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As primeiras notícias e as outras

Se a empatia pelas mulheres não merece a atenção de alguns homens, talvez o dinheiro despendido os alerte para este drama que os devia envergonhar.

João Lázaro, psicólogo clínico e director do TE-ATO João Lázaro, psicólogo clínico e director do TE-ATO
15 de Julho de 2021
em Opinião
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João Lázaro, psicólogo clínico e director do TE-ATO
João Lázaro, psicólogo clínico e director do TE-ATO15 de Julho de 2021

Por vezes as primeiras notícias, por tão escandalosas que são, distraem-nos de outras que a todos dizem respeito, mas que pelo furor das primeiras secundarizam as restantes.

A semana anterior foi profícua em discussões sobre um tal senhor Vieira e seus rapazes, remetendo para um plano distante a atenção que nos deveria suscitar outras vindas a lume e que dizem respeito à violência de género.

Uma das notícias, assinada por Ana Cristina Pereira (Público, 7 de julho), dava conta que segundo o estudo do Instituto Europeu da Igualdade de Género a violência de género – e os números são claros que na sua esmagadora maioria se reportam às mulheres – este tipo de agressão custa ao Estado português 8,4 mil milhões de euros por ano. Sim, leu bem, oito vírgula quatro mil milhões!

Este valor foi encontrado pela contabilização dos dias de trabalho perdido, recurso ao apoio médico, de enfermagem e especializado na área da saúde mental, medicamentos, dias de baixa, perdas de remuneração e outros benefícios, impostos que o Estado não arrecada, ao que acrescem os serviços polícias, tribunais, estruturas de atendimento e suporte às vítimas, etc.

Maria Castanheira (Público, 8 de julho) fala-nos dos cinquenta e quatro mil internautas que, em 2020, foram invadidos na sua privacidade pela prática do stalkware e que, segundo estudo publicado este ano pelo Parlamento Europeu e apresentado pela eurodeputada Alessandra Moretti, membro da Comissão dos Direitos das Mulheres e da Igualdade dos Géneros do Parlamento Europeu, tem custos financeiros na ordem dos milhares de milhões de euros.

As ferramentas digitais do stalkware permitem a monitorização das atividades de outros indivíduos. Instalados abusivamente nos seus aparelhos permitem aos agressores acesso a informações como pesquisas na internet, acesso ao conteúdo dos emails, mensagens, fotografias e localização geográfica dos perseguidos.

Conforme as palavras da diretora executiva da European Network for the Work with Perpetrators of Domestic Violence, Alessandra Pauncz: “Práticas como esta são uma ameaça crescente nos dias de hoje e afetam sobretudo o género feminino”.

Note-se que quem estuda estes problemas, os denuncia e é seu porta-voz são – pelo menos a julgar pelos exemplos dados – sempre mulheres. Creio que é natural que assim seja porquanto são as primeiras e esmagadoramente em maior número vítimas deste perpétuo atentado contra a condição humana.

Lamenta-se que assim tenha que ser, que os homens que com elas partilham a vida se mostrem indiferentes a todo este drama. Presume-se que muitos deles se sintam mais motivados a dissertar e a envolver-se nas tais primeiras notícias.

É o seu mundo e seu feudo cheio de privilégios, fazendo-os sentir viris e superiores. Mas há outro facto que merece atenção nas notícias de que me suportei para redigir este texto: as avultadíssimas verbas mencionadas na ordem dos milhares de milhões de euros. Quiçá tanto dinheiro envolvido desperte atenções devidas de há muito.

Se a empatia pelas mulheres não merece a atenção de alguns homens, talvez o dinheiro despendido os alerte para este drama que os devia envergonhar.

Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990

Tópicos: João Lázaroopinião
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