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Alunos do IPLeiria com dificuldade em conseguir alojamento

Elisabete Cruz Elisabete Cruz
28/06/18 12:06
em Sociedade
Alunos do IPLeiria com dificuldade em conseguir alojamento
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O problema não é ainda tão grave como em Lisboa e no Porto, onde o boom turístico alterou por completo o mercado imobiliário, com o valor das rendas a subirem substancialmente e a oferta a não ser suficiente para a procura, sendo cada vez mais difícil para os estudantes conseguirem alojamento nos centros dessas cidades.

No entanto, também em Leiria, os estudantes sentem cada vez mais dificuldade em conseguir alojamento, principalmente nas zonas mais centrais da cidade, onde o mercado de arrendamento está praticamente lotado e os preços começam a subir.

Se Leiria poderia beneficiar das dificuldades que os estudantes encontram em Lisboa e no Porto, atraindo alguns deles, essa possibilidade parece não estar a ser devidamente aproveitada pela pressão do mercado de arrendamento que se sente em Leiria, para a qual têm contribuído os mais de mil alunos estrangeiros a estudar no Instituto Politécnico de Leiria (IPLeiria).

O JORNAL DE LEIRIA foi tentar perceber como funciona o mercado de alojamento para estudantes e concluiu que a maioria dos senhorios não passa recibo, prefere raparigas e o valor médio por quarto ronda os 130 euros, sem despesas incluídas.

Imobiliárias e grupos nas redes sociais são os locais de pesquisa preferencial dos jovens. “Fazem falta apartamentos mais baratos e de arrendamento. Os estudantes têm um impacto grande no arrendamento. A vinda de estudantes estrangeiros também é bom para a economia, mas é importante haver alguma estratégia”, até porque “estão a atirar as famílias para fora da cidade e a encarecer o arrendamento”, o que faz com que “não haja muita oferta para as famílias que procuram casa”, diz Nuno Serrano, sócio-gerente da Predial Leiriense.

Tendo em conta a necessidade em arrendar, “há pais que acabam por pagar valores superiores, o que inflaciona os preços praticados”, constata.

Joel Rodrigues, presidente da Associação de Estudantes (AE) da Escola Superior de Tecnologia e Gestão (ESTG), garante que no início deste ano lectivo a oferta já “não era suficiente para a procura”, o que, é reflexo “do novo estatuto do estudante internacional”, que levou o IPleiria a “receber vários estudantes de fora”.

Senhorios preferem raparigas
“O IPleiria tem cerca de 1100 estudantes internacionais, o que causa uma pressão tremenda no alojamento local. A mobilidade dos actuais cursos Técnicos Superiores Profissionais (TeSP) permite-nos ir buscar alunos do Minho ao Algarve e a oferta de alojamento não é suficiente para tantos estudantes”, considera Joel Rodrigues.

Por isso, o presidente da AE,  [LER_MAIS] que alertou os candidatos à presidência do IPLeiria para este estrangulamento, defende que o “Estado comece a disponibilizar uma verba às instituições superiores para que estas possam fazer alojamento”.

Raul Veloso, 23 anos, está a terminar a licenciatura em Terapia da Fala, na Escola Superior de Saúde de Leiria (ESSLei). “Assim que saíram os resultados viajei de imediato para Leiria para encontrar casa, mas no início não foi fácil.

Apesar de haver uma estrutura na escola a dar apoio, a maioria dos quartos eram só para meninas. Visitei vários locais e os senhorios só queriam raparigas”, recorda o jovem de Bragança. A mãe convenceu o senhorio a arrendar um quarto na Avenida Nossa Senhora de Fátima por 200 euros, com tudo incluído.

“Sei que depois de mim, o senhorio já só quer rapazes, porque há uma ideia errada sobre as raparigas.” Mais tarde, mudou-se para junto da Av. Marquês de Pombal, onde viviam colegas.

“Pago 140 euros sem despesas, mas com casa-de-banho privativa.” Para esta opção pesou o facto do apartamento estar mais perto do centro. “Na altura das matrículas a minha mãe ajudou-me muito e foi essencial haver estudantes ‘trajados’ a ajudar os ‘caloiros’. Eles informam-nos logo dos melhores locais e onde podemos encontrar publicidade sobre o arrendamento”, revela, afirmando que em nenhum dos casos foi passado recibo.

O jovem divide as despesas da internet, água, luz e gás com os restantes inquilinos do apartamento. Segundo Raul Veloso, cada vez é mais difícil “arranjar casa”. As rendas “estão a ficar muito altas e, em alguns casos, são exorbitantes”.

Também a terminar a licenciatura em Dietética e Nutrição, Fernanda Pais, 21 anos, já passou por duas casas. “A primeira era muito longe. Ficava na Guimarota e pagava 130 euros, sem despesas.” Agora está na Av. Marquês de Pombal, mas com casa-de-banho privativa.

Paga 150 euros, sem despesas, que são divididas por todos os colegas do apartamento.

Natural do Algarve, a jovem afirma que a melhor época para encontrar casa é antes das aulas começarem, quando há estudantes a sair. Também realça a importância dos grupos nas redes sociais com sugestões de alojamento.

“Esta é uma zona espectacular. Temos tudo perto e podermos ir a pé. No meu caso, é um pouco mais longe da escola.”

Residências limitadas Natural de Ponte de Sor, Pedro Biscaia, 29 anos, ‘caloiro’ da licenciatura em Tradução e Interpretação Português/ Chinês – Chinês/Português, candidatou-se primeiro às residências do IPLeiria, mas foi de imediato recusado, “porque havia muitos estrangeiros”. A procura por quarto dividiu- se entre os grupos de facebook e em supermercados.

“A três dias das aulas começarem encontrei um quarto perto da Escola Superior de Educação e Ciências Sociais, por 150/160 euros. A minha comparação de preços era com Castelo Branco, onde estudei há dez anos e pagava 120 euros.”

No dia em que viajou para Leiria encontrou no facebook um quarto a 130 euros, sem despesas incluídas, mas com internet, na Av. Nossa Senhora de Fátima. “O quarto é muito pequenino mas dá perfeitamente. Divido a casa com outros quatro rapazes. A pé são uns 20 minutos, mas no Inverno passei a levar carro.”

Também Pedro Biscaia sentiu a discriminação por ser do sexo masculino. “Alguns anúncios especificam que querem raparigas, outros recusam quando lhes ligamos e percebem que somos rapazes”, constata, adiantando que os proprietários percebem depois que as raparigas não são mais sossegadas e organizadas do que os rapazes. O curso prevê que os 2.º e 3.º anos sejam leccionados em Pequim. No 4.º ano, terá novamente de procurar casa.

“Este ano apercebi-me que vêm muitos estrangeiros, o arrendamento das casas tornou-se mais difícil e os preços aumentaram. Já andam à volta dos 180 e 200 euros.” Na mesma turma, Margarida Alexandre, 20 anos, trocou Seia pelas residências de Leiria. Foi aceite por “motivos económicos”.

Apesar de dividir o quarto com outra pessoa e a privacidade ficar comprometida, salienta que as “residências têm muito boas condições” e têm a vantagem de ter “amigos e pessoas à volta”.

O custo do alojamento é de 73 euros, que está incluído na bolsa de estudo. “As casas-de-banho do edifício são partilhadas. Temia que houvesse filas enormes, sobretudo, para o banho, mas fiquei surpreendida por estarem quase sempre vazias.” Quando regressar de Pequim, terá de se recandidatar de novo às residências. “Julgo que terei prioridade, por já ter cá estado.”

Apesar de residir a pouco mais de 25 quilómetros da ESTG, Inês Santos, 18 anos, optou por viver em Leiria. Estudante do 1.º ano de Engenharia da Energia e do Ambiente, a jovem de Aljubarrota, Alcobaça, procurou soluções de quartos quando concretizou a matrícula. “Não estava a ser fácil, mas, por sorte, um amigo do meu pai tinha uma casa para arrendar. Trata-se de um apartamento na Av. Nossa Senhora de Fátima. Somos quatro raparigas e um rapaz e vai entrar mais uma pessoa.”

São 130 euros mensais, com despesas à parte, mas com internet incluída. “Ao princípio o meu pai não queria que ficasse cá, mas entrava às 8 horas e ir e vir era muito cansativo.” Além disso, desta forma pode aproveitar melhor o “espírito académico” e participar nas praxes. “Só tem o problema de ficar um pouquinho longe da escola, mas tem uma paragem de autocarro à porta, o que ajuda.”

Um grupo de estudantes da licenciatura de Electrotécnica e de Computadores concorda que cada vez é mais difícil encontrar quartos para arrendar. “Os preços andam entre os 130 euros sem despesas e os 150 euros, com tudo incluído”, revelam, ao afirmarem que se for com recibo os valores sobem.

“Temos notado que está a haver muita procura, sobretudo, com a vinda dos estudantes estrangeiros, o que também fez subir os preços. No centro está tudo ocupado. Na Av. Marquês de Pombal e no bairro dos Capuchos já é difícil encontrar alguma coisa”, constatam, acrescentando que muitos deles já se viraram para a Cruz da Areia, Parceiros, Guimarota e até Azoia. Este grupo de rapazes lamenta ainda que os senhorios prefiram as raparigas, “porque acham que são mais certinhas, o que nem sempre é verdade”.

Esta atitude “torna ainda mais difícil o arrendamento para os rapazes”. De acordo com estes estudantes, a dificuldade em arrendar “começa a ser tanta que já há alunos a viver em condições miseráveis”.

“Há T0 a 200 euros. Leiria precisa de muito mais habitação porque o arrendamento está a ficar muito limitado.” Com as férias os alunos abandonam as casas para regressarem às origens, mas é preciso pagar para garantir a alojamento no início do ano lectivo. Inês Santos afirma que paga o mês de Julho, nas não Agosto. O mesmo sucede com Raul Veloso, “desde que tenha o apartamento completo” com arrendamento.

Já Fábio Casaleiro, aluno da ESAD.CR, tem um acordo com a senhoria, que arrenda o apartamento no Verão a preços mais elevados. “A caução serve como garantia de que voltamos em Setembro.”

 

Caldas da Rainha
Distinção de curso para arrendar

Em Caldas da Rainha, o cenário não é muito diferente. Fábio Casaleiro, 19 anos, estudante da Escola Superior de Arte e Design, está na segunda habitação. Natural da Marinha Grande, optou por ficar em Caldas da Rainha para evitar deslocações diárias e para aproveitar melhor a vida académica. No início do ano lectivo, arrendou um quarto numa moradia no Avenal. “Apesar de ser uma zona perto da escola fica longe do resto da cidade e não ajudava muito, sobretudo, quando tinha de fazer trabalhos com colegas. Mesmo em termos de segurança não me parece ser a melhor. Em seis meses nunca vi um único polícia, o que acontece noutros locais, como onde estou agora.” Assim que teve oportunidade mudou-se para o centro da cidade. “Os preços variam muito de zona para zona e é preciso muita pesquisa. No Avenal pagava 140 euros sem despesas. Agora pago 100 euros sem despesas. No final do ano é relativamente fácil encontrar apartamento. A partir de Setembro é quase impossível.” Fábio Casaleiro acrescenta que não só há distinção entre rapazes e raparigas, como rejeitam alunos de certas licenciaturas.

 

130
euros é a média mensal do custo de um quarto para estudantes na região, sem despesas incluídas, mas os preços já começam a chegar aos 200 euros em algumas zonas

6600
mais de 6600 estudantes estão inscritos em licenciaturas e mestrados nas três escolas de ensino superior de Leiria. Um número que contribui para o estrangulamento do arrendamento na cidade

Tópicos: alojamentoestudantespolitécnico de Leiria

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