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Home Opinião

A cantiga é um a arma

Rui Costa, Músico Rui Costa, Músico
5 de Maio de 2026
em Opinião
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Rui Costa, Músico
Rui Costa, Músico5 de Maio de 2026

Há quem diga que a música e a política não se devem misturar. É uma ideia confortável, talvez até conveniente para alguns, mas é um enorme insulto para aqueles que, em tempos de silêncio imposto, usaram a música como única forma de expressar o que não podiam dizer.

Em Portugal, essa ideia desfaz-se na melodia e na escrita da arrepiante “Grândola, Vila Morena”. Não foi apenas uma canção, foi um sinal, uma senha, um gesto coletivo que ajudou a abrir portas fechadas durante décadas. A música não seguiu a política, antecipou-a.

A música de intervenção não nasce de um capricho artístico, mas de uma necessidade humana. Quando não há espaço para falar, canta-se! E quando a sociedade se fragmenta, a música tem essa rara capacidade de juntar, não pela imposição, mas pela emoção partilhada. A música consegue fazer o que o debate político raramente alcança: colocar lado a lado pessoas que poderão discordar em tudo, menos naquele refrão. Num concerto não existem bancadas ou trincheiras. Há vozes! E, por momentos, essas vozes alinham-se.

As Canções de Abril continuam a ecoar, não apenas por nostalgia, mas porque continuam a fazer perguntas que persistem e resistem aos tempos: O que é a liberdade? O que é a justiça? Quem fica de fora? Separar a música da política é tentar apagar uma parte da memória coletiva, esquecer que houve quem arriscasse tudo para cantar em nome daqueles que não tinham voz, ajudando a construir um futuro de liberdade para as gerações vindouras.

A música não resolve conflitos por decreto, mas cria pontes! E num tempo em que é tão fácil dividir, uma cantiga poderá ser uma arma de resistência que nos mantém unidos a cantar a mesma melodia e a caminhar com passos firmes na gravilha dos nossos dias.

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