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Home Opinião

Boas férias com Montaigne

«Tu és tanto mais Deus/Quanto te sabes homem»

Helena Rafael, assessora de imprensa Helena Rafael, assessora de imprensa
25 de Julho de 2024
em Opinião
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Helena Rafael, assessora de imprensa
Helena Rafael, assessora de imprensa25 de Julho de 2024

Esta podia ser uma crónica sobre livros pequenos. Seria longa a lista dos que são exemplos perfeitos de obras irrepreensíveis encabeçada por esse texto extraordinário intitulado A Morte de Ivan Ilitch de Liev Tolstói. Trata-se, contudo, de uma crónica sobre um livro que sendo pequeno, se debruça sobre aquela que é considerada uma das obras fundamentais do pensamento e cultura universais – Ensaios de Michel Montaigne (1533-1592), esse texto monumental que procura responder ao propósito do autor de «registar alguns traços do meu carácter e dos meus humores», descrevendo afinal cada um de nós, pois cada «homem contém em si a forma inteira da condição humana».

Escrito e organizado por Antoine Compagnon, Professor Catedrático de Literatura Francesa Moderna e Contemporânea no Collège de France e um prolífico autor, Um Verão com Montaigne (Gradiva), teve na sua génese um programa radiofónico da estação France Inter em que o autor comunicava em curtas transmissões diárias o essencial do pensamento de Montaigne.

Essa aventura radiofónica serviria mais tarde de inspiração para este pequeno ensaio que endereça ao leitor um convite para descobrir um Montaigne exuberante e vigoroso mostrando simultaneamente a profundidade histórica e a intemporalidade dos seus textos. Aliando o rigor do investigador à clareza do professor, Compagnon percorre em quarenta capítulos os principais temas dos Ensaios de Montaigne.

Consciente da dificuldade de segmentar e resumir uma obra tão ampla e complexa, o autor opta por fazer uma selecção pessoal, mas fiel às principais interrogações do filósofo acerca de temas como a educação, a leitura, a amizade, a guerra e a paz ou o compromisso. Abrindo cada um dos capítulos com uma análise de excertos da obra de Montaigne, Antoine Compagnon faz deste livro uma irresistível introdução ao pensamento de um dos mais importantes filósofos do Renascimento – que permanece um tesouro inesgotável de reflexões intemporais sobre o humor, o afecto, a impaciência, a ternura, ou o desdém e a fúria.

Reflectindo sobre o lugar da leitura no quadro dos três convívios mais interessantes que preencheram a sua vida, Montaigne escreveria: «Ela faz-me companhia em toda a caminhada, apoia-me em qualquer lugar. Consola-me na velhice e na solidão. […] e liberta-me quando quero das companhias desagradáveis. […] Não há como recorrer aos livros para me distrair de uma ideia incómoda, porque a iludem ao levar-me facilmente até eles; e jamais se revoltam quando percebem que apenas os pro-curo na falta dessas outras comodidades mais reais, vivas e naturais, recebendo-me sempre com a mesma disposição».

E comenta Compagnon: «Os livros são companhias sempre disponíveis. Velhice, solidão, ociosidade, tédio, dor, ansiedade: não existe mal comum nesta vida para o qual não possam fornecer remédio, desde que esses males não sejam demasiado agudos. Os livros moderam as inquietações, são um recurso e um auxílio. Apesar de tudo, podemos sentir uma ponta de ironia neste retrato vantajoso dos livros. Eles nunca protestam, não se revoltam quando são negligenciados. […] No limiar dos tempos modernos, Montaigne é daqueles que, ao louvarem a leitura, melhor anteciparam a cultura da escrita impressa. Na era em que talvez estejamos em vias de a deixar é bom lembrar que, durante vários séculos, foi nos livros que os homens e as mulheres do Ocidente se conheceram e se encontraram.»

Boas férias.

Tópicos: contoscríticafériasfilósofogradivaHelena RafaelLeirialeituralivroopiniãopensamentoregião de Leiriarenascimento
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