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Soldado sem patente

Já representei para um único espetador – nunca entendi esse princípio de um número mínimo de espetadores para ter lugar uma representação, afinal essa única pessoa não nos reconheceu como artistas?

João Lázaro, psicólogo clínico e director do TE-ATO João Lázaro, psicólogo clínico e director do TE-ATO
21 de Maio de 2020
em Opinião
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João Lázaro, psicólogo clínico e director do TE-ATO
João Lázaro, psicólogo clínico e director do TE-ATO21 de Maio de 2020

Sustenho o martelo bem alto, o mais que posso. O peso do ferro percorre-me o braço distendido ao limite do possível. Corpo retesado pelo esforço, cada músculo, cada nervo em alerta para que o movimento seja certeiro.

Só me é dada uma oportunidade, uma só, e cerro o punho no cabo de madeira para que o martelo não seja um objeto exterior a mim mas o prolongamento do meu corpo e da vontade que nele habita.

Tenho que erguer aquela ferramenta como uma bandeira, símbolo de uma causa maior que vai muito para além do que a minha humana condição suporta. E aquele martelo tem o peso da convicção de um estandarte, de uma razão universal, comum e partilhada, e a mim, soldado sem patente, cabe-me desferir o golpe, um só, imaculado.

O palco está vazio. Prefiro-o assim, despido de artefactos e ilusões.

A luz é a amiga de sempre, quente e definida numa zona limitada, depois a penumbra e mais longe o vazio da escuridão.

Sinto a solidão familiar de estar sozinho sobre aquelas tábuas sem fim.

Não me inquietam os monólogos, em quarenta e três anos de teatro já representei muitos, mas aquele era o primeiro.

Dias antes o José Pires, guardião incansável do nosso Teatro José Lúcio da Silva, tinha-me telefonado, cordial como sempre: a Câmara Municipal pedia que eu gravasse em vídeo uma das nossas produções do TE-ATO, O Fio da Linha do Horizonte.

Acertámos data e hora, sem mais formalidades. Confesso que não entendi a razão – sou duro de ouvido e apanhou-me mesmo no intervalo entre duas consultas.

– Quer que lhe envie um email a confirmar? Para quem não saiba ele é muito formal.

Era lá preciso?! E na quarta-feira, à noite, lá estava.

O Nuno Cardoso recebeu-me e senti-me em boas mãos. Pudera, é um privilégio ter um técnico com tanto saber a quem nos entregarmos.

O João Carvalho só me perguntou como queria o desenho de luz, e num malabarismo de botões acertou à primeira.

Por detrás da câmara de filmar, o sorriso fácil do João Fonseca.

O José Pires fez-me um último pedido: teria que entrar ou sair de cena pela plateia. E ali estava eu, minguada figura com a imensidão dos 729 lugares vazios de uma plateia em frente.

Já representei naquele mesmo teatro para a sala esgotada. Já representei para um único espetador – nunca entendi esse princípio de um número mínimo de espetadores para ter lugar uma representação, afinal essa única pessoa não nos reconheceu como artistas?

Por que razão não lhe devemos retribuir com a única coisa que sabemos fazer?

Imagine-se uma tela esbater-se de cores só porque naquele dia um só visitante ia ao museu.

Assim, para um ou para mil, haverá sempre que fazer-se teatro. Mas naquela noite foi diferente.

Um teatro vazio é um mar de solidão.

Não havia o olhar, a respiração, o silêncio cúmplice que acolhe o ato de representar, o ouvido a quem segredamos uma ideia da qual fizemos narrativa.

Apenas toda aquela imensidão de ninguém. Um imenso lençol de água. Naquela noite não era eu que ali estava.

Ali estavam comigo, num palco só, todos os que fazemos teatro: dramaturgos, encenadores, atores, técnicos, administrativos.

Os aplaudidos e os que nos bastidores fazem acontecer um espetáculo.

Todos os que agora, neste momento em que alguém lerá estas linhas, está a passar ainda mais fome que aquela a que se habituaram a sofrer na carne apenas porque acreditam na razão da Arte.

Por tudo isto, e pelo tudo que a comoção não me permite dizer, naquela noite fiz da minha modesta representação um martelo com que golpeei a água daquele mar de solidão.

Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990

Tópicos: João Lázaroopinião
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