A proximidade está a desaparecer das nossas vidas em vários contextos e na morte também?
Há um distanciamento geral das pessoas e dos profissionais de saúde. Eu falo da experiência: sou enfermeira, mas aprendi a ser pessoa enquanto profissional de saúde. Para nós, profissionais de saúde ou mesmo familiares e afins, estarmos com pessoas com doença crónica e irreversível, na sua vulnerabilidade, e que podem morrer, seja devido à doença ou mesmo ao envelhecimento, é preciso termos estas questões bem trabalhadas, porque há uma fusão daquilo que são os nossos medos, as nossas dores, no outro. Há uma fusão e há um espelhar daquilo que é nosso. Que não tem de ser e na maior parte das vezes não é necessariamente do outro. Temos muito a tendência a fazer isso nas nossas relações. Supomos que sabemos cuidar, que sabemos amar, sem questionar quais são as necessidades do outro e efectivamente aquilo que o outro precisa.
A maioria dos óbitos hoje ocorre em circunstâncias diferentes do passado.
É preciso contextualizar na história o que nos levou até aqui, sem apontar o dedo, sem atribuir culpas. Neste momento, acredito eu, estamos numa fase de encontrar um equilíbrio. Se olharmos para o nosso passado não assim tão distante, as pessoas morriam mais em casa. O hospital devia ser um sítio de recuperação de uma situação aguda. A maior parte das vezes não é isso que se passa e as pessoas acabam depois por andar de instituição em instituição. Por várias razões. Antes, as pessoas estavam mais em casa. Havia uma pessoa, maioritariamente mulher, que estava em casa e que assumia o papel de cuidadora, mas também havia muito descontrolo de sintomas, porque a ciência ainda não conseguia ajudar. A ciência evoluiu e não é normal, hoje, alguém estar com sintomas descontrolados. Não é necessário, de todo. Portanto, antes as pessoas podiam morrer em casa, mas podiam morrer com menos alívio de sintomas. Hoje, é um bocadinho o contrário. As pessoas estão mais no hospital. Às vezes estão em casa, mas os familiares, no momento em que começa a aproximar-se o fim de vida, têm medo. E há o movimento de ir para o hospital.
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