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Cinema | Mergulho no Selvagem

Quer com os livros, quer com filmes, sinto-me sempre como o chapeleiro louco de Alice no País das Maravilhas: “estou atrasada! Estou atrasada!”, repito incessantemente, sabendo que esta batalha estará para sempre perdida.

Erica Faleiro Rodrigues, directora artística dos festivais utopia.co.uk e underscore.pt Erica Faleiro Rodrigues, directora artística dos festivais utopia.co.uk e underscore.pt
13 de Junho de 2020
em Opinião
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Erica Faleiro Rodrigues, directora artística dos festivais utopia.co.uk e underscore.pt
Erica Faleiro Rodrigues, directora artística dos festivais utopia.co.uk e underscore.pt13 de Junho de 2020

Tive recentemente a oportunidade de ver um filme que me tinha deixado uma lembrança fugaz: um jovem sentado no topo de um autocarro; colegas de cinema que, há 13 anos, falavam de como o filme os tinha emocionado. Não me recordava de mais nada.

O filme é Into the Wild (O Lado Selvagem), de 2007, de Sean Penn, com Emile Hirsch como protagonista, baseado no livro do jornalista Jon Krakauer.

Tantos anos passaram desde a primeira vez que o filme passou nas salas de cinema, que não me recordava, absolutamente, de detalhe algum. Sentei-me e vi, pensando até ao fim que estava a ver uma ficção, perturbando-me com o final, que nos esclarece tratar-se de uma história real, dramatizada, mas em que todos os personagens existiram de facto.

Nesta história, um jovem de vinte e poucos, de classe média alta, larga tudo, muda de identidade e, sem deixar qualquer rasto que a família possa seguir, vagabundeia durante dois anos pelos Estados Unidos, eventualmente descendo até ao México, e passando pela California (atravessando o Rio Colorado, sem permissão do governo), o Nevada, o Arizona, o Oregon, entre outros estados, na procura de liberdade. Tolstoi, Jack London e Thoreau são as suas influências. Mas o seu objectivo último é chegar ao Alaska, para se perder completamente da civilização.

E é aí que, por uma série de acasos infelizes, que nunca serão inteiramente provados, encontra a sua morte.

Sinto uma grande insatisfação com a maior parte das traduções dos títulos de filmes para português e este é desses casos. Este não é um filme sobre ‘o lado selvagem’, ‘the wild side’, em inglês, mas sobre a pulsão de ‘getting into the wild’, de mergulhar, de entrar no selvagem, que é algo muito diferente.

É sobre o querer ser envolvido por algo maior, indomável, como alguém que, no inverno, mergulha num rio de água gelada, para que o rodeie, por todos os lados e em todos os sentidos.

Porque viver é ser ignorante, depois, descobri que este se tinha tornado um filme de culto.

Compreensível pelo modo como o seu herói, Christopher McCandless, tinha vivido o sonho de muitos jovens, de tentar verdadeiramente ser livre, de largar família, o consumismo, a sociedade, de descobrir uma sinergia com a natureza; e acabou como mártir desse sonho.

Mas, várias vozes alasquianas têm-se mostrado extremamente críticas em relação a este aventureiro que terá encontrado a morte no seu vasto território. Por entre outros factos, porque Christopher McCandless não terá levado consigo um mapa da reserva onde ficou; se o tivesse feito, dizem, teria descoberto que estava a 30 quilómetros de uma estrada e talvez não tivesse morrido da forma que morreu.

Mas a matiz que lhes falha é que Christopher McCandless, num tempo como o nosso, em que tudo foi mapeado e em que já não existem manchas negras nos mapas, por explorar e descobrir, não queria o mapa.

O seu fim era, por algum tempo, perder-se verdadeiramente da Humanidade. Conseguiu-o. Na tragédia de não conseguir retornar, tornou-se nesta lenda que temos para contar.   

Tópicos: CinemaÉrica Rodrigues
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