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A Indiferença

Cada verificação era acompanhada de abanos de cabeça e revirar de olhos, demonstrando um mal disfarçado desprezo

Clara Leão, professora de dança Clara Leão, professora de dança
23 de Abril de 2026
em Opinião
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Clara Leão, professora de dança
Clara Leão, professora de dança23 de Abril de 2026

Era sábado. À porta do restaurante, uma pequena fila fazia saber aos recém-chegados que seria necessário esperar que outros clientes terminassem o repasto.

Lá dentro, um corredor estreito no meio das mesas apinhadas dobrava a esquina em volta do balcão e seguia em direcção a outra sala onde mais mesas se enchiam de comensais.

Algazarra, barulho de talheres, gargalhadas e copos a tinir. Um empregado em cada sala voava entre as mesas a cozinha e o balcão, parando de quando em vez na caixa registadora a acertar as contas dos que terminavam a refeição.

Retirados os pratos, chávenas de café, copos e talheres, das mesas desocupadas, eram pousados com estrondo no balcão de inox e logo o barulho das toalhas de papel a serem amassadas e o das cadeiras a serem repostas no seu lugar anunciavam mais uma mesa pronta a ser ocupada.

Da lista dos clientes em espera saía então um nome, chamado alto e bom som, de forma que se ouvisse para além do guardavento e da porta aberta. E mais um pequeno grupo entrava, arrastava cadeiras para se sentar e recebia depois na mesa os pratos do queijo, a taça de azeitonas, e as garrafas do que tivessem pedido, tudo acompanhado pelo barulho do que era pousado com pressa.

Feita a escolha dos clientes seguia o pedido, em voz alta, para a cozinha, de onde iam saindo as iguarias prontas, e anunciadas, do mesmo modo, pelo cozinheiro.

Fixei-me numa mesa ao fundo, onde se sentavam duas pessoas quase imóveis e em silêncio, já com a refeição terminada, e onde pousavam dois pequenos algarismos insuflados, indicando o número 42.

Voltada para mim estava a aniversariante, embrenhada no telemóvel. Passou-o depois para as mãos de quem se sentava em frente – e de quem eu apenas via o casaco de malha, o cabelo grisalho, e a ponta da bengala – sacudiu a cabeleira, agarrou nos algarismos, deu instruções, por sinais, para que fosse tirada mais do que uma fotografia, e abriu o conveniente sorriso.

Seguiu-se depois uma interminável série de poses para a fotografia, verificação do resultado, crítica ao resultado, instruções curtas e secas de como fazer bem melhor, retoma dos números e do sorriso … e tudo de novo.

Cada verificação era acompanhada de abanos de cabeça e revirar de olhos, demonstrando um mal disfarçado desprezo pela incapacidade de, suponho, a senhora conseguir enquadrar a imagem a contento. Acabou por fazer uma selfie, sozinha, e voltou a mergulhar no telemóvel.

Quando chegou a minha vez de ocupar, por coincidência, a mesa ao lado, pude ver, pelos traços comuns, que era a mãe. Sentada há demasiado tempo, ia massajando um joelho, tentava mover a perna, e franzia os olhos a cada barulho mais intenso, olhando em frente, em silêncio, com um olhar fatigado e triste.

Era mãe de quem fazia anos, e parecia não servir para mais do que fotografar o sorriso da filha, para outros verem.

Um tempo depois a filha levantou-se para pagar dizendo à mãe que trouxesse o casaco e o presente. A mãe segurava na bolsa, na bengala e no presente, e não conseguia vestir o casaco. A filha, revirou os olhos. Eu detestei-a.

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