
Só os nossos jovens a levarem na boca por tentarem ter futuro debaixo de um tecto que seja seu, mesmo que partilhado com muitos, como acontece nas principais cidades europeias, foram capazes de pôr termo — ou, pelo menos, de arrefecer — à grande tragicomédia que se abateu sobre o país.
Mais uma, centrada num dos F que ainda e para sempre nos definirão.
Não tenho mais nada a acrescentar ao minucioso escalpelamento que se fez de tudo isto, da ingratidão dos portugueses ao complexo de semideus de Ronaldo. Se calhar, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Assim ou assado, ou antes pelo contrário. E, de facto, pouco interessa ao caso.
Regressado à Arábia para as suas noites de mil golos, o espetáculo que nos dá a assistir lembra The Truman Show (1998, de Peter Weir, com Jim Carrey): um mundo criado à medida do protagonista e televisionado para entreter o público. A diferença é que Ronaldo sabe onde estão as câmaras. Posa com a bandeira da Arábia Saudita enquanto os seus verdadeiros fãs, os que lhe são gratos, lhe prestam uma homenagem quase bíblica, à altura do mito que se criou e que todos nós, a favor ou contra, fomos alimentando.
Por cá, um país à beira do seu pior. Um Portugal preterido até pelos imigrantes que quer expulsar, com o povo sem casa, sem pão, sem educação e, por isso, sem futuro. Um país onde quem tem o mínimo é ensinado a pensar-se privilegiado — antigamente dizia-se remediado —, como se toda a nossa ambição fosse viver, egoisticamente, acima do limiar da pobreza.
E é este fado que cantamos com Ronaldo a acompanhar-nos à viola.









