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Home Crítica

Cinema e TV | Isto é uma coisa a ver: O Drama

O filme centra-se na reflexão sobre o impacto dos eventos passados na identidade, na definição do que é a essência de cada um, na fragilidade dos sentimentos e na possibilidade de um amor incondicional, capaz de aceitar não apenas o que o outro é, mas também aquilo que foi

Elsa Margarida Rodrigues, professora e escritora Elsa Margarida Rodrigues, professora e escritora
24 de Julho de 2026
em Crítica
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Elsa Margarida Rodrigues, professora e escritora
Elsa Margarida Rodrigues, professora e escritora24 de Julho de 2026

O Drama (no original The Drama), apesar de aparecer classificado como uma comédia romântica dark, diz-nos, logo no título, aquilo que podemos esperar do filme. É uma comédia, no sentido em que a vida, em última análise, se pode reduzir a isso, e é romântico no sentido em que retrata de uma relação de amor, mas os temas abordados são demasiado complexos e sérios para despertar no espetador qualquer gargalhada, ou até mesmo algum sorriso (a não ser, talvez, no modo desajeitado como é feita a abordagem inicial que conduz à conquista).

O filme, escrito e dirigido por Kristoffer Borgli, é protagonizado por Zendaya, a atriz revelação de Euphoria, Malcolm & Marie, Challengers, a saga Dune e do recente The Odyssey, e Robert Pattinson, conhecido pela participação nos filmes Crepúsculo, na saga Harry Potter, no filme Mickey 17, e, tal como Zendaya, em The Odyssey.

O Drama começa com flashbacks do início da relação entre Emma (Zendaya) e Charlie (Robert Pattinson) enquanto este escreve os votos para o casamento, revelando uma relação terna e apaixonada, aparentemente perfeita.

O início luminoso e romântico do filme muda completamente de tom quando, no jantar entre o jovem casal e os seus padrinhos (Mamoudou Athie como Mike e Alana Haim como Rachel) para definir a ementa do casamento, todos resolvem partilhar o seu segredo mais secreto e sombrio. É a partir de então que se dá o drama, alterando-se por completo as relações e a própria estética do filme. Os tons luminosos de exterior são substituídos por cenários interiores noturnos, com sombras e escuridão; a banda sonora acentua a claustrofobia e a perturbação das personagens; a montagem passa a ser descontínua, sem linha temporal condutora nem distinção clara entre a realidade e a imaginação de Charlie; e o filme centra-se na reflexão sobre o impacto dos eventos passados na identidade, na definição do que é a essência de cada um, na fragilidade dos sentimentos e na possibilidade de um amor incondicional, capaz de aceitar não apenas o que o outro é, mas também aquilo que foi.

A mensagem central de Kristoffer Borgli talvez seja a de que somos todos demasiado complexos para podermos ser reduzidos a uma coisa só, que somos constituídos por camadas de experiências que se sobrepõem e por vezes anulam, que inevitavelmente todos temos segredos e traumas, e que a personalidade é uma construção dinâmica, impondo a questão de saber se devemos responder pelo presente que somos ou também pelo passado, ainda que os erros cometidos nessa altura tenham sido essenciais para nos superarmos e transformarmos em algo melhor.

A noção de uma essência pré-definida está subjacente ao filme, embora o filme nos mostre que podemos sempre fazer reset e que as primeiras (e segundas) impressões que os outros fazem de nós não têm de corresponder, efetivamente, aquilo que verdadeiramente somos. Ou melhor, àquilo que vamos sendo, visto que nem a vida nem a nossa resposta aos desafios que ela nos coloca em cada momento podem alguma vez ser inteiramente previsíveis.

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