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A mudança

Leiria mudou, nós mudamos com ela, mas continuaremos a ser nós, e ela também

Clara Leão, professora de dança Clara Leão, professora de dança
12 de Fevereiro de 2026
em Opinião
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Clara Leão, professora de dança
Clara Leão, professora de dança12 de Fevereiro de 2026

Tudo é mudança, disse Heráclito. E nós, que achamos que as mudanças vão chegando devagar, como as rugas, quedamo-nos perplexos, atónitos, e incrédulos, quando ela nos chega num devastador repente, a coberto da escuridão da madrugada. Perto das 04h00, sem luz, e depois de trancada a porta que, num 2º andar, batia como se alguém me quisesse visitar com urgência, mergulhei debaixo do édredon e decidi que aquele ronco desumano e o estardalhaço provocado pelo sei lá o quê que voava e batia furiosamente contra as paredes, havia de passar; que não fazia mal, que era só vento.

Para que fosse verdade, pensei no telefonema a fazer para o teatro, combinei comigo mesma ir no dia seguinte gastar mais um pouco do cartão-presente que recebi pelo Natal, e resolvi ir fazer a revisão do carro na sexta-feira, adequando mentalmente a minha vida a esse facto; depois, matutei nas aulas que daria até ao final da semana; depois, veio-me à lembrança O Monte dos Vendavais, passei pela canção da Kate Bush e, sei lá porquê, imaginei-me numa cavalgada pelas arribas irlandesas de A Filha de Ryan; depois, experimentei de novo o interruptor e levei o telemóvel para dentro do meu casulo, onde se fez alguma luz, saída de um solitário que ficara a meio, até que um estrondo maior me fez perder a valentia e, supondo que alguma coisa poderia não resistir e cair-me em cima, virei-me para o outro lado e resolvi conversar com o meu pai sobre toda aquela situação.

Ele deve ter-me dito que tivesse calma, mencionando a estrutura sólida do prédio, e a minha mãe, que certamente estava ao seu lado, fez com toda a certeza aquele sorriso de “minha filha, espera um bocadinho que vais ver que se resolve”. Esperei o tal bocadinho enquanto pensava que, na verdade, aquilo não podia durar para sempre, porque nada dura para sempre, tudo é mudança, disse Heráclito, e disse-mo o sorriso da minha mãe e a calma do meu pai.

Pensei que ele saberia, de certeza, de que lado do prédio eu poderia ver a Lua, se a quisesse agora ir olhar, mas não queria; queria era dormir para que tudo aquilo acabasse, para não continuar a sentir aquele medo disfarçado de não ser preciso ter medo algum. E enquanto eu teimava em querer ter sono, o ronco foi aos poucos perdendo voz; eram 05h30, tinha passado uma hora e meia.

Meia hora depois, talvez, adormeci. Quando, três horas depois, abri as janelas para o Castelo, vi os prenúncios do que tinha sido a grande destruição. O ar estava ameno e o dia claro, mas as árvores do Jardim e do Parque estavam caídas, os contentores no meio da rua, e um cão grande atravessava-a, para lá e para cá.

Do outro lado do rio, cheio, barrento, e apressado, uma estranha lentidão conduzia as pessoas para o que parecia não ser um destino, antes uma contemplação, e a quase ausência de carros lembrava um domingo. Tudo é mudança, disse Heráclito, nada permanece igual; tudo está em fluxo contínuo, transformando-se. Daí a importância de aceitarmos a impermanência.

Leiria mudou, nós mudamos com ela, mas continuaremos a ser nós, e ela também. Teremos é uma memória de mudança, que não veio devagar, como as rugas.

Tópicos: árvoresClara Leãodestruiçãojornal de leiriaLeiriamau tempomedomudançaopiniãotempestade
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