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Home Crítica

Cinema | Não olhem para cima, uma distopia quase real

Cátia Biscaia, realizadora e fotógrafa Cátia Biscaia, realizadora e fotógrafa
20 de Fevereiro de 2026
em Crítica
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Cátia Biscaia, realizadora e fotógrafa
Cátia Biscaia, realizadora e fotógrafa20 de Fevereiro de 2026

Paulatinamente, estamos a reerguer-nos das cinzas. Digo, “das cinzas” metaforicamente, porque, se nos limitarmos a conceitos reais, estamos a renascer dos destroços que a bomba daquele bicho de vento que nos atravessou naquela noite deixou. Aproveito, então, este meu espaço para oferecer um abraço a todos os leirienses. O que passámos na noite daquela catástrofe – e nos dias que se seguiram – fez nascer uma ferida. Um rasgão na pele que ainda está muito aberto e que não sarará até ficarmos restabelecidos. Estamos juntos.

Posto isto, não sabia muito bem como introduzir a temática cinematográfica aqui. Poderia “enfiar a ferros” um filme sobre resiliência, ou podia até nem dizer nada. Até porque, por vezes, o silêncio grita. Mas, de todas as vezes que vejo alguém abordar a questão da emergência climática com desdém e até algum negacionismo; ou que diminuem as tragédias porque não acontecem na sua casa; percorre-me um arrepio pela espinha e sinto a raiva a acumular-se no peito. Então, como o cinema, também é uma arma de luta política (por mais que os Wim Wenders desta vida nos tentem dizer o contrário) lembrei-me de um filme de Hollywood, até bastante conhecido e comercial, de 2021, que vi muito recentemente, numa tarde indolente de chuva.

Falo de Não olhem para cima, de Adam McKay, nomeado para o Óscar de Melhor filme em 2022. Escrito, notoriamente, durante a pandemia da Covid 19, este filme é uma espécie de comédia distópica, em forma de sátira, que nos entrega de bandeja, como as pessoas que nos governam, acabam por perceber tanto ou menos dos assuntos que nós e que, na grande parte das vezes, só estão preocupados com os seus próprios interesses.

Ora portanto, a história centra-se em Jennifer Lawrence e Leonardo DiCaprio que interpretam dois astrónomos da Michigan State, que descobrem que um cometa – de tamanho equivalente àquele que exterminou os dinossauros – está a dirigir-se, a alta velocidade, para a Terra, pelo que se trata de um evento de extinção em massa. Por esta razão, assim que fazem esta descoberta, entram imediatamente em contacto com a NASA, o governo dos EUA e os meios de comunicação social de forma a tentar alertar e levá-los a agir perante a catástrofe.

Mas é aqui que a trama passa de uma comédia distópica para algo muito semelhante à realidade. A presidente, interpretada por Meryl Streep, não quer envolver-se porque está demasiado focada noutros assuntos; os media não querem realmente falar sobre isso, porque não tem um tom positivo e os espectadores estão mais interessados em coscuvilhices de celebridades; já a NASA, a chefe da organização foi nomeada pela presidente e não tem absolutamente nenhuma experiência em astrofísica (é anestesiologista) e delega todo o julgamento à presidente e ao seu filho, o chefe de gabinete, interpretado por Jonah Hill, que é um completo idiota e só conseguiu o cargo por nepotismo; que, por sua vez, entregam o discernimento a uma grande empresa. Portanto, acho que já estamos a ver como esta história acaba.

Gostava de poder dizer que o filme é hilariante, porque tem todos os ingredientes para ser extremamente engraçado: temos governantes a agir de forma egoísta e a colher as consequências disso; capitalistas gananciosos que só se preocupam com os próprios lucros; e uma população que nega toda a lógica e razão porque acredita que há uma agenda escondida.

Não olhem para cima é, de propósito, um pesadelo e pode tocar demasiado perto da realidade. Também pode ser absolutamente hilariante. Ou extremamente catártico. Ou intensamente deprimente. E podemos sentir todas estas emoções no espaço de cinco minutos.

Este é um filme que não foge à política e pinta um retrato sombrio de quão tramados estamos. E, tenho a certeza, de que muitos de nós vemos filmes para escapar às duras realidades da existência, mas este agarra-nos pelo pescoço e obriga-nos a encarar a pouca esperança que realmente existe para nós. Acho que vale a pena, nem que seja, para estarmos mais atentos à forma como os nossos governantes reagem às catástrofes: metem mãos à obra, ou tratam-nos com eufemismos? Acho que perceberam onde quero chegar.

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