O que é um povo quando o mundo lhe diz que é apenas uma região? O que é uma língua, o euskara, tão velha que ninguém lhe conhece a mãe, quando o poder a reduz a folclore?

A política deste graffiti é simples e trágica: existir é resistir. O Estado central tem o arquivo, o exército, o boletim oficial. O povo basco tem a parede húmida, a tinta da noite, a memória. Um poder impõe a lei com decretos. O outro responde com a permanência de um nome sobre o metal. Um quer gerir o território. O outro quer ser o território.

Por isso esta palavra surge sempre com ponto de exclamação. Independência não é um pedido que se faz de joelhos. É uma afirmação que se arranca ao silêncio. É a recusa absoluta de que a identidade seja uma concessão do outro.

Um tipo em frente deste vermelho desbotado, sente-se um estrangeiro necessário. Mas mesmo para o turista que passa, a parede coloca a questão fundamental: até onde vai o direito de um homem a chamar casa à sua própria casa?


As putas, os poetas e os que morrem de amor

Este ano, este cubo de luz vai voltar a ser o que sempre foi: um farol onde irá decorrer a 74ª edição do Festival Internacional de Cinema de San Sebastián, de 18 a 26 de Setembro de 2026.

E é uma forma curiosa de começar. Na noite de 18, em estreia mundial, abre a Secção Oficial Ghost Song, de Fatih Akin. Uma história de amor entre dois mundos, em que ela morre na noite em que o conhece e volta para o encontrar em sonho. Parece feito de propósito para o Kursaal.

O Kursaal, que de dia é vidro que deixa o céu entrar, à noite passa a ser caixa negra que guarda sonhos. Entramos aqui com a chuva do Cantábrico nas parkas e saímos com outra vida nos olhos. É uma troca. Damos ao edifício o nosso tempo e o nosso silêncio no escuro; ele devolve-nos uma história que não é a nossa e que, por um instante, nos pertence mais que a nossa.

Este ano a coisa não foge à regra. Há-de ter tapete vermelho e fotógrafos, vaidade e negócio, como sempre. Mas, no fundo, a pergunta mantém-se a mesma que arquitectura deste sítio coloca: o que fica? Não creio que seja o filme. Nem o prémio. Mas este reflexo dourado na água do Urumea, que treme e não se fixa. O cinema, como o rio, só existe enquanto passa.

Em todo o caso, o que vai acontecer em Donostia este ano é um retrato muito fiel do que tem sido este festival: uma tentativa de manter dois pratos no ar sem deixar cair nenhum. Isto é: por um lado, há a linha autoral. Abertura com o tal Ghost Song, de Fatih Akin, em estreia mundial. Um alemão-turco que já ganhou em Cannes e Berlim. É o gesto clássico de San Sebastián: dizer “nós ainda somos o festival que descobre, que arrisca”, com nomes de autor, e isto sim, é de festival. Por outro, temos a linha Donostia.

Homenagear Werner Herzog e Naomi Watts na mesma edição é um gesto com pinças. O Herzog é o cinema como obsessão, como limite físico, como loucura. É o homem que puxou um barco por cima de uma montanha. É a ideia de cinema contra o mundo. Watts é o oposto complementar: a actriz que faz a ponte perfeita entre o independente americano — Mulholland Drive, 21 Gramas — e os grandes estúdios, entre Lynch e King Kong, entre a televisão de prestígio e o tapete vermelho.

E depois, para amarrarem tudo, anunciam Bloom, Pitt, Cotillard, Penélope Cruz. Portanto, colocam o selo de Hollywood no programa para garantir capa de revista e patrocínio. San Sebastián quer ser Cannes sem poder ser Cannes, e quer ser um festival de público sem querer admitir que o é. O Kursaal é o símbolo disso mesmo. Por fora, cubo de luz frio e conceptual. Por dentro, auditório para 1800 pessoas a bater palmas a estrelas. Por conseguinte, este ano, a escolha dos prémios resolve o problema com elegância. Estes tipos dão o prémio a Herzog na abertura — validam a linhagem cinéfila — e dão o prémio a Watts no dia a seguir — validam a sua relevância mediática — e com isso compram paz para mostrarem, nos outros oito dias, filmes pequenos do Cazaquistão ou da Argentina que, de outro modo, ninguém iria ver.

Vai resultar? Vai. É a fórmula que Donostia encontrou para sobreviver. O risco é que, de tanto equilibrar, o centro fique vazio.

O Kursaal, de Rafael Moneo — é uma contradição bem bonita. De dia, quase não existe. São dois cubos translúcidos, como duas pedras encalhadas na foz do Urumea. Não compete com o mar, nem com o monte, nem com a cidade romântica que fica atrás. É tímido. Parece dizer: “estou aqui só para deixar a luz passar”.

À noite é que se revela, como as putas, os poetas e os que morrem de amor.  Deixa de ser parede e passa a ser uma lanterna. A arquitectura de toda a história quis ser sólida, eterna, pedra contra o tempo. O Kursaal faz o oposto: aceita ser efémero. Não ilumina; é iluminado por dentro. É um corpo que respira luz. Não é um monumento que se impõe, é um véu que acolhe. Aqui na Ponte de Zurriola, à frente destes candeeiros quase kitsch, quase do outro século, com as suas esferas douradas e pesadas, cheias de certeza. E, por trás, este gigante de luz que não pesa nada.

É o passado que quer ser visto e o presente que quer deixar ver através de si. Diante dele, regressa a velha questão de Heraclito: o que é que permanece de facto? A matéria ou a luz que a atravessa? O Kursaal não guarda nada. De dia, deixa o céu entrar. À noite, devolve à cidade a luz que guardou. É um edifício que não acumula, apenas transmite. Como uma boa ideia. Como uma boa pessoa.

Não é um palácio.

É uma presença.


As Linhas Brancas

Dia 5

A travessia nocturna foi uma fuga deliberada ao asfalto asfixiante de Bordéus, onde o trânsito estagna em dezenas de quilómetros de paralisia. Para evitar essa morte lenta, roemos a espessura da noite rumo a um novo deserto, um ermo de silêncio negro que sucedeu à memória do deserto espanhol, vencido de uma só vez sob o travão opressivo sobre o instinto que os limites de velocidade impõem. Bebemos o carvão da noite, sem o estorvo do mundo que dorme. Lidei com a impotência da fera açaimada e com a frustração a morder os tendões; engoli a distância num fôlego de febre solitária, a ligar o aperto de alcançar a Normandia com o destino final que me reclamava o sangue: o regresso a San Sebastian.

A distância não se mede em mapas, mas no desgaste. Não se trata de uma deslocação breve, de ir ali ao lado à praia da Vieira; são centenas de quilómetros onde a pele, que durante o dia suportara a fornalha de trinta e dois graus, choca contra o muro dos doze graus da madrugada. O frio deixa de ser um dado meteorológico e passa a ser uma lâmina que endurece os tendões. Na orla do limite, o corpo abdica das funções inúteis; entra-se no modo de sobrevivência partilhada que o Guilherme ali fixou em palavras. A fome morre, esmagada pela náusea do cansaço; a própria ideia de alimento torna-se repugnante.

O organismo passa a funcionar como um especialista de estações de serviço. Parar ali constitui um acto de máquina humana: deitar a cabeça no tampo de uma mesa para roubar dez minutos de síncope ao cérebro, entrar num cubículo de banho para que a água devolva o tacto aos dedos que a vibração contínua do motor anestesiou. A ânsia do fim consome o resto das forças, e deixa apenas o automatismo dos reflexos e a retina fixa nas linhas brancas do chão. O destino é um ponto fixo, sim, mas o rito consome-se por inteiro no suor e na poeira da rota.

 

A Invenção do Destino

Dia 6/7

Afastemos o postal ilustrado e a mundanidade sociológica. A viagem não como evasão ou turismo conceptual, mas como deriva, aspereza e consequência do lugar e do trajecto. Esses são os fantasmas que habitam as entrelinhas da minha prosa: uma síntese de antagónicos que constitui a única forma de mapear um território sem ceder ao facilitismo das palavras, convocadas por uma afinidade secreta e escandalosa.

O meu retorno cíclico não é um mito idílico; é uma corda que prende o osso à matéria do mundo, uma recusa do adorno da bagagem e do discurso sobre o longe. Este ciclo vai trabalhando como uma transmutação, uma órbita onde se aceita o fado de repetir o meu próprio princípio e o meu próprio fim, com todas as consequências que o lugar me lega. Mas esse regresso é apenas o pretexto da gravidade; o que verdadeiramente me sustenta é o desgaste do movimento. Pertenço à estrada, não à chegada. Certos lugares reclamam-me com a força de um íman mineral, mas, a cada passo, sinto que o destino existe apenas para justificar a vertigem do caminho.

É na atmosfera deste silêncio, gerado por quilómetros sem fim, contra a tagarelice do quotidiano, que se cala o ruído do mundo para que a alguma habitação poética aconteça. Quando depomos as armas na mudez do asfalto, recusamos a curiosidade inautêntica das novas paisagens e buscamos a clareira onde o que existe simplesmente é. Por outro lado, sinto a necessidade de oferecer o contraponto luminoso da língua: uma limpidez telúrica que trago para o chão, para o corpo, para o penhor da substância, a depurar a palavra para devolver a transcendência à textura da pedra e à pureza dos elementos.

É na fractura desse silêncio, na sua mudez de pedras grávidas, carregadas de uma negatividade que recusamos o adorno. O silêncio a explorar não é a paz bucólica; é uma presença densa, quase mineral, onde a linguagem humana bate contra o impossível e se recolhe. Convocar estes antagonismos constitui, de facto, o escândalo e o perigo. É convocar a torção, a linguagem que se devora a si mesma até atingir a incompreensão. Se tenho a necessidade de limpar a palavra ou de a petrificar pelo silêncio, sinto também a urgência de a incendiar: de a transmutar em carne e em memória, no único porto onde posso depor as armas para roçar o limite onde o espaço geográfico é violentado pela voracidade do espírito.

Se alcanço por breves momentos a ilusão de absoluto, eles não habitam o chão que me espera, mas sim a espessura do tempo que queimo para lá chegar. O processo é a minha única pátria real, a matéria crua onde a existência se testa e se cumpre. A viagem constitui a consequência física de um lugar que me reclama, uma órbita fria onde o fim se ajusta ao princípio sem qualquer espécie de heroísmo. Não viajo para me encontrar, nem para validar uma qualquer filosofia de trazer por casa; viajo porque a deslocação é a única postura honesta perante a erosão dos dias.

Cada quilómetro é uma incisão na carne. Não viajo para acumular paisagens, mas para registar a factualidade do trajecto: o calor do motor, a aspereza do asfalto, o vento que agride o rosto e limpa o cacarejo do mundo. A viagem em si não é um intervalo entre duas realidades; é a própria realidade no seu estado mais violento e honesto. O destino é um ponto fixo, sim, mas é na mutação contínua da marcha que se depõe as narrativas inúteis. Não há altares de pedra para os quais se caminha, sagrado é o rito que se consome por inteiro no suor e na poeira da rota.

 

 Partir como Ilha

O Monte Saint-Michel não é bem um lugar, é mais um paradoxo, uma ilha que respira. É uma ideia que ficou presa entre a terra e o mar. É o exemplo mais perfeito daquilo a que chamamos limiar. De dia, quando a maré está vazia, é acessível. Uma estrada liga-o ao mundo. Podemos caminhar até ele. É humano, tocável, de pedra. De noite, quando a maré sobe – e sobe a uma velocidade que dizem ser a de um cavalo a galope – torna-se inalcançável. Volta a ser ilha. Intocável como um Mito.

E respira. Inspira o continente, expira o oceano. Duas vezes por dia o mundo esquece-o e lembra-o. Por isso todos os poetas que o viram falam da mesma coisa: solidão. Mas não é uma solidão triste. É uma solidão escolhida. Como um eremita que fica no meio da praça só para provar que consegue estar só mesmo rodeado de gente.

Arquitectonicamente é uma oração vertical. Em baixo, tudo é terreno, pesado, mercantil: as casas, as lojas, as muralhas feitas para nos defendermos dos homens. Em cima, tudo cada vez mais leve, mais perfurado de luz, até chegar à abadia e à estátua dourada de São Miguel no topo, de espada apontada ao céu. É a própria hierarquia da alma medieval desenhada em granito: do corpo ao espírito. É belo porque é improvável. Não devia estar ali. Uma montanha gótica no meio do nada, cercada de areia movediça.

Foucault usava o termo heterotopia, para lugares que estão fora de todos os lugares, mas que reflectem todos os lugares. Creio que o Monte é isso. Foi fortaleza inexpugnável que nunca caiu, foi santuário, foi prisão, foi aldeia, foi postal turístico. Contém todos os tempos ao mesmo tempo. Como em poucos sítios, sentimos que o tempo não é uma linha, é uma maré. Vai e vem.

E é a luta contra o efémero, o Monte é uma resposta ao niilismo do mar. O mar é o símbolo do caos, do informe, do que apaga tudo – Heraclito até à quinta casa, nunca se entra duas vezes na mesma maré. E o que fizemos nós? Pegámos numa rocha no meio desse caos e construímos algo que dura há mil anos, apontado para cima. É o gesto camusiano por excelência: sabemos que o mar vai continuar a subir e a descer, indiferente, mas mesmo assim erguemos a abadia.

O Arcanjo no topo, não é por acaso que é dedicado a São Miguel. Miguel não é um santo de paz. É o anjo guerreiro, aquele que pesa as almas e que luta contra o dragão. Ter o seu monte exactamente na fronteira entre dois elementos – a terra firme e o abismo líquido – é a metáfora da condição humana segundo o cristianismo e segundo o existencialismo: estamos sempre na fronteira. Entre o bem e o mal, entre o sólido e aquilo que nos afoga, entre querer ficar e ter de partir quando a maré manda.

O Monte Saint-Michel mostra-nos que a transcendência não é fugir do mundo. É encontrar um ponto fixo dentro da impermanência e ficar lá, mesmo quando tudo à nossa volta desaparece duas vezes por dia.

Se me estás a ler e se lá fores um dia, entras com a maré vazia e sais com a maré cheia. Creio que é a única forma de entender. Chegar como homem e ter de partir como ilha.

O Espaço Oco

O claustro do Monte Saint-Michael foi onde o Malick filmou a abertura de To the Wonder. O próprio título do filme vem daqui — la merveille de l’occident, a maravilha do ocidente. Prelúdio do Acto I de Parsifal, de Wagner, foi a escolha propositada do Malick para elevar o episódio do Mont Saint-Michel. Ele na banda sonora empilha depois uma série de outros trechos — Haydn, Respighi, Górecki, Berlioz — mas a cena icónica do claustro/da travessia na maré baixa é Wagner.

Por ser tão óbvia, não sei se a minha escolha teria sido essa. O Adagietto da Quinta de Mahler acontece como luz suspensa sobre água quieta, não sei se não seria mais justo. E também revela o tempo enquanto densidade, enquanto espessura habitável. Cada nota hesita, demora-se, pede permanência ao silêncio. Cada acorde alonga o instante até o instante tocar a eternidade. Dez minutos assim valem por uma vida inteira. E quando o último som se dissolve no ar, fica no peito o rasto luminoso disso: a certeza de que amar com totalidade ainda permanece possível.

Mas percebo a escolha do Malick, aquele prelúdio não começa. Desvenda-se. Não há ataque, há aparição. Como se o som já existisse desde sempre, para lá do tempo, e a orquestra apenas rasgasse um véu para que nós, por um instante, o pudéssemos ouvir. É música que não avança; recolhe-se. Primeiro, o motivo da Ceia. Largo, puro, diatónico, como uma coluna de luz numa catedral vazia, o Malick sabia o que estava a fazer. Não é um tema; é uma revelação. Diz: isto foi perfeito, isto foi inteiro. É a memória de uma graça que não conhece fissura. Depois, o motivo da Fé — a mesma luz, mas vista através da pedra. Solene, vertical. É a instituição humana dessa graça, o Graal enquanto templo, enquanto guarda. E então, entre os dois, insinua-se a dor. O motivo da Angústia de Amfortas. Cromático, ferido, que desce por semitons como um sangue que não estanca. É o humano no divino, a chaga no centro do sagrado. Wagner coloca aqui, sem palavras, toda a elevação espiritual da obra: o absoluto não nos fere por ser cruel, fere-nos por ser puro de mais para o nosso peito impuro.

O que é genial neste prelúdio é que ele não conta uma história. Expõe um estado da alma. A orquestra reza em três tempos: a promessa, a perda e a súplica. E no fim, quando tudo parece suspenso num acorde que não resolve, o que se ouve não é música. É silêncio em forma de som. É o espaço oco deixado por Deus para que o homem possa entrar. Ouvir este prelúdio é compreender, sem raciocínio, que a inocência — a do tolo puro, a de Parsifal — não é ignorância. É a última sabedoria. Aquela que resta depois de todo o saber falhar.


O silêncio posto ao alto

O claustro do Mont Saint-Michel não é para ser fotografado. É para ser habitado em silêncio. Sucede porém que, de todas as vezes que aqui vim, o claustro estava encerrado: para exposições ou para celebrações políticas por altura do septuagésimo quinto aniversário da libertação da Normandia.

Aqui, no topo de uma rocha batida pelo mar, os monges inventaram o paradoxo: um vazio emoldurado por pedra. Pedra, ar e a sombra certa. O claustro fez o seu trabalho: esvaziou. Ficou só a luz a pousar nos arcos, como quem pousa a mão no ombro de alguém. E não tem um centro. Tem um jardim que não se pisa, um céu que não se toca. As colunas não suportam um tecto – suportam o silêncio. Cada arco é uma repetição, e cada repetição é uma oração. Lá fora, a maré sobe e desce há mil anos e apaga tudo. Aqui dentro, nada se move. É por isso que viemos: para desaprender que a eternidade não é muito tempo. É a ausência total de tempo. Os monges não fugiram do mundo. Construíram um lugar onde o mundo passa por fora, em silêncio, para finalmente se poderem ouvir por dentro. Construíram um quadrado de luz para poderem olhar para o infinito sem ficarem cegos. Por isso, o dilema é afinar o verso para a luz ou para a medida. Ou guardar a luz com a mão aberta, ou medi-la com compasso. É por isso que este sítio nos chama sempre — tem as duas coisas ao mesmo tempo:

— o da luz que toca.

Aqui a luz aprende

a ser pouca.

Toca a pedra

como se toca um ombro.

Fica.

Entre coluna e coluna

o ar é branco

e demora-se.

Nada mais.

Ou

— o da geometria que pensa.

O claustro não edifica: persiste.

Arco sobre arco, o mesmo

rigor repetido até ser

forma do pensamento.

A luz, medida, cai

a prumo. O chão

responde em número.

Tudo está certo

e nada consola.

 

É isso a perfeição:

estar fechado e ser mundo.

 

O resto é o que trouxe comigo:

Deus não. Pedra.

Pedra dobrada sobre pedra, arco comido por arco até fazer uma boca.

Boca de monge – sem língua. O vazio no meio: um quadrado de erva rapada, um jardim que não se come.

Entrei. Fui cuspido.

A luz entra de navalha, talha as colunas – pernas finas de santo, enfileiradas. Uma procissão imóvel de ossos à espera de carne. A sombra é que reza aqui. A sombra é que anda.

Isto não é arquitectura, é um silêncio posto ao alto. Uma geometria para prender o vento. Lá fora o mar levanta-se, baba-se, quer entrar – e não entra. Aqui dentro o tempo apodreceu. Cheira a tempo podre, a pedra fria. A eternidade tem cheiro a pedra molhada.

O claustro é um anel. Um anel que não fecha no dedo. É para Deus pôr, se Deus tivesse dedo. Mas Deus não tem mão, tem esta ausência. Esta erva que ninguém pisa. Este centro que é um buraco.

Caminhei. O som dos meus pés era obsceno. Era carne a mais.

Não fizeram isto para olhar o céu. Fizeram para espremer o céu até sair sangue. Até o azul virar pus, luz purulenta nas lajes.

Fica. Não fotografes. Deixa que a pedra te fotografe a ti –

que te fixe: cal, esqueleto, coluna mais uma na fila.

Depois vai-te embora. Leva o corte.


O Esqueleto Habitado

Dia 8

A Queda no Turismo de Massas: Saint-Malo e Dinan

A Bretanha, é o exemplo último e acabado de como o comércio e o turismo de massas actuam na decapitação da alma dos lugares. Em Saint-Malo, a velha cidade Intra-Muros — que outrora desafiou impérios, alimentada pela audácia dos seus corsários e pela crueza das maiores marés da Europa — é apenas um casulo puramente cenográfico. Onde antes se respirava pólvora, comércio ultramarino e o isolamento altivo de quem se declarava “Nem francês, nem bretão, malouino sou”, hoje mastiga-se o caramel au beurre salé industrial e compram-se camisolas às riscas fabricadas a milhares de quilómetros do Atlântico.

A população real é expelida como um corpo estranho por esta maré de mercadores, os velhos granitos, reconstruídos com suor após o apocalipse de 1944, servem agora de moldura para alojamentos locais e para o desfile sonâmbulo de multidões com bilhete de ida e volta.

Saint-Malo actua como a encarnação do simulacro teorizado por Jean Baudrillard: um espaço onde o signo da história devorou a própria história, resta apenas uma cópia hiper-real que já não remete para nenhum original. A cidade tornou-se um parque temático da sua própria memória, uma cenografia limpa e asséptica onde a trágica herança corsária se reduz a uma mercadoria de consumo rápido.

As muralhas de Vauban já não servem para repelir o invasor inglês ou a frota holandesa; servem sim para conter a torrente humana que consome a “experiência” da pirataria sem nunca compreender a solidão do mar. Há uma ironia trágica em ver o túmulo despojado de Chateaubriand, isolado na ilhota de Grand Bé, convertido num mero cenário para fotografias apressadas, onde o silêncio romântico da morte sofre a interrupção constante do aviso sonoro de que a maré vai subir e fechar a passagem.

Mas a cidade guarda a sua vingança. Saint-Malo vigia o abismo com os olhos pesados de quem já viu o fim do mundo. Podem inundar as suas ruelas de plástico e pacovicidade, mas quando a noite cai e as lojas de recordações fecham as suas portas de alumínio, o Atlântico fustigante recupera o seu trono. As marés sobem treze metros, brutais, indiferentes à comédia do turismo. Sob a lua, o vento corta o granito com a mesma lâmina com que cortava a pele de Robert Surcouf. Resta a pedra nua e a respiração salgada do porto: o eco de que a cidade apenas nos tolera como visitantes, ciente de que as modas passam, mas o oceano permanece eterno.

Se Saint-Malo padece da turistificação do mar, Dinan sofre da musealização da terra. A subida íngreme da Rue du Jerzual — outrora uma artéria viva de sapateiros, tecelões e curtidores que faziam a riqueza mecânica da Bretanha medieval — acabou gentrificada e convertida num corredor reluzente de galerias de arte fátuas, ateliers de vidro soprado para turistas endinheirados e crêperies com ementas traduzidas em cinco línguas. A soberania despojada da pedra e do bosque bretão sofreu uma domesticação para consumo rápido. O habitante local foi empurrado para lá das muralhas do século XIII, o que deixou o centro histórico como um belíssimo esqueleto habitado por figurantes temporários.

Esta transformação expõe o turismo cultural como a mera mercantilização do tempo. Já ninguém vem aqui à procura a crueza, do cheiro a lareira e da dureza da Idade Média; procura-se o aconchego de um passado higienizado. É a transformação da história em mercadoria fetiche, onde o eunuco mental — aquele mesmo que venera o logótipo alemão — se deslumbra agora com a “autenticidade” de uma fachada de enxaimel, enquanto ignora por completo a alma do povo antigo que ergueu aquelas vigas com sangue e sal.

Mas Dinan ainda resiste no seu traço telúrico. Há uma gravidade inabalável na forma como as suas casas de madeira se inclinam sobre as calçadas, como se estivessem cansadas de ver passar os séculos. Se descermos ao porto no crepúsculo, onde o rio Rance corre lento e escuro sob a ponte de pedra, a névoa da Bretanha envolve as margens e apaga a impostura do comércio. Nesse instante de penumbra aristocrática, Dinan recolhe-se. O hálito da floresta antiga e o silêncio granítico da Basílica de Saint-Sauveur provam que, por baixo do invólucro de luxo e das montras instagramáveis, bate ainda o coração de uma fortaleza orgulhosa, que prefere a sua própria dignidade milenar. A pedra antiga não tem preço.

 

Três Centenas de Metros de Tempo

Omaha Beach

Dia 8

Estar aqui ao fim do dia com o meu filho constitui talvez a melhor maneira de entender Omaha. De dia, o espaço pertence à História. Ao entardecer, regressa ao que sempre foi: uma praia.

O que se pode dizer? Em Omaha não houve heróis de estátua. Houve rapazes de dezanove, vinte anos que durante três horas estiveram reduzidos a uma realidade elementar: um corpo deitado atrás de um seixo, à espera de saber se o mar lhes ia levar a vida ou se lhes ia permitir mantê-la.

Levinas, que esteve prisioneiro na mesma guerra, dizia que o rosto do outro constitui o primeiro mandamento: «não matarás». Em Omaha, durante horas, ninguém conseguiu focar rosto nenhum. Só capacetes, fumo, ruído. A filosofia daquele dia é a prova de como é fácil triturar a carne quando não se vê o rosto. E a poesia habita o oposto. No que veio depois. A falésia que hoje visitei com o Guilherme, com a sua erva seca e o seu vento, foi durante horas a medida exacta do custo da liberdade. Não tem um carácter abstracto. Mede-se em metros de areia que um homem atravessa a correr sob a certeza de que provavelmente não chega. Mede-se no gesto de um soldado qualquer que se levanta e diz «vamos embora daqui», e outros, que o desconhecem, seguem-no.

Estive lá ao pôr-do-sol. De manhã, quando regressámos, percebemos outra coisa: o silêncio. O Atlântico mantém-se igual a 1944. É o único elemento que não mudou. Fiquei com o meu filho sem tentar explicar os factos, na verdade, o Guilherme tem mais conhecimento do que eu sobre o que aqui se passou. Bastou estar. A praia encarrega-se da explicação.

A linguagem denotativa serve para o relatório do V Corps: «H-Hour 06h30, WN62 activo, 27 DD afundados». Mas falha por completo ao traduzir o que é um rapaz de dezanove anos que tenta respirar com a cara metida em água suja de gasóleo, enquanto escuta o amigo ao lado que chama pela mãe.

O veredicto de Adorno, em 1949 — «Escrever um poema depois de Auschwitz é bárbaro» — não representava uma proibição da poesia. Constituía uma acusação à cultura que produz versos como se nada tivesse acontecido. Era perguntar: como é que ainda podemos fazer métricas bonitinhas depois de termos sido capazes de organizar o extermínio?

E a resposta de Celan assume-se como a única resposta possível. Celan, que perdeu os pais em Auschwitz e que sobreviveu à ruína, respondeu não com um tratado, mas com a Fuga da Morte:

«Leite negro da madrugada nós bebemo-lo à noite nós bebemo-lo ao meio-dia e de manhã nós bebemo-lo de noite»

Leite negro da madrugada. Esta matéria é intraduzível em linguagem denotativa. E no entanto afirma-se mais verdadeira do que qualquer contagem de cadáveres.

O que se passou em Omaha não foi uma batalha. Foi isto: foi o dia em que o mar ficou mais alto do que as falésias. Não por força da maré, mas porque estava grávido de corpos que não conseguiam sair de dentro de água. Foi o dia em que a areia deixou de ser paisagem e passou a ser tempo. Cada grão representava um segundo que eu tinha de atravessar debaixo de fogo. Três centenas de metros de tempo.

Foi o dia em que rapazes que nunca tinham saído do Iowa ou do Nebraska aprenderam, em vinte minutos, que a coragem não é a ausência de medo. É ter tanto medo que o corpo vomita, e ainda assim levantar-se porque o rapaz ao lado se levantou.

Há uma imagem que nunca saiu dos relatos, e que se assume como a mais impressiva de todas: quando finalmente conseguiram ultrapassar os seixos, muitos não correram para a frente. Sentaram-se. Acenderam um cigarro. No meio do inferno. Não por desprezo pela morte, mas porque pela primeira vez em horas dispunham de um metro quadrado onde ninguém lhes disparava. E esse metro quadrado era a liberdade inteira.

É por isso que precisamos da poesia aqui. Não para embelezar. Para fixar a verdade.

O que se passou em Omaha foi quase tudo o que podia correr mal. Por isso a história lhe chamou Bloody Omaha — a mais sangrenta das cinco praias do Dia D. A extensão tem oito quilómetros entre Sainte-Honorine-des-Pertes e Vierville-sur-Mer. Não constitui uma praia plana como Utah, mesmo ali ao lado. Acaba num cordão de seixos com dois a três metros de altura e depois ergue-se em falésias de trinta metros muito escarpadas, com apenas cinco saídas para o interior. Os alemães dispuseram de oito meses para a fortificar.

Lá estava a 352ª Divisão de Infantaria alemã — muito superior às tropas estáticas que os Aliados esperavam encontrar —, com casamatas de betão e oitenta e cinco ninhos de metralhadora apontados directamente para a areia. O plano aliado era simples: bombardeamento aéreo e naval às 05h00 para destruir as defesas, tanques anfíbios para dar cobertura, engenheiros para fazer explodir os obstáculos e a infantaria da 1ª e da 29ª Divisões. Nada disto funcionou.

O bombardeamento aéreo falhou por causa das nuvens baixas — os pilotos largaram tarde para poupar os próprios navios e as bombas caíram três quilómetros para o interior. O bombardeamento naval também foi curto e ineficaz. Quando os americanos chegaram, os obstáculos da praia mantinham-se intactos. As baixas foram mais altas do que em qualquer outra praia porque os bombardeamentos preliminares falharam na neutralização dos pontos de defesa ao longo da costa.

Às 06h30, a primeira vaga chega e fica presa. Muitas embarcações de desembarque encalharam nos baixios e as tropas tiveram de caminhar dentro de água, cerca de cinquenta a cem metros, muitas vezes com a água pelo pescoço e com equipamento completo. Os tanques afundam-se. Estavam previstos trinta e dois tanques anfíbios, largados a mais de quatro mil metros da costa. Com o mar revolto, vinte e sete afundaram-se. Sem blindados, a infantaria ficou sem apoio de fogo.

Os engenheiros são dizimados. Tinham trinta minutos para abrir dezasseis corredores na praia. Só cinco equipas atingiram os locais designados, e dispunham apenas de seis dos seus dezasseis tractores com lâmina, cinco dos quais foram rapidamente postos fora de acção. Resultado: às 07h30 a praia constitui um cemitério de jipes, embarcações destruídas e corpos. As tropas jazem deitadas atrás dos seixos, incapazes de avançar. Os generais ao largo cogitam abandonar Omaha e desviar as vagas seguintes para Utah ou Gold.

É aqui que entra a figura do alemão que se tornou mito: Heinrich Severloh, no sector Easy Red, com a sua MG42. Os aviões bombardearam a sua posição, mas ele sobreviveu e, com a metralhadora, abateu centenas de militares americanos que se aproximavam. Pegava na espingarda sempre que o cano da metralhadora aquecia demais, para manter o fogo constante sobre a areia.

A salvação não veio de um plano; nasceu da iniciativa de pequenos grupos. Oficiais como o General Norman Cota e o Coronel George Taylor gritaram a frase definitiva:

«Só há dois tipos de gente que vai ficar nesta praia: os mortos e os que vão morrer. Vamos sair daqui!»

Começaram as infiltrações pelas ravinas, a destruir os ninhos com bazucas e granadas. Ao mesmo tempo, contratorpedeiros americanos como o USS Frankford desobedeceram às ordens e aproximaram-se a setecentos metros da praia, sob o risco de encalhar, para disparar directamente contra as casamatas. Foi isso que quebrou a resistência.

Às 13h00, Vierville é tomada. Ao fim do dia, os americanos tinham apenas dois quilómetros de profundidade, longe dos oito quilómetros planeados. O custo final aponta para cerca de 2.400 militares americanos mortos, feridos ou desaparecidos apenas em Omaha.

Nota: esta informação consta no Museu do Cemitério dos Americanos.

 


O Silêncio Desfocado

O Cemitério do Americanos fica numa falésia debruçada sobre Omaha Beach. São 9.387 soldados americanos e o Muro dos Desaparecidos, com os nomes de 1.557 soldados cujo combate a terra ou o mar engoliu.

São 9.387 pedras brancas iguais, alinhadas como numa parada militar. É geometria, é ordem. É a nossa tentativa de impor ordem no caos. Mas, entre duas pedras, existe sempre um intervalo de relva. E é nesse intervalo que habita tudo o que não se pode escrever. O que aquele rapaz não chegou a dizer, a carta que não chegou a redigir, o filho que não chegou a ter.

Estar aqui com o meu filho, ao entardecer, e sentir esse intervalo — isso não constitui futilidade. Afirma-se como a única forma séria de respeitar o lugar. Os historiadores relatam o que aconteceu. Os poetas lembram-nos de que aquilo aconteceu a alguém. Talvez o mais justo não seja descrever o Cemitério de Omaha como um cemitério, mas como um campo de geometria que o caos não conseguiu desfazer.

Em Omaha, no dia 6 de Junho, tudo foi ruído, areia na boca, metal, ordens gritadas, erro. Foi o oposto da ordem. E aqui, em cima da falésia, o que os vivos fizeram foi a primeira acção humana depois do caos: alinhar.

Repete-se 9.389 vezes a mesma pedra branca. A mesma altura, a mesma distância, a mesma direcção, todas viradas para o oeste, para casa. Como se alguém tivesse dito: já que não pudemos salvar-vos do acaso, pelo menos salvamo-nos da desordem. Por isso este sítio não fala de morte. Fala de cuidado.

É por essa razão que se faz tanto silêncio. Não é o silêncio dos mortos. É o silêncio de quem cuida há oitenta anos. A relva cortada todos os dias a dois centímetros, o mármore lavado, a gravilha varrida. É um silêncio de trabalho, não de ausência. E encerra um paradoxo: constitui o único território americano que é França e o único território francês que é América. Foi cedido para sempre, mas não pertence a ninguém. Os homens que aqui jazem morreram para libertar um país que não era o deles, e por isso ficaram nele para sempre.

E cada cruz diz duas coisas ao mesmo tempo: diz «aqui está um homem» e diz «aqui não está ninguém, porque o que fez este homem continua na praia lá em baixo».

Se tivessemos de resumir este cemitério numa só frase, poderia ser esta: na Normandia, os americanos não enterraram os seus mortos; plantaram a ideia de que a ordem ainda é possível depois do inferno. É por isso que não conseguimos tirar uma fotografia barulhenta aqui, por mais que se tente. O sítio recusa-a.

O Cemitério Americano está saturado porque toda a gente tira a mesma fotografia — a panorâmica das 9.389 cruzes brancas. É bonita, mas faz barulho. É a fotografia do número, não do silêncio. Uma imagem de silêncio aqui não retira uma cruz; retira o que está entre elas. O intervalo, não a cruz.

Quase todas são cruzes latinas. Poucas são as estrelas de David. Uma fotografia que capte apenas a textura do mármore molhado com o nome quase apagado pela chuva revela a única diferença num mar de igualdade.

No centro ergue-se uma capela, e dentro o tecto constitui um mosaico. Ninguém fotografa o tecto. Sentei-me no banco de madeira lá dentro, apontei para cima e deixei o telefone focar no mosaico escuro. Não ficou nítida. É suposto. O silêncio também é desfocado. Não constitui uma foto de mortos. É a foto do silêncio que eles deixaram para nós guardarmos.

Talvez o que nunca foi dito sobre Omaha é que Omaha não foi uma batalha. Foi uma refutação. Todos os manuais de guerra ensinam que a guerra é a continuação da política, da lógica, da estratégia. Omaha provou o contrário. Ali, durante seis horas, a guerra foi a continuação do absurdo.

Omaha é o lugar onde o homem moderno percebeu que a técnica não salva. Tínhamos de tudo: a maior armada de todos os tempos, aviões que apagavam o céu, engenheiros que calcularam a altura exacta da maré, carros de combate que nadavam. E nada resultou. As bombas caíram nos prados. Os carros foram ao fundo como pedras. Os rádios morreram com água salgada.

Omaha ensina-nos uma coisa que detestamos: há momentos em que todo o nosso engenho se torna inútil e ficamos reduzidos ao que sempre fomos — um corpo nu, com frio, à procura de um buraco onde nos escondermos. É o regresso do trágico. Os gregos chamavam-lhe hybris. Nós chamámos-lhe Dia D.

Ninguém foi herói em Omaha porque quis ser herói. Essa é a puta da verdade cruel daquela praia. Os primeiros a sair das lanchas não morreram pela pátria, nem pela liberdade, nem contra o fascismo. Morreram porque a rampa caiu cedo demais e levavam sessenta quilos às costas. Os que sobreviveram e subiram a arriba não o fizeram por coragem, fizeram-no porque ficar na areia era ter a certeza da morte. A maré subia sete metros. Ficar era morrer afogado. Avançar era morrer talvez.

É o que Camus nunca escreveu mas que Omaha escreveu por ele: o acto supremo de liberdade acontece quando já não há escolha. Quando o homem avança, não por ideal, mas porque a única dignidade que lhe resta é escolher como vai morrer. Não houve duelos. Houve uma MG42 numa casamata de betão a fazer tic-tic-tic a 1200 tiros por minuto, durante nove horas, contra formigas na areia. Não há nada de homérico nisso. É só uma máquina a ceifar.

E no entanto, é precisamente aí que reside a poesia: na desproporção absoluta entre a imensidão da causa — libertar um continente — e a pequenez do gesto — um rapaz de dezoito anos do Kansas a tentar não largar a espingarda porque as mãos estão geladas.

Omaha lembra-nos que a História não é feita por ideias. É feita por mãos geladas que não largam a espingarda.Se me estás a ler,  e se vais a Omaha, leva pedras de silêncio nos bolsos.

A praia é larga, branca, banal. As gaivotas gritam na mesma. O mar faz o mesmo barulho que fazia há oitenta anos. E é isso que é mais o mais cru: a indiferença da natureza. Nós pomos cruzes brancas alinhadas em Colleville-sur-Mer e achamos que estamos a marcar o acontecimento. Mas o mar já apagou tudo. A areia já engoliu as lanchas. O vento já levou os nomes.

Omaha não nos diz “nunca mais”. Omaha diz-nos “apesar de”. Apesar da nossa insignificância, apesar da indiferença do mundo, apesar de sabermos que a areia apaga tudo, houve homens que saíram da lancha e correram. Não há lição maior. Não há poema maior que esse acto sem testemunhas, sem garantia de memória, sem promessa de vitória.

No fim, o que não foi dito sobre Omaha é isto: ela não foi o dia em que vencemos os alemães. Foi o dia em que provámos, contra toda a evidência, que ainda valia a pena ser homem.

O que é escandaloso dizer sobre este sítio é que ele é bonito. É quase ofensivo dizer. Dizemos sacrifício, coragem, dever, liberdade, herói. São palavras grandes, de bronze. Servem para discursos no dia 6 de Junho, com políticos. Ninguém diz: isto aqui é bonito. E é. É absurdamente bonito. A relva é mais verde que em qualquer jardim, o branco do mármore é mais branco que na cidade, o mar ao fundo é azul de postal. Foi desenhado para ser bonito. E isso é o que ninguém tem coragem de dizer: que a morte em massa pode dar origem a beleza. Não porque a morte seja bonita. Mas porque o cuidado que vem depois pode ser.

O que também não se diz é que aqui não estão heróis. Herói é uma história que contamos depois. Aqui estão miúdos de 18, 19, 22 anos que estavam com medo, com frio, com saudades de casa, que não queriam morrer por uma ideia. Queriam viver para voltar a conduzir o carro, casar, abrir uma loja. Morreram a meio de uma frase.

Nós transformamo-los em heróis para aguentarmos olhar para 9.389 pedras iguais. Porque olhar para 9.389 miúdos que queriam viver é insuportável. E o último que ainda não foi dito, e é o que mais silêncio faz: este cemitério não é sobre o passado. É sobre o futuro que não aconteceu. Cada cruz não marca onde um homem morreu. Marca onde um futuro deixou de continuar. Filhos que não nasceram, casas que não se construíram, livros que não se escreveram, piadas que não foram contadas.

O silêncio que ouvimos na capela não é o silêncio de 1944. É o silêncio de todos os anos desde 1944 até hoje que ficaram vazios.

Quando se toca no osso de Omaha e se fita o vazio daquele futuro amputado, a retina e o estômago ficam marcados. Esse nó não se desfaz por se ligar o motor ou por se mudar de paragem; viaja connosco, cravado na carne. O facto de o Guilherme também o sentir prova que a transmissão se cumpriu: ele não regressa como um parolo que colecionou postais, mas como alguém que foi iniciado na crueza do mundo.

Honfleur surge na rota quase como uma necessidade biológica de sobrevivência, um pretexto automático e cobarde para tentar descompressar e limpar o salitre da falésia. Mas sabemos que, depois de Colleville, nenhum lugar é inocente. A beleza antiga daquele porto normando, que fascinou Baudelaire e os impressionistas, vai ser filtrada pelo nosso olhar que já não se deixa enganar pelo invólucro. O desconforto de Omaha vai contaminar as águas calvas do Vieux Bassin e a madeira da igreja de Sainte-Catherine.

Por isso, a viagem prossegue na paragem da boca. Não constitui um acúmulo de mapas, mas a factualidade deste osso que resiste à erosão do asfalto e da maré. Pisei a poeira, bebi o carvão e olhei a mudez das cruzes alinhadas na falésia para conter mais uma vez, a única lei da deriva: o destino nunca foi um porto, mas sim o pretexto que a gravidade inventa para nos raspar as cicatrizes.

O movimento não estanca, e o desconforto migra para o interior da carne como um nó mudo e indizível no estômago. Deixámos o Atlântico. Rolámos em direcção a Honfleur, rumo ao ruído de Paris…


A Negociação com a Névoa

Dia 9

Honfleur recolheu-nos. É o ponto onde o Sena desiste de ser rio e aceita a condição de mar. Nessa rendição sem drama, nessa entrega sem derrota, mora a leitura primeira da vila: toda a foz é também um princípio. O fim de uma água é o começo de outra.

E isto transmite-nos a impressão de que o tempo não avança. Hesita. Fica suspenso entre duas marés, entre o sino da igreja de Santa Catarina — toda em madeira de calafates, como um barco ao contrário — e o reflexo trémulo dos cascos no Vieux Bassin. Tudo parece prestes a partir e, talvez, por isso mesmo, tudo permanece.

A luz de Honfleur é uma luz que pensa. Não é a luz que ilumina, é a luz que duvida. Foi por isso que Boudin e Monet aqui se perderam. Não pintaram casas ou barcos. Pintaram o intervalo entre a coisa e a sua sombra. Pintaram o ar. Em Honfleur abarcamos uma realidade não é o objecto, mas a vibração do objecto na atmosfera. Que ver não é um acto directo. É uma negociação com a névoa.

As fachadas estreitas, de ardósia negra, não competem com o céu. São molduras para ele. São plateias. E nós, no cais, com as mãos nos bolsos ainda cheios de silêncio, somos o mesmo: espectadores de uma acção lenta, onde o essencial não acontece. O essencial insinua-se.

Honfleur mostra-nos que a beleza não reside no que fica, mas no que está sempre a ponto de ir embora. Na vela que ainda não se abriu. No reflexo que a água quase apaga. Na hora certa em que o dia pára de ser dia, mas ainda não se decide a ser noite.

 

Paris

Dia 10/11

Oitenta e seis euros

O homem tinha na mão o menu do Café de Flore — …A SAINT-GERMAIN-DES-PRÉS. RENDEZ-VOUS AU… CAFE DE FLORE. Sur “Les chemins de la liberté” (J.P. Sartre). 172, BOULEVARD SAINT-GERMAIN — e aquele papel, com a sua tipografia modesta e a sua pretensão histórica, parecia-lhe já um juízo. Não sobre Sartre, que houve tempos em que lhe interessou, mas sobre a sua própria figura ali sentado, ao sol, amolecido pelo calor.

Fazia um calor branco, desses que em Paris expõem a vulgaridade de tudo. A rua cheirava a ferro quente. E foi então que ela se sentou. Sem qualquer pergunta, sem cerimónia, como fazem as mulheres que já não precisam de ser bonitas para serem absolutas.

Ele não era novo e ela não era inocente. Esse foi o pacto imediato entre os dois.

— Duas águas e dois cafés — pediu ele, porque não sabia o que dizer a uma mulher que se senta assim.

 Vieram as águas, vieram os cafés. Trinta e seis euros. O homem olhou para o papel da conta com aquela atenção melancólica que os portugueses têm quando percebem que foram enganados com distinção. Trinta e seis euros por água e por um café queimado. Era o preço do mito. Pagava-se o facto de Sartre ali ter pensado o nada, e agora eles pagavam o nada com juros.

Ela riu. Tinha um riso sem bondade, que é o único riso que nos salva.

— Em Paris paga-se a sombra — disse ela. — E nós estamos ao sol.

 Ele gostou da frase porque era injusta. As mulheres na literatura á sério são sempre injustas, e é por isso que os homens as temem e as seguem.

Não houve sedução. Houve reconhecimento. Ele viu-lhe as pernas cruzadas, o suor fino no buço, a blusa que lhe colava ao peito com o calor, e percebeu que não havia nada de erótico naquilo. Havia fome, que é coisa mais séria. A fome de sair dali, daquele teatro do Flore onde todos representam a liberdade e ninguém é livre.

— Há um hotel ali — disse ele. Não como convite, mas como constatação de um facto geográfico.

Ela não respondeu logo. Acabou a água. Limpou a boca com um guardanapo de papel que se desfez nos dedos. Olhou para o boulevard, para o homem, para o menu ainda aberto na mesa verde.

— Se for para falar de literatura, fico aqui — disse ela. — Se for para calar, vou.

Ele deixou dinheiro em cima da mesa. Mais do que devia, por vaidade. E saíram os dois para a luz implacável, não de mãos dadas — romance digno desse nome nunca permitiria mãos dadas — mas lado a lado, como dois cúmplices que vão cometer um acto que não muda nada e que, por isso mesmo, é indispensável.

O hotel era um dos que ainda resistem naquela rua, com porteiro árabe e alcatifa cor de vinho entornado. Custou cinquenta euros por uma hora. Somados aos trinta e seis do Flore, fazia oitenta e seis euros por uma tarde de Verão em Paris. O homem fez a conta de cabeça e achou justo. Em Portugal, por oitenta e seis euros compra-se um desgosto inteiro. Ali comprava-se apenas uma hora.

O quarto tinha uma cama estreita e um espelho manchado que não perdoava. A janela dava para um saguão onde o calor ficava preso como um animal. Ela entrou primeiro e pousou a mala no chão — uma mala pequena, de pano, com ar de quem viaja sem plano.

— Não feche a janela — disse ela. — Quero ouvir a rua.

Ele fechou a porta. O clique da fechadura foi o único ruído honesto daquele dia.

Ela tirou as sandálias e ficou descalça sobre a alcatifa. Não era um gesto erótico. Era um gesto de quem toma posse de um espaço alheio. Desapertou o vestido pelas costas, com dedos práticos, sem pressa, sem teatro. O vestido caiu e ela ficou de combinação. Uma combinação antiga, cor de pérola suja, que nenhuma mulher nova usaria.

O homem olhou para ela e, pela primeira vez, não sentiu desejo. Sentiu uma espécie de piedade lúcida, que vale mais que o desejo.

 — Você não é feliz — disse ele.

— E você não é inteligente — respondeu ela. — Por isso estamos aqui.

Deitaram-se lado a lado, sem se tocarem logo. O lençol cheirava a lixívia e a tabaco velho. Lá fora, Paris continuava a arder com aquele sol branco que fazia o boulevard parecer uma cena pintada. Aqui dentro, a sombra era fresca.

Ela voltou-se para ele. Tinha o rosto perto, com aquele suor fino no lábio superior e nos olhos uma fadiga que não era do calor, mas de ter de ser sempre a mulher que se senta à mesa dos homens sem ser convidada.

— Não me beije como nos filmes — disse ela. — Beije-me como se não gostasse de mim. É mais verdadeiro.

E ele beijou-a assim. Sem promessas. Sem futuro. Com a boca seca da água cara do Flore e das trinta e seis razões para desprezar Paris e, ao mesmo tempo, para nunca mais a esquecer.

Ficaram assim.

O beijo não foi longo. Foi justo. Como um pacto que se assina sem ler as cláusulas. Depois, o silêncio. O silêncio vale mais que o acto. É no silêncio que as pessoas se confessam sem querer.

Ela não fechou os olhos. Olhou para ele enquanto ele a beijava, com aquela atenção fria de quem avalia um homem não pelo que faz, mas pelo que não faz. E ele não fez nada de mais. Pousou a mão no ombro dela, onde a alça da combinação deixava uma marca branca na pele morena do Verão. Uma marca pequena, íntima, que contava mais sobre aquela mulher que qualquer nudez.

— Você tem mãos de homem que já trabalhou — disse ela.

— E você tem ombros de mulher que já carregou muita coisa — disse ele.

 Riram. Pela primeira vez riram juntos sem ironia. Era um riso baixo, cansado, cúmplice.

O que se passou a seguir não teve pressa. Não teve técnica. Teve calor. A combinação subiu, a camisa dele ficou amarrotada no chão, os dois corpos encontraram-se com aquele atrito húmido do Verão em Paris. Não era amor. Era pior. Era necessidade. A necessidade que duas pessoas têm de provar a si próprias que ainda servem para alguma coisa que não seja pagar contas de trinta e seis euros por duas águas.

O espelho manchado à frente da cama devolveu tudo sem piedade. Dois corpos brancos, desiguais, sem pose. Ele viu-se a si próprio — barriga mole, costas queimadas do sol — e viu-a a ela — ancas largas, seios pequenos, a cicatriz fina na barriga que parecia um traço a lápis. Achou-a mais bela assim. A beleza, nunca é simétrica. É um defeito que se ama.

Depois, o torpor. Ficaram deitados de costas, a olhar para o tecto com manchas de humidade que formavam mapas de países que não existem. Lá fora, o boulevard gritava. Buzinas, vozes, um cão. Paris não pára por causa de um quarto de cinquenta euros.

Ela levantou-se primeiro. Foi à casa de banho. Ouviu-se água a correr. Voltou com o vestido na mão, ainda descalça.

— Como se chama? — perguntou ele, deitado.

— Não interessa — disse ela. — Se disser o nome, você vai lembrar-se de mim como uma mulher com nome. Assim, lembra-se de mim como um facto. É mais duradouro.

Vestiu-se. Ele também. Não se beijaram à despedida. Não havia motivo.

Desceram. O árabe da recepção continuava a olhar para o nada. Na rua, o sol ainda estava lá, implacável, branco, a bater no menu do Flore que, daquela distância, já não se via.

Ela virou para a esquerda, para a Rue Bonaparte. Ele virou para a direita, para o rio.

Não trocaram números de telefone. Não trocaram promessas. Levaram cada um a sua parte: ele, a marca do suor dela na camisa; ela, o sabor amargo do café caro ainda na boca.


O Animal Que Morde.

 Paris não é romântica. É conflituosa, barulhenta, menos branca do que o postal vende, obsessiva com ideias. O Flore é um cenário. A cultura sem o clichê acontece na fila do cinema de autor ou num café etíope em Château Rouge, onde ninguém está à espera de ver um casal bonito. É aí que a cidade é escrita agora, não nos cafés onde Sartre tomava notas.

Paris tem mulheres que acontecem. As outras cidades têm mulheres que aparecem. A diferença é toda. A beleza possui outra lógica. Uma lógica de subtracção sábia. Em Leiria, a luz revela. Em Paris, a sombra guarda. E é na sombra das passagens cobertas, nos pátios húmidos onde o sol nunca entra, nos cais do Sena numa manhã de chuva fina, que essa elegância se entende.

Trata-se de uma sofisticação despojada, conatural. Sem esforço. Sem grito. O casaco com dez Invernos que cai no corpo como se tivesse sido cortado naquela manhã para aquele corpo. O cabelo apanhado à pressa com um lápis. A nuca. Sempre a nuca, mais devastadora que qualquer decote. O batom que fica em casa porque o livro na mala de pano pesa mais. Há um erotismo da inteligência que só Paris conserva. A sedução como cultura.

E nunca as encontramos nos sítios de postal. O segredo está fora do mapa do telemóvel. Está na livraria da rue de l’Odéon, onde a dona conhece o cheiro do papel melhor que o do perfume, e ela permanece duas horas a folhear um Modiano em primeira edição com a intimidade de quem relê uma carta de amor antigo. Já leu. Mas precisa do contacto.

Está na galeria do Marais alto que nem sequer uma tem placa. Só uma porta entreaberta, uma luz amarela, um quadro que ninguém conhece e que te persegue durante meses. Está nos bouquinistes, ao domingo, ao longo do Sena. Sem chapéu-de-chuva. Com pressa para um lugar que só existe na cabeça dela. De bicicleta no canal Saint-Martin.

Em Paris, a cultura funciona como sedimento. Como o calcário nas pedras. As pessoas respiram livros sem os abrir. Carregam séculos nos ombros com leveza. Uma parisiense seduz com o que leu, com aquele tédio luminoso em relação ao mundo que, de súbito, se incendeia quando citas um verso de Aragon que ela julgava ser o seu segredo privado.Eis o que torna a cidade inigualável. A beleza ainda exige inteligência. Ainda pede leitura, perda, memória. Ainda obriga a ter visto, a ter falhado. Por isso custa voltar. Porque em mais nenhum canto do mundo uma mulher transporta uma cidade inteira no modo como atravessa a rua.

Paris no Verão, o Sena baixa. A pedra aquece. As livrarias abrem a porta para a rua. O ar fica entre as folhas. Meio-dia na margem esquerda. Luz em cima das mesas. Um copo sua. Um livro fica aberto ao contrário. Uma mulher pára para tirar a sandália. Sacode a areia. Segue. O calor cola o vestido à pele. O vestido descola. Ninguém olha. Toda a gente vê.

O rio leva jornais, garrafas, um barco. Nas bancas, o papel queima a mão. Um homem dorme por trás do alçapão. Uma rapariga lê deitada de barriga para baixo, com os pés no ar. Quatro horas. Sombra da ponte. Beijo debaixo da ponte. Bicicleta encostada à árvore. Gelo a derreter no saco. Oito horas. O céu não escurece. As janelas abrem. Vozes de cozinha. Pratos. Risos. Um acordeão ao longe, ou rádio. Mesas na rua. Pés descalços por baixo da mesa. Uma mulher atravessa o cais. Traz pão debaixo do braço. Traz o dia inteiro no pescoço. O suor no pescoço. O pão ainda quente. O Verão inteiro cabe ali: pão, pescoço, suor, cais. Eu e o Guilherme ficamos. O rio passa

Por isso, o que está vivo em Paris fica muito longe do eixo Saint-Germain, da Torre Eiffel ou do Marais instagramável. O Flore é teatro. A realidade é o culto do cinema como religião. Em Paris vai-se ao cinema às dez da manhã de uma terça-feira. Fora dos multiplexes. A matéria é a MK2 Bibliothèque e a cinemateca à beira do Sena. As livrarias que são casas. Não é Shakespeare and Company (armadilha para turistas).  É: Librairie 7L do Karl Lagerfeld, na Rue de Lille – só livros de fotografia e arquitectura, num apartamento. La Librairie du Palais de Tokyo – onde compras teoria crítica que ainda nem foi traduzida.

Mas, se ainda assim, queremos arriscar num Museu importante de Paris sem ser para ver uma pintura bonita, mas para nos veremos ao espelho no momento preciso em que deixas de ser civilizado, é no Musée d’Orsay, em Paris. Dante e Virgílio no Inferno do William-Adolphe Bouguereau, 1850.

Bouguereau está ao lado do Goya, do Bacon e do Turner. São todos pintores do sublime terrível – onde o corpo já não aguenta o que a alma está a ver. O Goya pela crueldade lúcida, sem redenção; o Francis Bacon por esses corpos nus, musculados, entrelaçados num nó que é ao mesmo tempo erótico e de nojo, boca que morde pescoço. O Turner por aquele céu laranja incandescente lá atrás – parece que o Inferno inteiro está em combustão.

Dante e Virgílio no Inferno é um quadro que já foi explicado até à exaustão, e é precisamente por isso que quase ninguém o viu. Foi dissecado como caso de estudo: o jovem Bouguereau a tentar chocar o júri, o contraste entre o acabamento académico perfeito e a brutalidade do tema, o empréstimo a Dante – Canto XXX do Inferno, falsários  -, o diabo ao fundo que quase ninguém repara.

Explicam-nos a anatomia, a luz, a referência literária. Dão-nos tudo para que não precisemos de ficar aqui mais de 40 segundos. Uma explicação exaustiva é quase sempre, uma forma de não sermos afectados.

O que nunca ouvi dizer é que o quadro é um fracasso propositado. Bouguereau pintou o Inferno como se fosse o Paraíso. A pele é demasiado perfeita, demasiado bela, demasiado luminosa para quem está a ser condenado. Não há escuridão, não há fumo. Há músculos tensos como de estátuas gregas a cometerem um acto que nenhuma estátua cometeria.

E é aí que está a traição que me interessa: ele não está a dizer “olhem como os maus são feios”. Está a dizer “olhem como o mal é bonito, bem feito, atlético, convincente”. O horror não nos repele, atrai. E queremos aproximarmo-nos para ver melhor a dentada.

As explicações académicas matam isto. Dizem-te “é sobre a violência humana”. Como se fosse um tema. Não é um tema. É um espelho que nos apanha a meio de um pensamento sádico — o de achar aquela luta esteticamente magnífica. Não há nenhum texto do Orsay a dizer que estamos a ter prazer ao ver dois homens a destruírem-se. O quadro diz. Sim, já foi explicado até à exaustão. Mas nunca foi absolvido por mim. A tradução do Vasco Graça Moura – deve ser provavelmente a única em português que conseguiu manter a terza rima do Dante sem soar a ginástica. Quando lemos o Canto XXX com esta imagem na cabeça, o verso «e um mordeu o outro como pão», ganha outro peso. O quadro do Bouguereau no Musée d’Orsay não é sobre o Inferno. É sobre nós, aqui. Dante e Virgílio não estão a olhar para os condenados — estão a ser empurrados para o lado. São espectadores, como nós, diante uma notícia.

No centro estão Gianni Schicchi e Capocchio a matarem-se um ao outro eternamente. Um mordeu o pescoço do outro como um animal. Bouguereau pintou isto com 25 anos, quis chocar Paris, quis ganhar o Prix de Rome com uma cena que nenhum académico teria coragem de pintar: a carne a rasgar-se, o joelho a esmagar as costelas, o demónio por trás a rir-se não deles, mas da nossa necessidade de ver.

Eis o motivo: o Inferno de Dante não é um lugar onde vamos parar depois de morrer. É o instante em que o outro deixa de ser humano para nós. É aquele segundo em que, por orgulho, por inveja, por te terem roubado algo — uma herança, uma ideia, uma mulher — nós cravamos os dentes.

Bouguereau não pintou almas. Pintou a tese de que a condenação não é o fogo. É a repetição. Aqueles dois vão estar para sempre a fazer aquilo. Sem evolução, sem perdão, sem intervalo. O gesto que os definiu tornou-se a sua eternidade. Virgílio, ao lado, não está chocado. Está sereno, quase aborrecido. Porque sabe: isto não é excepcional. Isto é o homem quando lhe tiram as leis, os museus, as boas maneiras de Paris. Dante, com a capa vermelha, está horrorizado porque é humano, ainda acredita que não devia ser assim.

E nós entre os dois. E quando saímos do Orsay, na rua, na viagem, em Leiria depois, vamos continuar a perguntar-nos: em que momento é que eu sou o Dante que se horroriza, e em que momento sou o animal que morde?

É o único quadro em Paris que não nos pede para o admirarmos. Pede-nos para nos confessarmos.

 

Do Império à Convivência: O Caminho Iniciático entre Paris e Estrasburgo

Dia 12/13

A Cura do Nacionalismo

Ir a Estrasburgo não foi propriamente mais uma decisão geográfica a somar a tantas outras; mas mais uma urgência do espírito. Há cidades que nos convocam para que possamos compreender o labirinto da nossa própria identidade europeia. Estrasburgo é esse nó onde o tempo se cruza, um espelho onde a história se dissolve no presente. Não consegui identificar ali um autóctone, e essa constatação é, em si mesma, a maior revelação da cidade. Em Estrasburgo, o “puro” cede o seu lugar ao complexo. A mistura de etnias, os sotaques que se cruzam nas pontes, os rostos de mil origens revelam que o verdadeiro habitante desta margem é o próprio encontro. Não há um centro identitário fixo, porque a cidade é uma encruzilhada. Procurar o autóctone em Estrasburgo é procurar uma quimera; ali, a identidade não é uma raiz profunda e isolada, mas sim uma rede de pontes que ligam o Outro a nós próprios.

Por isso, a transição de Paris para Estrasburgo não foi uma simples mudança de coordenadas no mapa da França; foi uma passagem iniciática. Acabados de sair de Paris transportávamos o peito cheio de uma grandiosidade imperial, mas também de uma profunda exaustão identitária.

Paris é auto-suficiente, afirma-se como o centro do mundo, um monumento à centralização onde tudo converge para o Sena e para a glória de uma única identidade nacional. O autóctone parisiense — ou a ilusão dele — impõe-se através de um código de elegância e altivez. Paris foi redesenhada por Haussmann com uma geometria implacável. As suas avenidas longas, os seus boulevards infinitos e a sua arquitectura homogénea projectam uma ideia de ordem e de progresso linear. Paris exige que olhemos para a frente, para o horizonte monumental.

Estrasburgo quebra essa ilusão de continuidade. Ao entrarmos na Pequena França ou ao rodear os canais, os nossos olhos habituados à ordem parisiense sofreram um choque benéfico. O tempo aqui não caminha em linha recta; curva-se sobre as águas, esconde-se nos telhados góticos e fragmenta-se. Passar de Paris para Estrasburgo foi deixar a ditadura do espaço imutável para ingressar numa poética do tempo que flúi e se reinventa a cada esquina.

Em Paris, o Pantheon e o Arco do Triunfo recordam-nos o preço de sangue que custou a construção das fronteiras. Paris celebra o Estado-Nação. Movermo-nos em direcção a Estrasburgo foi caminhar para lá dessa fronteira. A necessidade de ir a Estrasburgo após Paris residiu na urgência de encontrarmos a cura para o nacionalismo.

No Parlamento Europeu e nas margens do Reno, logo se constata que o destino humano não se esgota no orgulho de uma única bandeira. Estrasburgo pega na herança intelectual que Paris debateu nos seus cafés filosóficos e dá-lhe uma aplicação universal e pacífica. Quem sai de Paris traz as perguntas; Estrasburgo oferece as respostas. Paris mostra-nos o que fomos capazes de erguer sob o signo do poder; Estrasburgo recorda-nos o que devemos construir sob o signo da convivência.

Em Estrasburgo tocamos o próprio berço da nossa modernidade. Aqui nasceu a possibilidade de imortalizar o pensamento. Na praça onde está a estátua de Johannes Gutenberg, não encontramos apenas bronze; tocamos o próprio berço da nossa modernidade. É um exercício sobre a memória. Antes dele, a palavra escrita era efémera, sujeita ao esquecimento; depois dele, a humanidade descobriu que podia espelhar a sua alma em mil páginas iguais. Por isso, de certo modo, fomos prestar vassalagem ao homem que transformou o silêncio da ideia no clamor do livro.


As Margens do Espírito

Dia 13

Deixámos Estrasburgo num rito de passagem necessário, para nos desprendermos da harmonia europeia e institucional para ir ao encontro da profundeza um dos maiores espíritos humano. É imperativo cruzar a fronteira invisível e viajar até Basileia, a guardiã do Reno, o portal onde o tempo se sedimenta na universidade mais antiga da Suíça.

Naquela instituição secular, que Friedrich Nietzsche ousou leccionar, sob o peso de uma lucidez que o mundo ainda não conseguia comportar. Basileia foi o cenário da sua profunda infelicidade, o solo estéril para a sua alma incompreendida, onde a solidão pesava tanto quanto a névoa do rio. O próprio povo da cidade, num misto de tributo e ironia histórica, parece ter cristalizado essa melancolia na fonte que lhe atribui — uma água que corre perpétua, como o fluxo de pensamentos que mais tarde inundaria o mundo com a sua filosofia do martelo.

A cátedra precoce em Basileia converteu-se num exílio do espírito, onde a rejeição académica de A Origem da Tragédia votou Nietzsche ao ostracismo e à solidão. O colapso físico, marcado por dores crónicas e pela dolorosa rutura ideológica com Richard Wagner, transformou a cidade num calvário. Contudo, foi precisamente dessa infelicidade profunda que emergiu a génese da sua filosofia: a convicção de que o sofrimento é a força motriz da verdadeira grandeza espiritual.

Por isso, passear à beira das margens do Reno, o viajante encontra o silêncio necessário para digerir essa herança. As águas correm rápidas, indiferentes às dores dos homens, de forma a unir as margens da Suíça, da Alemanha e da França num abraço fluido. E então, no coração da cidade, a Marktplatz revela o grande contraste: o Rathaus, aquele edifício de um vermelho exuberante e visceral, uma cor que não se replica em mais nenhum canto da Terra. É como se a própria arquitectura quisesse gritar contra a sobriedade cinzenta da existência, um monumento de sangue e arte que desafia o próprio tempo. Sair de Estrasburgo para Basileia foi, afinal, trocar a paz do presente pela vertigem da eternidade.


Onde o Amor do Viajante Consome o Objecto Amado

Dia 14

 A Alsácia é um palimpsesto geográfico e cultural. Trata-se de uma terra de fronteira que, ao longo dos séculos, oscilou como um pêndulo entre o rigor germânico e a subtileza latina. A Alsácia não pertence a nenhuma das duas heranças por inteiro; ocupa o intervalo, a síntese dialética. A paisagem, onde as vinhas beijam as encostas das montanhas dos Vosges, evoca uma harmonia intemporal. As casas de enxaimel, com telhados empinados que parecem apontar para o absoluto, contam a história de uma resiliência silenciosa. É uma região onde o tempo pareceu, durante séculos, ter encontrado um ritmo orgânico, ancorado na terra, no vinho e na pedra

No coração desta idoneidade repousa Colmar, o cartão-postal por excelência da Alsácia. Colmar é uma miniatura do maravilhoso, um labirinto de cores pastéis e canais bucólicos na Petite Venise onde o reflexo da arquitectura renascentista na água cria a ilusão de uma permanência artística. Se Estrasburgo é a mente institucional da Alsácia, Colmar pretendia ser a sua alma íntima.

Mas a voragem do turismo de massas converteu Colmar num simulacro estéril, numa transmutação que reduziu uma comunidade outrora viva a um mero cenário de parque temático, onde a arquitectura renascentista perdeu a sua dignidade histórica para se render como mercadoria visual. O paradoxo de Colmar é o paradoxo de tantos outros tesouros europeus: o amor dos viajantes consome o objeto amado.

Saímos da estação de Colmar de mota. Não de carro, não a pé. De mota. O céu de Setembro era um absoluto de azul e zinco, uma abóbada nua onde nenhuma nuvem ousava interpor-se entre a luz e o alcatrão. Sob o calor que fazia o horizonte ondular como uma miragem, a estrada não era apenas geografia; era um espelho térmico. Ao limpar o suor da testa com as costas da luva, percebi que a pele me vinha manchada de nanquim preto, o óleo do motor misturado com o cheiro a celuloide queimada.

Nós éramos uma única lâmina de ferro atirada contra o dia: eu o cabo, maciço e forjado no rigor do metal; o Guilherme o gume, a direito contra o vento. Atrás de mim, ele mantinha o compasso perfeito, uma sombra fiel que decifrava o meu movimento antes mesmo de eu o executar, com a herança intuitiva de quem traz o motor no sangue. Eu assumia o papel de Michel Vaillant, o arquiteto da linha precisa, o homem que desenha o tempo através do rigor; ele encarnava o meu Steve Warson, a força telúrica que ignora o limite [tv-movie]. Ou talvez não fosse um papel. Talvez a ficção nos tivesse sequestrado o esqueleto e aquele calor fosse apenas a luz da lâmpada de Graton a secar o traço fresco na nossa pele. Onde eu coloco a geometria da precisão, ele impõe o atrevimento poético do risco.

Na Avenue de la République, a cidade ainda se esfregava os olhos, presa num limbo entre o sono e a vigília. A Petite Venise duplicava-se nas águas imóveis do Lauch: as cores eram um rumor de sílabas claras, uma aguarela cujas tintas ainda não tinham secado na tela do dia, suspensas na frescura de uma luz que começava a ser corpo. Era a manhã a erguer-se no seu estado mais puro e desarmado, um espelho de águas onde o azul e a cal se procuravam amorosamente.

Com o capacete encaixado no cotovelo, resgatando a nudez do rosto a esse primeiro sopro de claridade, olhei pelo espelho retrovisor e o mundo vacilou: o reflexo do Guilherme não tinha nitidez humana, estava impresso a traço grosso, com a pele desenhada pelas retículas cromáticas de uma edição de 1960, oscilando entre o papel e a carne à medida que a vibração do motor distorcia o vidro.

Percebi que Jean Graton teria tido uma inveja profunda daquele instante, mas também um medo terrível. Nós não éramos mais dois desenhos estáticos; éramos o traço original a revoltar-se contra a margem, uma fenda de carne e osso a rasgar a própria página do álbum. Ele passou a vida a prender-nos dentro de cockpits claustrofóbicos, sepultados sob chapas de alumínio, publicidade e o peso dos patrocínios. Condenou-nos à imortalidade do papel, mas roubou-nos o essencial: nunca nos deu a verdade deste vento na cara.

No álbum Les Chevaliers de Königsfeld, o Dr. Spangenberg tinha-nos convocado ao seu castelo nas imediações do Nürburgring. Aquela fortaleza funcionava como a antecâmara sagrada da própria corrida, um templo de pedra onde o progresso mecânico era proibido; não se violava o seu pátio de carro, entrava-se a pé, com o passo lento e o respeito de quem se submete a um veredicto.

O castelo media o carácter de quem chegava. Mas o Haut-Koenigsbourg mede-nos de outra forma, com uma altivez mais silenciosa e perversa. Visto cá de baixo, emergindo do manto cerrado da floresta, o viajante alimenta a ilusão ótica de que o está a conquistar com o olhar; porém, ao inclinar a mota na fita de asfalto da D159, o relevo desmorona-se: a montanha perde a sua profundidade e o castelo parece aplainar-se contra o céu, como se fosse um fundo pintado à pressa com guache preto e sépia, uma vinheta gigante que se recusa a ser real até que o pneu toque na sua margem.

A verdade impõe-se: o castelo não é o alvo, é o observador. Nós somos apenas um sobressalto de ferro e sangue a subir pela sua espinha dorsal de granito. É ele, o olho cego e milenar da montanha, que nos vigia enquanto rastejamos pelas suas veias de asfalto.

Seis quilómetros de curvas como ossos partidos, cotovelos cegos onde a terra se dobra sobre si mesma. Primeira engrenada, a segunda, a agonia da primeira a morrer nas rotações baixas, para logo de seguida o motor berrar no limite do seu fôlego, espremido nas rotações altas que cortam o ar. O olhar projecta-se para lá da matéria imediata enquanto deitamos as motas no limite do abismo: os pisa-pés mordem violentamente o alcatrão, roçando no chão com um gemido de ferro, até que finalmente a faísca se faz viva — um relâmpago de metal sacrificado que risca a curva. E nesse atrito, o pânico: o ferro não arranca pedra, arranca polpa de celulose; a faísca é um fósforo real que queima a margem branca da vinheta, deixando um rasto de fumo denso e o cheiro químico da tinta quente que ameaça apagar a estrada sob as nossas rodas.

De súbito, o Guilherme rasga o flanco exterior numa curva esmagada: o Warson nele irrompe como um animal jovem, puro fulgor e insolência sanguínea, para logo de seguida recolher a sua própria violência e colar-se à minha retaguarda, cúmplice no ritmo. A mota dele é um estilete de fósforo que incendeia a berma, um rasgão na cronologia pura. Cada curva é uma decapitação do espaço: esconde a pedra e devolve-a depois mais vasta, mais encarnada de ferro e heráldica, mais impossível na sua suspensão. Era assim que a mão de Graton criava a velocidade: não através de traços frenéticos ou do artifício do movimento, mas pela paciência da demora. A linha clara não corre. É uma lentidão sagrada onde a luz precisa de tempo para se consumar.

A mota ensina-nos aquilo que eu e o Warson decifrámos na cal das pistas: nunca se corre contra o homem que vai ao lado, corre-se contra o abismo da própria renúncia. Conduzes contra essa substância escura que em ti pede para parar, contra a voz doméstica e cobarde que murmura: «basta, o mundo visto de baixo já é suficiente, a imagem está salva, regressa à planície de Colmar que o domingo é um dia sagrado para os vivos». Essa voz é uma âncora de chumbo vazada directamente nas nossas veias, o peso morto da planície que tenta adormecer o metal. Mas o sangue não cede à terra plana. Pilotar é este exercício de violência contra a imobilidade, um pacto contínuo para manter os olhos abertos enquanto a montanha te exige o esgotamento.

O capacete é uma cápsula de silêncio que aniquila o rumor profano do mundo para salvar apenas o essencial: o atrito visceral da corrente contra os dentes de ferro, a nossa respiração que se funde num único sopro compassado. O castelo não capitula, não se deixa saquear; és tu que te despes de toda a soberba e te entregas à sua verticalidade. Quando finalmente as motas calam o seu fogo na base da rocha, despimo-nos das luvas como quem se liberta de uma armadura inútil. A paragem não é o fim do movimento; é o metal quente a devolver-nos a nossa própria fragilidade calcária. Olho para o Guilherme e reencontro nas suas pupilas aquele mesmo incêndio frio, a electricidade estática que o Steve transportava no olhar nos segundos que antecediam a grande explosão da partida. O resto do caminho é um acto de submissão pedestre: os últimos quinze minutos pertencem ao corpo nu, dois cavaleiros que abandonam as suas montadas de metal à porta da fortaleza e sobem a pulso, medidos pela gravidade.

Aqui no topo, a planície da Alsácia desenrola-se como uma pele imensa até esbarrar no negrume vegetal da Floresta Negra. O vento não sopra: rasga, trazendo nas suas garras o cheiro resinoso, denso e primitivo dos pinheiros esmagados pelo calor. É aqui, suspensos entre a terra e o céu, que o meu filho finalmente compreende o enigma: porque é que o Michel Vaillant e o Steve Warson, dois homens que tinham o asfalto sagrado de Monza e a vertigem mecânica do mundo aos seus pés, escolheram abdicar de uma semana inteira para se perderem na clausura de um castelo medieval germânico. Essa revelação cai sobre nós com o peso limpo de um raio mineral. Compreende que a glória não se estende na horizontalidade da planície, não se mede pelo chão que se pisa; pertence à verticalidade pura, ao fulgor que sobe. Compreende que o homem precisa de se medir contra a pedra antiga para saber o tamanho da sua própria alma.

Porque existem deuses e corridas que recusam o abandono fácil da descida. No declive, a gravidade é apenas queda. A verdadeira consagração, a única que valida o sangue e a linhagem, exige o corpo contra a atracção do abismo, na conquista dessa linha que sobe. E embora, como bem sabemos — contrariamente aos existencialistas —, a vida seja sempre a perder, há uma dignidade mística na recusa da planície.

Funda-se na subida.

 

Alemanha

Dia 15

O Ventre de Agulhas

A Floresta Negra não começa onde as árvores se juntam; começa onde o dia desiste. E desiste porque a luz ali perde a sua soberania, esmagada por uma muralha vegetal que intercepta o céu e exige a capitulação do sol. O dia não morre por cansaço; é assassinado à queima-roupa pelas copas dos pinheiros, triturado num labirinto de ramos tão densos que transformam a claridade num animal ferido, obrigado a rastejar no chão antes de ser definitivamente engolido pelo escuro.

Vista de fora, parece uma muralha de basalto e resina, mas, ao cruzar a sua margem, constatamos que ela não se oferece ao olhar: engole-o. O chão é uma tapeçaria húmida de séculos mortos — folhas que se transformaram em cal, musgo que bebe o silêncio e agulhas de pinheiro que cravam a terra como uma heráldica esquecida. A luz não ilumina; é apenas um animal ferido que tenta rastejar entre os troncos colossais, uma claridade purificada pelo medo que mal consegue tocar as raízes.

Percorrer as estradas neste labirinto de sombras perde a sua geometria. Não há linhas rectas na penumbra vegetal. Avançar é aceitar a disciplina da humidade, o cheiro primitivo da madeira que apodrece para gerar mais vida, a respiração pesada de uma terra que assistiu ao nascimento e à queda dos impérios sem nunca alterar o ritmo do seu próprio crescimento. Os pinheiros não são madeira; são colunas de um templo cego que suporta o peso do céu.

A floresta mostra-nos o que a planície esconde: que o isolamento não é a ausência de mundo, mas a revelação da sua espessura. Sob a abóbada escura, perdemos a ilusão da nossa centralidade: a nossa sua existência é um sobressalto breve, um sopro de carne exposta num território governado por deuses minerais e raízes profundas que escavam o escuro há milénios. Aqui, o silêncio não é vazio; é uma massa densa, carregada de murmúrios vegetais e do estalo seco de ramos que se partem como ossos antigos.

Porque a Floresta Negra não se atravessa para chegar a lado nenhum. Atravessa-se para esquecer a margem. E embora saibamos que o homem que entra na densidade do arvoredo nunca é exactamente o mesmo que emerge do outro lado, há uma dignidade sagrada nessa entrega ao escuro.

Salva-se na perda.


Holzwege: Os Caminhos que Não Vão a Lado Nenhum

O nosso destino não era uma cidade, nem uma estrada no mapa; era um exílio de madeira encravado no topo de Todtnauberg. A cabana de Martin Heidegger. A Floresta Negra não começa onde as árvores se juntam; começa onde o dia desiste e o pensamento é forçado a regressar à terra.

Aqui, a montanha não é geografia; é o cenário do Holzwege, os caminhos de lenhador que avançam na densidade vegetal para morrer abruptamente no nada, deixando o homem sozinho perante o mistério do Ser. O filósofo refugiou-se aqui para fugir ao ruído técnico do mundo, para escutar o silêncio da clareira — o Lichtung —, aquele instante em que a verdade se desoculta entre as sombras das agulhas de pinheiro.

Mas a modernidade, essa mesma técnica mecânica que ele tanto temia, tinha cercado o seu santuário. Quando o motor da mota finalmente se calou, o que encontrámos não foi a paz bucólica da filosofia, mas o aviso agudo da eletricidade: vedações eletrificadas a proteger o mito, arame farpado a delimitar a fronteira entre o turismo profano e a herança do pensamento. Uma barreira horizontal a tentar travar o fulgor da nossa subida.

Olhei para o Guilherme. O Michel Vaillant e o Steve Warson que habitavam o nosso sangue não conheciam a submissão aos limites do papel, muito menos a vedações de arame. Onde o filósofo exigia a paciência do camponês, nós impusemos o risco. Saltámos. O meu filho primeiro, com a leveza de quem desafia a gravidade; eu logo a seguir, sentindo o estalido da corrente elétrica a roçar a berma da bota como a faísca que tínhamos deixado no asfalto da D159. Ao pisar o solo proibido, os nossos sentidos cederam à dissolução absoluta. As árvores colossais transformaram-se em colunas de um templo cego e o cheiro a resina esmagada misturou-se com o aroma a papel antigo e tinta de imprensa.

Estávamos ali, dois intrusos mecânicos feitos de carne e banda desenhada, a violar o solo sagrado do homem que escreveu sobre a angústia e o fim. Demos conta, no frio daquela clareira, que a cabana rústica e a floresta escura partilhavam o mesmo enigma que o castelo medieval da Alsácia: que o homem precisa de se isolar na espessura do mundo para saber o tamanho da sua própria alma. E que a verdade, tal como a vida, não se guarda atrás de arames.

Descobre-se no salto.

Não chegámos à cabana.

A cabana é que nos deixou chegar.

Desde a placa da Enge, o caminho dividia-se — esquerda e direita — como sempre se dividem os caminhos no pensamento. E eu escolhi primeiro o mais curto, porque o corpo cansado mede a distância em dor. E o caminho curto castiga. Foi preciso voltar atrás para ir em frente. Heidegger chamava a isso Holzwege — caminhos que não levam a lado nenhum, e que por isso mesmo nos ensinam onde estamos.

Fui pela esquerda, onde o chão é pedregoso, impraticável mesmo de mota, feito para ser feito a pé. Feito para ser feito com o corpo todo. E eu fui com metade de um, com o dobro da vontade e com o Guilherme a puxar a minha mão.

A seta na árvore velha — oca, ferida, ainda de pé — não apontava para a direita. Apontava para o ser. Rundweg. Caminho circular. Todo o caminho que vale a pena acaba onde começou, mas já não somos os mesmos que o começámos.

E depois, de repente, ela.

Pequena, de telhas cinzentas e portadas verdes fechadas, como olhos que se fecham para pensar melhor. 6 por 7 metros de mundo. Não é uma casa. É uma recusa. Uma recusa da cidade, da pressa, da explicação fácil. Ali dentro não há nada — e por isso cabe lá o tudo.

Sentámo-nos na erva amarela, à sua frente. Com uma perna assente na terra, a outra a lembrar-te do caminho. Nesse gesto, fiz o que o próprio Heidegger fez durante cinquenta anos: trouxe o corpo para dentro do pensamento.

Ele dizia que nós não estamos no mundo, nós somos no-mundo. In-der-Welt-sein. Não é uma metáfora. Hoje não visitámos a montanha. Fomos montanha. Com o meu cansaço, com a minha prótese, com o meu teimoso eu vou lá dar.

A cabana não me deu respostas. As cabanas nunca dão. Deu-me sombra e deu-me altura. 1182 metros. O suficiente para ver o vale lá em baixo e perceber que o caminho difícil era o único que me podia trazer até aqui.

Descansei. Era o que me faltava fazer.

 

O Desvelar da Madeira

Estou aqui, diante desta estrutura fustigada pelo vento de Todtnauberg, e basta um olhar minimamente atento para que o mito do filósofo-camponês se desmorone. Heidegger escreveu páginas admiráveis sobre o Dasein, sobre o ser-no-mundo e a proximidade com a terra, mas esta cabana recusa-se a ser uma metáfora. Ela é um facto físico.

Ao tocar na precisão dos encaixes das vigas de madeira, ao observar o prumo exato das paredes de 6 por 7 metros e o modo como o telhado foi calculado para suportar o peso esmagador da neve da Floresta Negra, a verdade impõe-se com a força da matéria: Heidegger nunca poderia ter construído isto. Por muito que a hagiografia romântica tenha tentado vender a imagem do pensador solitário que empunha o machado e ergue o seu próprio teto, a qualidade desta construção denuncia a mão de profissionais altamente especializados. Não há aqui o tatear amador de um académico; há a mestria técnica e milimétrica de operários especializados.

É a partir desta evidência física, desta solidez que salta aos olhos de quem aqui está, que somos forçados a operar o verdadeiro Aletheia — o desvelamento da verdade oculta sob a propaganda da autenticidade.

A verdadeira arquitecta deste espaço, tanto no sentido conceptual como financeiro, foi Elfride, a mulher de Heidegger. No Verão hiperinflacionário de 1922, enquanto o dinheiro alemão derretia nas mãos dos cidadãos, foi a lucidez pragmática de Elfride que salvou o património familiar. Movida por um calculismo económico, resgatou um adiantamento da sua herança e converteu o papel-moeda moribundo em terra e matéria estável. Foi ela quem desenhou a planta. Foi ela quem geriu a logística, quem contratou a força de trabalho e quem supervisionou cada etapa da edificação. A cabana, longe de ser um brotar espontâneo do “Ser”, foi um produto do capitalismo imobiliário e da gestão patrimonial burguesa.

E aqui reside a ironia suprema e a contradição insolúvel do pensamento heideggeriano.

Em ensaios posteriores, Heidegger fulminará a “Técnica Moderna” (Gestell), acusando-a de desenraizar o Homem, de transformar a Natureza num mero fundo de reserva e de coisificar a existência. Sucede porém para que ele pudesse usufruir do privilégio do seu recolhimento bucólico e criticar a modernidade, ele dependeu inteiramente dos mecanismos dessa mesma modernidade. O seu “habitar” poético foi financiado pela previdência económica da esposa e executado pela divisão técnica do trabalho.

Mais do que isso: há uma profunda injustiça existencial neste isolamento. Para que o Heidegger pudesse encenar a sua comunhão com o absoluto, Elfride teve de assumir o papel invisível de suporte doméstico e financeiro,  para assegurar o abastecimento, a lenha e a ordem prática. Heidegger retirou-se para a montanha para pensar a “clareira da floresta”, mas a clareira já tinha sido limpa, paga e planeada por outros.

Olhar agora para estas fundações, percebe-se que a cabana de Todtnauberg é o monumento de uma grande ilusão. O homem que nos exortava a escutar o silêncio do Ser fê-lo num palco construído pelo suor de operários cujos nomes a história oficial tendeu a apagar, e pelo pragmatismo de uma mulher cuja agência foi reduzida à sombra da genialidade do marido. Desvelar esta cabana é compreender que, por trás de toda a retórica do despojamento, existia um luxo burguês profundamente moderno.

Esta mesma cenografia da inautenticidade, erguida sobre o apagamento do outro e a higienização da realidade material, acabaria por servir de palco para o drama mais sombrio da biografia heideggeriana. O espaço que nasceu de uma contradição prática transformou-se, décadas mais tarde, no epicentro de uma falência moral intransponível. Afinal, o encontro de Todtnauberg entre Paul Celan e Martin Heidegger é um dos momentos mais pesados do século XX – e por isso mesmo, um dos mais instrutivos.

Quando o poeta pisa este chão em Julho de 1967, a farsa da cabana adquire uma dimensão trágica. Heidegger tenta instrumentalizar a mística da Floresta Negra para se apresentar a Celan não como o ex-reitor comprometido com o nacional-socialismo, mas como o sábio camponês, imune à corrupção do mundo técnico.

Contudo, o silêncio que o filósofo oferece ao sobrevivente da Shoah deixa de ser o silêncio sagrado do Ser para se revelar como o mutismo cobarde do cúmplice. No poema “Todtnauberg”, Celan registará a esperança frustrada de ver brotar da boca de Heidegger uma palavra de humanidade ou retractação. O que o poeta desvelou, in loco, foi que a mesma rigidez estrutural que apagou os operários da construção civil apagava agora as vítimas da História. A cabana, concebida para ser o templo da verdade do Ser, consumou-se como o búnker do silêncio histórico.

Celan esperava uma palavra. Uma única palavra. Heidegger ofereceu-lhe o livro de visitas para assinar. Celan escreveu que havia ali a esperança de uma palavra vinda do coração de um pensador.

Dessa não-palavra nasceu, dias depois, o poema “Todtnauberg”.

A lição poética que se pode tirar daqui, é qua a linguagem tem de passar pelo luto. Celan não escreve sobre o encontro. Ele escreve o encontro como paisagem, diz assim:

Árnica, húmida-de-olhos, bebida

da fonte com a estrela cúbica por cima,

no

livro de registo

de quem tirou os nomes antes do meu? -,

nesta

linha aqui escrita sobre

uma esperança, hoje,

de uma palavra

a pensar de um

coração […]

[Tradução de João Barrento, edição da Cotovia]

 

Para Celan, depois de Auschwitz, a língua alemã ficou contaminada. Não se pode fazer poesia como antes. Tem de se fazer poesia através do que aconteceu. A lição poética de Todtnauberg é esta: a poesia não reconcilia, ela regista. Ela mede a distância entre duas pessoas que falam a mesma língua e já não habitam o mesmo mundo. A árnica, a turfa húmida, o caminho acidentado – tudo é concreto, quase táctil. Celan recusa a abstracção heideggeriana do Ser para ficar com o que é rasteiro, molhado, humano. E o silêncio de Heidegger torna-se matéria poética. O poema é grande precisamente porque a palavra esperada não veio.

A lição política é de que não há perdão sem responsabilidade. Este é o ponto mais duro. Durante décadas tentou-se ler aquele encontro como um diálogo entre a Poesia e o Pensamento. Não foi. Foi um encontro entre uma vítima e um homem que fez parte da máquina que destruiu a família dessa vítima – e que escolheu calar-se.

Celan, que toda a vida foi acusado de forma injusta de plágio e que lutou contra a depressão, fez um gesto imenso de generosidade ao subir à cabana. Heidegger, segundo o testemunho de quem lá esteve, falou de Hölderlin, da técnica, da paisagem. Não falou da sua culpa. A lição política é implacável e actualíssima: não existe um “virar a página” sem primeiro a ler. A cultura alemã do pós-guerra quis depressa separar “o grande filósofo Heidegger” do “funcionário nazi Heidegger”. Celan mostra que isso é impossível. Uma grandeza filosófica não absolve uma falência moral.

O perdão que Celan talvez estivesse disposto a dar não era barato. Exigia uma confissão. Como ela não veio, o encontro selou uma impossibilidade. Celan pôs termo à vida três anos depois, no Sena. Não por causa de Heidegger, mas aquele silêncio foi mais um peso. A lição filosófica é de que o pensamento que esquece o homem é perigoso. Heidegger pensou o Ser, o Dasein, a técnica como destino do Ocidente. Pensou tudo em grande. Mas para Celan – e aqui reside a crítica definitiva -, Heidegger falhou ao pensar o concreto: o outro homem à sua frente.

Para Heidegger, o judeu Celan era quase uma abstracção: “o poeta”. Para Celan, Heidegger era um homem concreto que tinha de responder. É o que Emmanuel Levinas, amigo de Celan, formula depois: antes da ontologia – antes de se perguntar o que é o Ser – vem a ética. Vem o rosto do outro que te diz “não matarás”. Heidegger nunca conseguiu descer da cabana de Todtnauberg para esse plano. Ficou na altitude da Floresta Negra, onde o ar é puro e onde não se ouvem os gritos dos campos.

O que se retira de tudo isto é que todo o pensamento que se pretende radical mas que se recusa a fazer o seu próprio exame de consciência, que foge para a paisagem, para a etimologia, para o destino do Ser para não ter de dizer “eu errei, eu fui cúmplice”, é um pensamento mutilado. No livro de visitas da cabana, Celan assinou. Por baixo, com a mesma caneta, Heidegger escreveu que desejava que aquele encontro deixasse marcas. Deixou.

A marca é este paradoxo que o poema guarda: continuamos a precisar de ler Heidegger para pensar, e continuamos a precisar de ler Celan para nos lembrarmos do motivo por que ler Heidegger dói.

todtnauberg – poema único

 

a montanha é um dente negro, heidegger é o dente,

a cabana é a gengiva

celan entra: judeu, ferida, sal na ferida, língua

cortada que fala

fala, cabra, fala, filósofo –

heidegger: ser. nada. ser. a floresta a arder sem fogo

sem cinza

celan: mãe. mãe morta. mãe cinza. mãe fumo

em alemão

dois alemães, um alemão que mata o alemão,

um alemão morto a falar alemão vivo

na mesa o livro: escreve, judeu, escreve o teu nome por baixo dos nomes

que eu apaguei

celan escreve: escreve com cuspo, com sangue frio,

com a faca nos dentes: todt

heidegger cala: o calar é de ferro, o calar é suástica

fechada, o calar é a sua obra completa

e a montanha não cai

e o eixo não inverte – por pouco –

fica o cheiro – suor judeu, suor alemão, o mesmo suor

e deus não distingue

fica a cadeira onde celan não se sentou

fica a cadeira onde heidegger se sentou de mais

fica a caneta: tinta preta como poço, como fossa, como fumo de campo

a língua alemã é um celeiro cheio de ossos

e o filósofo diz: que belo celeiro

e o poeta diz: que belos ossos

dá-me uma palavra, diz o poeta

toma uma floresta, diz o filósofo

a árnia? não. a árnica, húmida de olhos, puta de flor amarela que não cura nada

celan desce a montanha

com a palavra por dizer nos dentes

como uma pedra

heidegger fica

a ver a pedra crescer-lhe na boca

e nunca mais

nenhum dos dois

tira a pedra da boca

 

Suiça

Dia 16

Última Linha de Fuga: A Falsa Paz de Genebra

Se a subida à montanha de Todtnauberg nos confrontou com o búnker do silêncio ontológico, a nossa descida e travessia em direcção à Suíça marca o encerramento geográfico e moral desta jornada. Fechar a viagem em Genebra é o passo necessário para compreender a escala total do Palco do Império. Deixamos a micro-cenografia de madeira da Floresta Negra para entrar na macro-cenografia de vidro e gesso da neutralidade helvética.

 A Pedra na Boca e o Palco do Império

 Genebra ergue-se primeiro na reputação, esse mito da cidade da Paz que o mundo propagou. Mas quem chega a estas margens vindo do ferro de Guernica e do sal de Omaha traz a pele escaldada, com a história a sangrar na memória e a cinza dos homens nos olhos. À beira do Léman, as montanhas fixam apenas o bulício de um espelho de vidro duplo, onde a opulência reflecte a ilusão e a burocracia internacional mascara a impotência humana. O tempo fechou-se no pulso, como uma algema de ouro, e a alma recolheu ao escuro de uma caixa-forte.

 As montras e os letreiros luminosos das grandes marcas são altares de uma vaidade carnívora. O apelo ao consumo é tão feroz que mesmo o homem domesticado sente, na pele, a asfixia da armadilha e o espasmo da recusa de tudo aquilo. A banca escolheu este cenário para edificar o seu império de numbers, uma engrenagem cega que drena o sangue da existência e converte a vida num simples risco de tinta, como quem deita uma pá de cal sobre a terra fresca. O luxo exposto esmaga a simplicidade: é um mercado global que celebra a posse e liquida o resto.

Mais adiante, o Palácio das Nações é apenas um mausoléu de gesso. Ocupa o mesmo edifício da antiga Sociedade das Nações e herda-lhe as paredes de pedra e o mesmo fracasso. A Organização das Nações Unidas arrasta-se hoje tão impotente como a que a antecedeu, presa a esse salivar canceroso, a um rumor de dentes que olha para a guerra sem a conseguir estancar. O edifício petrificou-se.

Genebra condensa, assim, o paradoxo da nossa modernidade: junta a riqueza que não alimenta e debate a paz que não alcança. Tudo ali se reduz a um protocolo de repartição, ao ensaio vago maquinal cujo poder real se decide noutros dentes. Sob as avenidas de luxo e os comités de poeira, resta apenas a carcaça desse engano, perante a qual a multidão caminha cega, entregue à sua própria sombra, e onde já nenhum vivo põe a fé.

Ao largo, a Ilha Rousseau surge como um insulto de bronze. Ali, no meio da corrente do Léman, a memória do filho mais violento da cidade repousa sitiada pelo comércio e pelo ouro que ele tentou queimar em vida. Jean-Jacques Rousseau previu esta Genebra: o progresso material não eleva os homens, antes cava a sua decadência moral, trocando a virtude cívica pela ilusão de uma felicidade comprada no balcão. Foi na propriedade privada e na acumulação que ele viu o primeiro nó da corda que hoje nos asfixia, dividindo o mundo entre os que possuem e os que fingem possuir.

Contra o ruído dessa feira global, resta a retirada para a matéria limpa da terra, a auto-suficiência que recusa o mercado. Hoje, a sua estátua na pequena ilha não é um adorno turístico; é a carcaça de um exilado. Rousseau permanece ali, cercado pelas vitrinas douradas e pelo império dos números, como um morto que se recusa a assinar o pacto. A ilha não é um refúgio de poetas: é o pedaço de terra onde a integridade humana prefere a solidão ao espectáculo do lucro.

O Nó da Corda e o Chão da Boca

O balanço final destas duas estações — o búnker de madeira na Floresta Negra e o búnker Art Déco nas margens do Léman — deixa-nos diante do mesmo espectáculo. Desvelar a cabana e expor Genebra é  esbarrar na evidência que o Império constrói sempre os seus palcos com o mesmo cimento: a higienização da dor e o apagamento dos corpos.

No fim, o que resta quando as luzes dos altares da vaidade se apagam e o eco das conferências de poeira silencia?

Resta o rasteiro. Resta a persistência da matéria que não se deixa triturar pela engrenagem nem domesticar pela abstração do Ser. Heidegger ficou na altitude, mumificado pelo seu silêncio. Genebra continua a flutuar na sua opulência de vidro duplo, fingindo que o ouro compra a paz. Mas a verdade da nossa época não habita nos seus palácios nem nas suas cátedras; ela desceu a montanha com Celan, na forma de uma pedra nos dentes, e ficou sitiada na ilha com Rousseau, como um esqueleto de bronze que se recusa a assinar o contrato.

Escrever, depois de Todtnauberg e de Genebra, é um acto de escavação. Não para reconciliar os vivos com os seus impérios, mas para garantir que o celeiro da linguagem continue a guardar os ossos. Contra a mentira do progresso material e a cobardia do pensamento puro, a filosofia só se salva se regressar ao plano da ética — ao rosto do outro homem, ao suor partilhado, à terra húmida que nenhuma flor amarela consegue curar.

O império continua no palco.

A pedra continua na boca.

 

Ítaca

Da Espada para a Palavra

Se o Saint-Michel é a ilha que se recusa ao mundo, o Castelo de Leiria é o contrário: é o monte que vigia o mundo para o tornar possível. Um é feito para ser inatingível. O outro foi feito para não deixar que nos atingissem.

O Castelo de Leiria não nasceu por devoção, nasceu por necessidade. Em 1135, D. Afonso Henriques funda-o de raiz em território ermo, a meio-caminho entre Coimbra e Santarém, para proteger Coimbra das razias dos mouros. Foi destruído em 1137, reconstruído, destruído outra vez. D. Sancho I manda-o amuralhar em 1195.

É, desde o princípio, um castelo de fronteira. Não tem a opulência fechada de um palácio do norte. Tem a secura de quem está sempre de atalaia. O que o torna único em Portugal: D. Dinis. Em 1324 manda construir a Torre de Menagem e transforma a fortaleza em paço. O Rei guerreiro que se torna Rei poeta. O homem que plantou o Pinhal para travar as areias e fez do castelo uma varanda sobre essa obra.

Por isso, visto de baixo, de Leiria, o castelo parece uma coroa pousada. Visto de cima, do adarve, percebemos a sua razão poética: não estamos a olhar para o castelo, estamos a olhar a partir dele. Vemos o Lis, vemos a cidade que cresceu à sua sombra, vemos ao fundo a mancha escura e contínua do Pinhal de El-Rei. É um castelo que não nos pede para olharmos para ele, pede-nos para olhar com ele.

É feito daquela pedra calcária branca e mole de Leiria, que ao pôr-do-sol fica cor de mel. Não é granito que desafia os séculos, é pedra que envelhece. Tem fissuras, foi muito destruído pelas Invasões Francesas e é, tal como hoje o vemos, fruto de uma recriação recente. E isso torna-o mais vático: não é uma ruína pura, é uma memória que decidimos voltar a erguer.

O Saint-Michel celebra o absoluto, o sagrado separado. Leiria celebra o relativo, o limite, como filosofia de fronteira. O castelo não existe por si, existe porque há um sul e um norte, um nós e um eles. É a prova arquitectónica de que a identidade portuguesa não nasceu no centro, nasceu na borda. Somos filhos de um posto avançado.

A transformação de D. Dinis é a tese do castelo. Ele pega num objecto de guerra – uma fortificação de D. Afonso Henriques – e converte-o em objecto de cultura, em Paço Real, em lugar de chancelaria e de trovadorismo. É o movimento civilizacional por excelência: a passagem do acto de defender a terra para o acto de a cultivar e de a cantar. O pinhal que ele planta lá em baixo é a mesma acção que a torre que ele levanta cá em cima. Um segura a areia, o outro segura a História.

A melancolia do vigia. Um castelo de fronteira, quando a fronteira avança, fica desempregado. Deixa de ser necessário. E o que faz? Fica a ver. Esta é a condição mais comovente de Leiria: a do vigia que já não tem nada para vigiar. Já não vêm os almóadas. Vem só o tempo. Por isso, ao contrário de Óbidos ou de Guimarães, que são castelos de festa, o nosso tem uma melancolia intrínseca. É um castelo órfão da sua própria função. E ao ficar ali, inútil e belo, lembra-nos que toda a utilidade passa e só o que foi feito com excesso – com beleza a mais – permanece.

Se o Saint-Michel nos pergunta “em que é que acreditas quando tudo desaparece?”, o Castelo de Leiria pergunta-nos “o que é que ficas a guardar quando já não tens nada para defender?”

Tópicos: De pé com as mãosO deserto e a ilharicardo gomes

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