Na recente conferência que deu em Leiria disse que “os profissionais de saúde que se apropriam dos cuidados paliativos jamais experimentam o fracasso”. O que quis dizer?
Quando decidimos ser um profissional de saúde, temos a pretensão de vencer a morte. Ou seja, de trabalhar a favor da vida. Na nossa formação como médicos somos ensinados a direccionar todos os esforços para curar uma doença. Pelo que, quando a doença a não tem cura, sentimos o fracasso. Será que usei todas as medicações possíveis? Será que escolhi o tratamento correcto? Cuidei o paciente de forma errada? O paciente está a morrer e eu em sofrimento por ter fracassado na luta contra a morte. Em cuidados paliativos nunca se tem percepção de fracasso. Consegue-se cuidar do sofrimento da pessoa em todos os momentos da doença. A fantasia de que somos os únicos responsáveis pela felicidade do paciente sai de cima dos nossos ombros. Libertamo-nos dessa cruz, porque somos parte dos instrumentos que o paciente tem ao seu dispor para viabilizar a sua felicidade. Por outro lado, quando você sabe de cuidados paliativos, consegue olhar também para o sofrimento da família e ajudar a que passe de um estado de sofrimento a instrumento de cuidado. Em cuidados paliativos, aprende- se a ouvir as perguntas difíceis de pacientes e famílias. Habitualmente, quando o doente pergunta se vai morrer, o médico pede para pensar positivo, diz que a medicina avançou muito e que pensar na morte vai atrapalhar o tratamento.
O que deve, então, responder?
Pode conduzir a conversa pelos medos do paciente. Isso permite ao doente ir a um lugar dentro de si onde nunca entrou e no qual não entraria sozinho. Para falar do sofrimento da morte, o doente não pode estar sozinho nesse quarto escuro. É preciso ajudá-lo a perceber os seus medos e que sabemos como o ajudar. Se conseguirmos isso, o doente passa a respeitar o tempo da morte e a olhar para mim, não como alguém que vai resolver o problema dele, mas que acredita que ele é capaz de passar por aquilo, atravessando a jornada que tem de fazer. Portanto, nunca me vou sentir fracassada.
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