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Home Opinião

Ciência cidadã

O vinho é a bebida da Idade Média. Bebia-se aos hectolitros em todas as variantes possíveis

Luís Mourão, dramaturgo Luís Mourão, dramaturgo
16 de Agosto de 2025
em Opinião
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Luís Mourão, dramaturgo
Luís Mourão, dramaturgo16 de Agosto de 2025

Sabemos muito sobre o vinho dos século XIII, XIV e XV. Sabemos como as vinhas eram cultivadas, quais os processos de vinificação e os hábitos de consumo. Também sabemos que o vinho que hoje se consome é fruto de práticas enológicas a cada ano verificadas, corrigidas, melhoradas desde o início do século XX muito devedoras de avanços científicos no domínio da microbiologia de Pasteur, Cohn e Koch. Antes deles andaram os homens a fazer vinho durante 8 mil anos sem saber nada de leveduras ou bactérias.

Tirando os casos de automedicação que deviam ser mais do que muitos, o vinho era prescrito pelos médicos. E bebia-se aos hectolitros em todas as variantes possíveis, tinto, branco, palheto, água pé, por crianças e adultos, homens e mulheres. O vinho é a bebida da Idade Média.

As castas entretanto desapareceram ou hibridaram até ao não reconhecimento, as práticas culturais alteraram-se, os solos mudaram, o clima e a água, os hábitos e exigências de consumo também e mais do que tudo, alterou-se o gosto. Não fazemos a mínima ideia de a que é que sabia um vinho medieval. 

Por isso um grupo de investigadores e especialistas efetuou uma experiência de recriação. Foi em França após a vindima 2023 e repetiu em 2024. Obteve um vinho com 11,5º “muito claro e límpido, nem vermelho nem rosado mais rubi” tal e qual se vê nas representações pictóricas de finais da Idade Média. E pronto.

A ciência cidadã, isto é, um grupo de cidadãos que se dispõem seguindo um rigoroso protocolo desenhado por cientistas, a fazer uma recolha de dados e a transmiti-los para que possam ser analisados e verificados e validados tem permitido avanços científicos impensáveis. 

E por isso pensei em lançar-vos o desafio de a partir de agora aproveitarem o verão, o peixe ou a carne grelhadas, as saladas as morcelas e os chouriços para beber um copo de vinho com dignidade acrescida. Se levarem isto a sério como verdadeiros investigadores pode ser que consigamos descobrir a que sabia o vinho medieval. É possível.

Texto escrito segundo as regras do novo Acordo ortográfico de 1990

Tópicos: cidadãciênciainvestigadoresjornal de leiriaLeiriaLuís Mourãomédicosmedievalopiniãoverãovinho
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