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Cinema | Muito pouco de revolucionário

"Todos os alemães têm o direito de resistir a quem queira abolir esta ordem constitucional se não houver outra solução"

Cristiano Jesus, licenciado em Som e Imagem e mestre em Estudos Comparatistas Cristiano Jesus, licenciado em Som e Imagem e mestre em Estudos Comparatistas
16 de Julho de 2021
em Opinião
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Cristiano Jesus, licenciado em Som e Imagem e mestre em Estudos Comparatistas
Cristiano Jesus, licenciado em Som e Imagem e mestre em Estudos Comparatistas16 de Julho de 2021

E Amanhã, o Mundo (2020), realizado por Julia von Heinz, foi exibido pela primeira vez na 77.ª edição do Festival Internacional de Veneza e está agora disponível na Netflix.

Este filme conta-nos a história de Luisa (Mala Emde), uma estudante universitária no primeiro ano de direito, que se desloca para uma casa comunitária estudantil (P 81), apoiada pela sua melhor amiga, Batte, (Luisa-Céline Gaffron), para melhor se envolver na luta contra o crescimento do neo-nazismo e as suas políticas na Alemanha.

Se, inicialmente, a forma de activismo, por parte de Luisa, se baseia na resistência pacífica, o modus operandi altera-se quando a protagonista se vê envolvida numa cena de perseguição por um neo-nazi que a agride, depois de uma franja do colectivo, encabeçada por Alfa (Noah Saavedra), ter decidido intervir de forma mais violenta durante uma contra-manifestação.

O filme tenta pôr em perspectiva as acções do trio — Alfa, Luisa, cuja sedução por ele se dá por intermédio do envolvimento cada vez mais cego da sua parte naquele tipo de protesto, e Lenor (Tonio Schneider), amigo próximo de Alfa, embora com uma posição mais moderada— através do Art. 20, Secção 4 da Constituição Alemã, que inicialmente surge em cartão, depois em tema de aula e finalmente em voice over, podendo representar diferentes significados à medida que o espectador toma conhecimento do desenvolvimento da trama.

Este é o artigo: “todos os alemães têm o direito de resistir a quem queira abolir esta ordem constitucional se não houver outra solução”.

Todavia, esta premissa dificilmente é aceitável como justificação porque, para as acções da franja à revelia das práticas pacíficas do P81 terem legitimidade, seria necessário que o tribunal e a polícia deixassem de actuar, o que nunca deixou de ser o caso.

Na discussão do tema em aula, tenta-se pôr em causa o funcionamento da ordem constitucional ao afirmar-se que as instituições podem estar corruptas, permitindo deste modo a invocação daquele artigo na defesa de actos violentos.

Ainda assim, o filme é incapaz de criar uma “zona cinzenta” moral e ética coerente e capaz de dar força às acções das personagens.

Com efeito, E Amanhã, o Mundo é bastante simplista sem grande profundidade política e ideológica.

A violência é quase como uma droga para Luisa, que, ao ver-se abandonada por aqueles em quem mais confiava e afectada psicologicamente pela indecisão de agir mortalmente, entra em paranóia.

Pelo menos, crédito seja dado ao facto de não se ultrapassar “o ponto sem retorno” que descredibilizaria definitivamente o que estamos a ver.

Longe de uma realização exuberante assim como de uma insípida, situando-se naquele ponto intermédio do nem é bom nem é mau, este filme tem aquele mal que ninguém quer para a sua arte: o silêncio da apatia.

A realizadora Julia von Heinz na penúltima cena teve uma oportunidade cabal para obrigar o espectador a responder moral e eticamente a um gesto que teria de ser decifrado nos olhares comprometidos das personagens e no que se passara até então, mas nem esse espaço foi capaz de dar-lho, preferindo que tudo ficasse bem esclarecido e sem dúvidas.

 
Tópicos: CinemaCristiano JesuscríticacrónicaE AmanhãFilmenazisneonazisnetflixo Mundo
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