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As quintas do militar que venceu o rei Gungunhana

A Quinta de Baixo abriu as portas e mostra o velho solar onde Mousinho de Albuquerque, o militar que venceu Gungunhana há exactamente 120 anos, costumava passar temporadas. A iniciativa é dos Viveiros da Quinta da Gândara que celebram 30 anos.

Jacinto Silva Duro Jacinto Silva Duro
3 de Novembro de 2016
em Viver
As quintas do militar que venceu o rei Gungunhana
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Este imóvel e a casa de Mousinho, na Batalha, estão em ruínas. Na Quinta de Baixo desde 1986, os Viveiros da Quinta da Gândara estão a celebrar o 30.º aniversário com visitas ao velho solar da Gândara dos Olivais, a dois passos do centro de Leiria, onde o herói de África, Mousinho de Albuquerque, passava temporadas, aquando das visitas à prima Maria Luísa Mascarenhas Pereira da Silva e Bourbon, vindo de Lisboa ou da sua Quinta da Várzea, situada a dois passos do mosteiro, no concelho da Batalha.

Em 1896, quando, em Moçambique, venceu o chefe vátua Gungunhana, tornando-se herói nacional, a Quinta da Gândara era o lar da sua mãe e restante família. No solar, havia mesmo uma pintura a óleo de Mousinho e um quarto onde pernoitava com a mulher. Era o segundo do lado norte.

Quando Armando "Duque", o irmão, o pai e um sócio deram início aos Viveiros da Quinta da Gândara, o solar era ainda encimado por um telhado e era possível visitar o seu interior. De acordo com os registos mais antigos conhecidos, a origem da quinta remonta ao século XVII.

Actualmente, a área arrendada estende-se por cerca de 37,5 hectares – sensivelmente o mesmo número de campos de futebol -, entre a linha de caminho de ferro do Oeste e as margens do rio Lis. Os viveiros são uma empresa de Leiria dedicada à produção e comercialização de plantas, desde as plantas de interior e exterior, árvores de fruto, tropicais e florestais, sementes e bolbos.

Além da importação e exportação a firma dedica-se também à produção de parte das plantas ali vendidas. Como a antiga casa não estava abrangido pelo contrato de arrendamento, de ano para ano, foi ficando cada vez mais degradada, ao ponto de, hoje, sobrarem pouco mais do que paredes em ruína, rasgadas pela bela cantaria em calcário das janelas.

São olhos a quem foi roubada a luz, porém ostentam, aqui e ali, a memória das velhas portadas de madeira pintadas de verde. Os muros foram conquistados pelas trepadeiras e silvas. Paulatinamente, a natureza reapoderou-se do que sempre foi seu e os pássaros usam os buracos nas paredes como abrigo, decorando-as com os seus trinados.

Entrados os portões enferrujados adentro, sobra pouco mais do que as decrépitas ossadas de algo que já foi motivo de orgulho e de invejas.

Quinta da Várzea em ruína
O cenário é semelhante Quinta da Várzea, onde Joaquim Augusto Mousinho de Albuquerque nasceu. A grande casa, com origem no século XVII, situada junto à ribeira da Maceira, está em completa ruína e a pequena capela, que até havia sido recuperada, pelos escuteiros da região de Leiria, em 1999, durnate um grande acampamento realizado no local, foi arrombada e todo o interior furtado, incluindo a azulejaria.

As imponentes e trabalhadas colunas de pedra que suportavam o telhado do grande alpendre típico das casas da Estremadura, onde Mousinho fumava, sentado numa velha cadeira de verga, meditativos cachimbos desapareceram. Quem as levou colocou barrotes podres e frágeis no seu lugar e rapidamente a estrutura desabou.

Silencioso, rodeado de esguias faias, o solar vai sendo asfixiado pelas silvas. O processo de classificação deste imóvel, que chegou a ser uma extensão da Cerca do Mosteiro da Batalha e que é, actualmente, propriedade do Seminário Diocesano de Leiria, arrasta-se há 30 anos, mas tudo indica que jamais será concluído.

Em 2002, a Direcção-Geral da Cultura do Centro propôs o arquivamento do pedido, por o espaço se encontrar em ruínas. Recentemente, o reitor do Seminário, José Augusto Rodrigues, confidenciou ao JORNAL DE LEIRIA que se chegou a equacionar a transformação do local “em centro de retiros espirituais” mas que a ideia foi abandonada “por falta de viabilidade económica”. Actualmente, não há planos para a quinta.

Também na Gândara, há muito que o sino, pendurado no alto do campanário fronteiro à cozinha, se calou. No Inverno passado, desabou e só por milagre não atingiu Armando “Duque”. Não dá mais ordens aos trabalhadores nos campos.

Também não avisa das visitas do homem que, de acordo com a propaganda usada tanto pelos últimos anos da monarquia constitucional, como pela desvairada I República e pelo Estado Novo, foi herói africano e algoz de Gungunhana, em Chaimite, Moçambique.

A filha de Armando, Sara Simões, ajuda os grupos de visitantes a orientarem-se durante a visita, distribuindo panfletos com a história do local.

A tia, Francelina Faria, professora de História, dedicou mesmo uma tese ao espaço. Quando a memória e o conhecimento falha, o pai “Duque”, dá uma ajuda. "O dono da quinta é o poeta e escritor António Mesquita Brehm, que usa o pseudónimo Vitório Káli, e é da família de Mousinho de Albuquerque. A mãe dele inseriu uma cláusula no seu testamento deixando-lhe a quinta, mas reservando o usufruto aos netos. O que criou alguns problemas na gestão da propriedade", explica.

A Quinta da Gândara, que esteve na posse de descendentes dos Ataídes, é uma referência na história de Leiria e Francelina Faria, no trabalho de investigação A Quinta de Baixo, publicado pelo III colóquio sobre a história de Leiria e da sua região, em 1999, refere que foi muito maior, mas os “terrenos teriam sido, entretanto, vendidos pela Sr.ª Luísa Bourboun a um ‘tal de Pragosa’, das Brancas, da Batalha, que, para o efeito, recorreu a um empréstimo à Caixa Geral de Depósitos”.

Mais tarde, não conseguiu saldar as suas prestações, tendo sido vendida a Quinta da Gândara ao “Sr. Eduardo Lopes e ao Sr. Clemente da Baquelite”.

Lenda da Quinta de Baixo
"Estamos a aproveitar os 30 anos para divulgar o negócio e permitimos que as pessoas vejam esta quinta história onde Mousinho teve parte da sua vida", explica Sara. Já houve algumas visitas de pessoas que desconheciam a ligação de Mousinho à região. A Revolução de 25 de Abril ajudou à ruína do solar.

Aquando da revolução, o imóvel foi arrombado e algumas pessoas “libertaram” o mobiliário, quadros, lustres, azulejos das mãos do patronato para as suas próprias mãos. "E ainda lhe pegaram fogo. Mesmo com as paredes degradadas era um espaço fantástico", recorda “Duque”.

Depois foi local de encontros amorosos e consumo de droga. Só depois de muita insistência do rendeiro, se conseguiu afastar as visitas indesejadas. O grande pátio da casa ostenta, num dos topos, uma grande escadaria. Nas traseiras, há uma capela que esteve forrada a azulejos azuis e brancos. "Aquilo era lindo", recorda o responsável pelos viveiros.

Lembra ainda uma história de um tesouro escondido na quinta. "Fala-se de uma donzela, no tempo das invasões napoleónicas, que terá ordenado a um criado negro que fosse esconder um tesouro de jóias. Ele, depois de o ter guardado, foi baleado e conseguiu chegar até perto dela, mas só conseguiu dizer 'debaixo da pedra' antes de tombar morto. Não se sabe qual a pedra e o tesouro nunca apareceu."

As invasões francesas levaram um inglês à Quinta de Baixo, William Young, que casou com uma das suas fidalgas, em 1814. Mais tarde fundou o primeiro teatro de Leiria. Aquela que é, porventura, a mais marcante das administradoras femininas da quinta foi Maria Luísa Mascarenhas Pereira da Silva e Bourbon, a prima de Mousinho.

Ainda hoje, vive na memória e folclore de alguns habitantes da Gândara, que a recordam por transmissão oral, como a senhora que comandava todos os trabalhos e empregados da quinta. Nos tempos áureos, a quinta produzia arroz, mas quando o rio foi modificado no Marachão, o caudal diminuiu e começou a produzir-se milho. Também havia gado.

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Tópicos: Batalhagândaramousinho de albuquerquequinta de baixo
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