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Home Opinião

A tirania das excepções

Por ocasião do Dia Internacional da Mulher, partilhei um artigo da revista Visão que analisava o fosso salarial entre mulheres e homens.

Fernando Ribeiro, músico Fernando Ribeiro, músico
14 de Março de 2018
em Opinião
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Fernando Ribeiro, músico
Fernando Ribeiro, músico14 de Março de 2018

Segundo esta peça, Portugal liderou, o ano passado, o aumento dessa diferença, colocando-se um por cento acima de média Europeia. Nessa partilha, convidava todos a lerem esse artigo, como alternativa aos comentários condescendentes de rosas e beijinhos de homens a escreverem sobre o que as mulheres “querem", com eles sempre como protagonistas principais.

Recebi dois comentários, entre tantos, que me fizeram reflectir em como se discute e como se adapta argumentos de experiência pessoal, fake news e fontes adulteradas e editáveis por qualquer um (Youtube, Wikipedia),como se converte esse perigoso cocktail numa teimosia que suspende o cérebro e o bom-senso.

Um deles veio dos Estados Unidos para me chamar, simplesmente, "chauvinista", por ter falado no assunto, sem mais explicações. Quando tentei debater, fui bloqueado. Queria dizer que odeio, em absoluto, a condescendência perante as mulheres e que tento, com a melhor das intenções, afastar-me do paradigma masculino quando escrevo sobre elas.

Tenho de melhorar, acredito, temos todos, mas foi pena ter ficado por aí a conversa, especialmente com um habitante de um País onde essa clivagem entre homens e mulheres é tão acentuada e tão debatida, a começar por Hollywood acabando na Casa Branca.

Outra resposta, bem mais educada, veio da Alemanha, de um enfermeiro que trabalha rodeado de mulheres e cuja empresa pratica uma politica justa de remuneração e rotatividade de cargos e responsabilidades.

Saudei e assinalei essa situação, mas disse-lhe que, infelizmente, não se traduz para a realidade. Ainda discuti isto com amigos, que debateram a amostra do estudo da Visão, se era uma média nacional, se incluía cargos que já eram, per se, mais bem pagos do que outros, enfim, se a senhora das limpezas (nunca um senhor das limpezas…) estava no alcance do estudo à semelhança do executivo.

Tudo discutido por homens, como sempre. No final, perguntei-lhes, “ok, vamos analisar tudo isso num instante e fazer a pergunta outra vez. São as mulheres tão bem pagas quanto os homens, quando exercem o mesmo cargo, mesma responsabilidade, mesma produtividade?”

Eles, empiricamente, sabiam que não. Perguntei “e qual é o factor que faz com que essa decisão seja tomada?”. Correcto: o sexo, o género. Mesmo que existam excepções e que, pelo menos, se faça o debate possível, é errado utilizar a nossa experiencia pessoal, as excepções que conhecemos como argumento.

Uma excepção nada mais é que uma confirmação de uma regra que é exactamente o seu oposto. Não vejo como possa ser material de projecção de uma realidade diferente ou de anulação de um problema ou do seu debate.

Em conversas de homens, muitas vezes somos apanhados a dizer mas o melhor chef é homem, o melhor estilista é homem, os grandes autores, filósofos, politicos, são todos homens.

Enfim, lá está a regra e a tirania da excepção. Penso que vai sendo tempo de perceber que essa visão do Mundo (os melhores chefs, os melhores tudo) é uma estrutura pensada e gerida por homens, numa lógica de auto-meritocracia, que fechou o espaço ao destaque do género feminino.

Quem tira essas conclusões tem um pénis um cérebro, um corpo que funciona de maneira diferente, com o profundo desrespeito pelo que as mulheres sofrem em todas as situações onde o seu mérito e destaque é engolido por chefes de famílias e administradores.

É como uma votação viciada, um jogo onde  os homens têm muito mais cartas, e que não acaba enquanto nós não ganharmos. Infelizmente, mulher alguma me respondeu à partilha. Mas entendo porquê. É este paradigma másculo, de não haver espaço para elas, senão em momentos e situações convenientes (Dia da Mulher), para o qual não lhes apetece falar.

Para quê? Como homem, tenho um pouco de vergonha alheia quando me dizem que há justiça, que as mulheres estão muito melhor do que, aqui há uns anos. Que há mais espaço, mas que não se estiquem porque o mundo é homem.

Foram também os homens que fizeram as guerras, o capitalismo selvagem, as clivagens sexuais e de classe nas sociedades, as grandes falcatruas, os grandes abusos do mundo.

Nesta equação destrutiva, é tempo de pensar se as mulheres teriam feito diferente, se farão diferente, e do que estamos à espera para mudar.

Se a solução para um mundo melhor está mesmo aqui, na nossa casa, ao nosso lado no escritório, no Parlamento, no autocarro, nas aulas da universidade.

*músico e lider dos Moonspell

Tópicos: a tirania das excepçõesdia internacional da mulherFernando Ribeiroopinião
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