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Home Sociedade

Brasil debaixo de fogo

Eleições | Apoiantes de Bolsonaro e de Haddad, com ligações à região, esgrimem argumentos a favor dos seus candidatos. Violência e corrupção estão no centro das preocupações

Alexandra Barata Alexandra Barata
26 de Outubro de 2018
em Sociedade
Brasil debaixo de fogo
Douglas Nacamae
Fábio Alves
Fabrice Pereira
Margarida Alves
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A três dias da segunda volta das eleições no Brasil, as sondagens continuam a dar a vitória a Jair Bolsonaro, com 57% das intenções de voto, e a anunciar Fernando Haddad como o candidato derrotado.

As manifestações de apoio, e também de protesto, aos dois candidatos sucedem- se e as guerras de palavras intensificam- se nas redes sociais. Face à instabilidade do país, os pedidos de visto para morar em Portugal crescem de dia para dia.

O JORNAL DE LEIRIA ouviu dois portugueses que emigraram para o Brasil e dois brasileiros a residir na região, que espelham a divisão do eleitorado. Fábio Alves, 37 anos, defende o voto no candidato do Partido Social Liberal (PSL).

“Independentemente do género, raça, orientação sexual, classe social, religião, Bolsonaro defende que todos são iguais perante a lei”, afirma o cabeleireiro a morar em Leiria. Identifica-se, assim, com a promessa do candidato de acabar com as “políticas de quotas destinadas às minorias”, em favor do “mérito e da competência”.

Convicto de que Bolsonaro não é corrupto, o brasileiro destaca o facto de defender “a liberdade de expressão, a redução dos impostos, a diminuição do Estado e cortes de ministérios que geram muitas despesas”.

O cabeleireiro subscreve ainda o “combate às fraudes do Bolsa Família” e defende que se deve “dar apoios mais dignos a quem realmente carece destes, pois actualmente há proveitos ilícitos de alguns, prejudicando a distribuição de forma justa aos pobres”.

Violência preocupante
Ao nível da segurança, Fábio Alves defende uma intervenção “mais enérgica contra as facções criminosas”, que estão a crescer e a ganhar poder de influência. Dentista a residir em Caldas da Rainha há 27 anos, Douglas Nacamae, brasileiro de ascendência nipónica, diz que, se votasse no Brasil, escolheria Bolsonaro, por simbolizar a mudança.

“A violência preocupa toda a gente, mas o PT [Partido dos Trabalhadores] é contra o endurecimento das penas. Quem é que pode concordar com o PT, se o país precisa de uma mão firme?” Apesar de reconhecer que Jair Bolsonaro tem um discurso radical, o dentista, de 53 anos, defende que candidato do PSL não é nazi, nem fascista.

“É impensável que vá implantar todas aquelas medidas loucas, para agradar à população. Vai modificar algumas coisas, mas não muitas, porque não terá maioria no Congresso e vai ter de fazer alianças.”

A morar há 12 anos no Brasil, Margarida Alves, 46 anos, equaciona regressar a Portugal se Bolsonaro for eleito presidente, por não se identificar com o seu discurso de autoritarismo, militarismo, intolerância e exclusão das minorias.

“Com esta postura e mentalidade, como pode Bolsonaro governar um país multirracial e multiétnico como o Brasil, com 208 milhões de habitantes, a maioria mulheres, onde o casamento gay é legalizado?”, questiona a guia turística de Leiria.

Corrupção entranhada
“O Brasil está entre a proposta apocalíptica da extrema direita e o pânico da volta do PT, que conseguiu grandes resultados, mas cometeu muitos erros”, reconhece Margarida Alves. Apoiante de Haddad, diz que “a corrupção está profundamente entranhada no sistema político brasileiro, desde a época colonial” e admite que atingiu “níveis assustadores” durante o governo PT.

“A revolta causada pela sensação de impunidade generalizada abriu espaço para o crescimento da extrema direita. Muitos jovens estão a ser seduzidos pelo discurso de Bolsonaro, que defende a legalização das armas e o aumento da violência policial.”

A viver no Recife há dois meses, Fabrice Pereira, 36 anos, também se identifica com o candidato do PT. “Votaria em Fernando Haddad, porque ele tem ideias mais humanistas do que o outro candidato. Assim como ele, penso que a educação é a prioridade, tal como a saúde”, justifica o psicopedagogo e hipoterapeuta de Pombal.

Apreensivo com a situação do Brasil, Fabrice  [LER_MAIS] Pereira antevê “quatro anos difíceis, seja qual for o resultado” das eleições. “Durante a campanha, muitos eleitores mostraram a verdadeira personalidade, apelando à violência, à intolerância e ao racismo, embora de forma controversa coloquem Deus e Jesus em suas frases”, refere.

“Há uma tensão social muito grande e os níveis de radicalização estão a elevar se demasiado”, confirma Margarida Alves. “Ao ponto de haver convocatórias para manifestações, incitando ao ódio aos nordestinos [a maioria apoia Haddad] e à expulsão de gays, lésbicas, negros, índios e comunistas. É um nível de intolerância e fascismo que não imaginávamos viver”, acrescenta a guia turística de Leiria.

Teme, por isso, que os conflitos sociais se agravem, depois das eleições, independentemente de quem for eleito. Já Fábio Alves diz que “o povo brasileiro é pacífico”, embora manifeste receio devido à existência de extremistas nos partidos.

“São estes militantes os maiores disseminadores de fake news, pois muitos dos casos, de ambos os lados, não passam de mentiras arquitectadas na tentativa de difamar a oposição, tanto que a escassez de provas e de testemunhas é uma evidência.”

Mais optimista, Douglas Nacamae diz que “o Brasil é um país democrático”, pelo que acredita que o presidente eleito será respeitado.

Tópicos: bolsonarobrasilbrazildemocraciaDeusditaduraeleiçõesextrema-direitafake news
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