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Anas, ou as Máquinas (Im)perfeitas

Este texto não é sobre as Anas, é sobre um profundo e crescente desrespeito pelas mulheres

Patrícia Martins, mediadora cultural e artística, escritora e investigadora Patrícia Martins, mediadora cultural e artística, escritora e investigadora
14 de Agosto de 2025
em Opinião
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Patrícia Martins, mediadora cultural e artística, escritora e investigadora
Patrícia Martins, mediadora cultural e artística, escritora e investigadora14 de Agosto de 2025

Humanos e máquinas : “Não existem máquinas perfeitamente humanas, mas existem humanos que são máquinas perfeitas “ E. Richardson via  Afonso Cruz

Vou contar-vos a história da Ana, que desde de que se lembra defende direitos iguais para homens e mulheres, e que mesmo que defenda, verbalize e lute diariamente por aquilo em que acredita, carrega um mundo feito de muitos mundos às costas. 

A Ana desde muito cedo que defendia que numa casa ou nos relacionamentos os adultos funcionais que nela habitam deveriam dividir direitos e deveres em partes iguais. 

Mas a Ana é mulher, e as mulheres têm sempre mais deveres do que os homens… dizem outras mulheres, mais do que outros homens.

Ora vejamos, em pleno século XXI, há mulheres que dizem à Ana, que se escolheu casar e ter filhos, tem de cuidar do marido e dos filhos. Toda a gente sabe que se a casa está desarrumada, o jardim descuidado, os filhos às vezes comem comida pronta de supermercado, ou passam demasiado tempo no telemóvel… a culpa é da Ana que não sabe cuidar, que é preguiçosa, e não sabe o que é trabalhar.

Se as roupas que a máquina lava, não estão imaculadas e bem passadas, é porque a Ana, nunca quis ser boa dona de casa. 

Se a Ana não visita a família é porque não se interessa. Se não acompanha os filhos a todo o lado, é porque não quer saber  e se não se mete nas conversas com toda a gente é porque tem o seu feitio…

Se a Ana está exausta e pede ajuda a um marido que grita…vêm outras mulheres dizer que é mesmo assim, que os homens são assim e que temos de ter paciência. 

Se a Ana grita com os filhos é porque tem de ter mais calma, que é má mãe e que os filhos vão ser rebeldes e traumatizados e patati e patatá… e de quem é a culpa? Da Ana. 

Se a Ana se arranja e se cuida, ou vai ao ginásio, ou ao cabeleireiro, é porque é uma estragada e devia guardar o dinheiro, mas dizem as mulheres que não são a Ana, que está uma desleixada se não se veste bem ou não está maquilhada. Se a Ana está cansada e lhe aparecem as rugas, está velha em comparação com o marido, que coitado merecia melhor.

Se se senta no sofá a ler um livro, ou a descansar… é uma preguiçosa, com uma casa tão grande por organizar. 

Se se deita cedo é porque é fraquinha, se acorda tarde, pensa que é uma rainha. 

No trabalho perguntam-lhe a idade, se tenciona ter filhos, ou amamentar até a que idade. Algumas criticam a Ana que não teve filhos, enquanto que outras lhe dizem: pois mas tu tens filhos e eu também tive, tens de aguentar.

Se a Ana não dorme de noite porque os filhos passaram a noite em claro, por maleita ou pela tenra idade, o marido da Ana dorme porque no outro dia tem de trabalhar, a Ana resolve, porque a Ana é forte, e no dia seguinte é a primeira a levantar, a despachar o dia para também …imagine-se….trabalhar…Estás bem Ana? , gostaria a Ana de ouvir perguntar. 

Todos se preocupam com tudo, com a casa da Ana, com o carro sujo da Ana, com as reuniões a que a Ana faltou, com os erros que a Ana fez, com a educação que a Ana não deu, ou com os deveres conjugais, que a Ana não cumpriu.

Toda a gente exige que a Ana seja perfeita, que não falhe em nada, que não falte ao trabalho ou saia mais cedo para amamentar, ou para ir buscar os filhos à escola, a Ana que não pode gritar exausta porque não aguenta mais, ou que não quer ver ninguém porque está cansada. Está deprimida coitada. Ninguém se preocupa que a Ana tenha sonhado uma vida feliz, realizada, amada e respeitada e uma carreira de sucesso.

A Ana que queria separar-se mas não pode porque não tem condições económicas, que o permitam e que aguenta todos os dias pelos filhos, que dizem não saber cuidar…e que ainda finge, talvez amamentar…

Este texto não é sobre as Anas, é sobre um profundo e crescente desrespeito pelas mulheres, que em vez de regredir parece estar cada vez mais vivo neste século XXI. 

Quem sabe venham novos tempos que extingam as Ana e as transformem em máquinas perfeitas. Talvez ninguém vá notar…e talvez as Anas já não se ausentem para amamentar…  

Tópicos: ANAdireitosjornal de leiriaLeiriamulheresopiniãoPatrícia MartinsViolação
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