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Clara Moura Soares: “Gostava muito de fazer voltar a escola de canteiros e de reactivar a oficina de vitral”

Cláudio Garcia Cláudio Garcia
02/04/26 08:04
em Entrevista
Clara Moura Soares: “Gostava muito de fazer voltar a escola de canteiros e de reactivar a oficina de vitral”
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Considerando que, por um lado, conviveu logo com uma obra nas Capelas Imperfeitas, e por outro, mais recentemente, existiu o impacto da depressão Kristin também aqui no Mosteiro da Batalha, imaginava ter um primeiro ano mais tranquilo?

Estava à espera de ter um desafio, e de enfrentar um desafio, foi para isso que para cá vim. Mas, de facto, este desafio ampliou-se muitíssimo pelas circunstâncias que referiu. Quando cheguei, a obra das Capelas ainda não tinha sido iniciada. Iniciou-se, a montagem do estaleiro, em final de Agosto. E depois tivemos esta surpresa da tempestade Kristin, que veio trazer mais desafios, mais dificuldades, mas também, ao mesmo tempo, mais esperança de ver as coisas mudarem. Depois do período de trauma, do impacto, dos efeitos que a tempestade teve, vejo agora, se calhar, uma oportunidade para se fazerem coisas e fazerem obras no edifício que, de alguma forma, já eram necessárias.

Quando olha para trás, para estes primeiros 12 meses, que balanço faz? É positivo?

Muito positivo, apesar, como disse, de ter tido grandes desafios e alguns deles completamente inesperados, completamente imprevisíveis. Conheci muitas pessoas, de áreas muito diversas e algumas muito, muito interessantes, o que me tem permitido, também, pensar o monumento em diversas perspectivas, sob diversos pontos de vista. Permite-me, também, repensar a programação, por exemplo. Depois, o outro tópico deste balanço tem que ver, naturalmente, com as obras – com as obras que se iniciaram e com a expectativa de obras que eu gostaria que se iniciassem.

Deixe-me aproveitar para pedir, então, um ponto de situação relativamente às intervenções que estão em curso neste momento.

Temos obras nas Capelas Imperfeitas, como disse, iniciaram-se em Agosto. Temos, também, a obra da cobertura da Sacristia, que é uma obra fora do PRR, será financiada pela Museus e Monumentos de Portugal. Estamos a falar, sobretudo, de tratamento de juntas, uma vez que há bastantes infiltrações na Sacristia. A outra obra que está agora a começar é a obra dos vitrais, financiada pelo PRR. Começaram agora a trazer os primeiros equipamentos para a instalação dos andaimes. Estamos a falar de uma obra de conservação, restauro, documentação dos vitrais mais antigos, portanto, o seu núcleo mais antigo. Falo dos dois níveis de vitrais da Capela-Mor e falo do vitral da Sala do Capítulo. São, de facto, os mais relevantes.

E há outras intervenções urgentes que, entretanto, tenha identificado? E verba para elas?

Uma das intervenções que está a ser planeada tem que ver com a recuperação das consequências da tempestade. Estamos a falar de intervenção nas cantarias, bastantes cantarias que se partiram, que caíram e, portanto, elas terão de ser substituídas, terão que ser refeitas. Muitas delas não têm recuperação possível, fragmentaram-se muito. Mas estamos a falar também da consolidação de muitos elementos de coroamento do edifício que têm de ser estabilizados: flores de lis, pináculos. Esta ainda a ser feita uma avaliação pelo Departamento de Engenharia Civil da Universidade de Aveiro e, em articulação com as empresas que fazem o trabalho da pedra, as réplicas e o trabalho de conservação e restauro, está a ser pensada e planeada a intervenção a fazer.

Mas em termos gerais do monumento, o que falta fazer?

Faltam intervenções generalizadas nas coberturas. As últimas terão sido em 2012, 2013 e nunca houve uma intervenção total nas coberturas. São quilómetros de juntas. Estamos a falar de montantes que serão bastante elevadas.

Há uma estimativa do investimento necessário?

Fizemos uma estimativa no início, estamos agora a confrontar essa estimativa com as propostas que nos estão a chegar e a estimativa inicial andava à roda dos três milhões de euros.

Qual é a visão que tem para o resto do mandato? O que gostaria de alcançar e deixar concretizado?

Foi possível realizar muita coisa, até mesmo em termos de exposições, de concertos, fizemos muitas, muitas, muitas actividades. O próprio serviço educativo planeou uma série de iniciativas, fizemos diversas parcerias com entidades aqui da zona e da região e com outros pontos do país, fizemos vários protocolos, alguns deles estão iniciados em termos de relação, mas espera-se que no futuro se desenvolvam mais acções, nomeadamente aquela que estava prevista este ano para as Capelas Imperfeitas, com a Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa, já que, por causa da tempestade Kristin, tudo o que estava planeado ficou inviabilizado. Tinha que ver com pensar as Capelas Imperfeitas e como é que se poderia propor soluções de fecho, de conclusão, de remate daquele espaço centralizado.

É um alvo fechar as Capelas Imperfeitas?

É uma meta pensar o espaço e fazer propostas. Depois, o resto se verá. Com total liberdade. Estou à espera que as propostas surpreendam. Têm que ser devidamente fundamentadas e serão certamente avaliadas.

Do ponto de vista da conservação, seria recomendável concluir as Capelas Imperfeitas?

Há quanto tempo é que as Capelas estão ali assim? Pelo menos, desde 1530, década 30 da última etapa construtiva. Desde o século XVI. E, de facto, não se notam problemas graves, estruturais, de conservação. Portanto, isso acho que quer dizer alguma coisa. O colocar uma cobertura naquele espaço, a meu ver, teria, sobretudo como intuito, criar outras condições para se poder desenvolver algumas actividades naquele espaço. E logo a seguir vem uma pergunta. Justifica-se, por isso? Esta intervenção vai colmatar, por um período de 15, 20 anos, essa necessidade que é o preenchimento das juntas, zonas onde há mais infiltrações, a consolidação de alguns elementos que também têm alguma instabilidade. E há ainda mais um elemento que fiz muita questão que pudesse ser pensado, que não estava previsto no empreendimento, que é a colocação de redes anti-aves, que sejam subtis, que sejam discretas, mas que cumpram a sua função, impedindo que o maior flagelo que nós temos ali provoque danos no espaço, os pombos, que nidificam ali.

Que lugar é que o Mosteiro da Batalha tem hoje em dia no imaginário da população portuguesa e dos visitantes internacionais que continua a atrair? É o mesmo de há décadas?

Há coisas que não mudam. Isto faz-me pensar sobre o papel da História e o reconhecimento da importância da História pelas gerações mais jovens. Eu contacto frequentemente com jovens na casa dos 18, 20 anos, na faculdade, e de facto vejo-os muito preocupados com as questões do presente e até mais com as questões do futuro. E talvez haja alguma dificuldade na compreensão da importância da História para esse tal futuro. Ainda assim, as escolas, nas faixas etárias mais baixas, continuam a cumprir o seu papel de transmitir aquilo que comecei por dizer que não muda. A importância histórica deste edifício, que é face visível de acontecimentos históricos do passado, da batalha de Aljubarrota e das suas consequências. Os professores procuram muito as visitas orientadas pelos técnicos e as visitas encenadas.

Esses acontecimentos históricos ainda ligam os interruptores das emoções e do interesse junto das gerações mais jovens?

Esse lado da emoção acaba por ser talvez mais eficaz com a visita encenada. As visitas encenadas são muito procuradas. Muito, muito procuradas. E eu acho que tem que ver com esse lado mais envolvente, mais emocional que a visita proporciona. Sendo que não é uma visita encenada qualquer. Não é uma história qualquer que se conta. É uma história que conta parte da história do edifício. E portanto estamos a falar daquilo que persiste e da beleza. Acho que não é indiferente a beleza deste edifício mesmo para uma criança pequena. Procuramos que essas experiências se desenvolvam e que essa emoção se mantenha. Para isso é fundamental que este discurso da História procure acompanhar o presente e o futuro. A forma como comunicamos a história deste edifício não pode ser a mesma. O edifício é o mesmo. A história é a mesma. O que não pode ser o mesmo é a forma como nós comunicamos.

E aí as ferramentas digitais, o ambiente digital ou a integração de tecnologia, podem ser importantes?

Podem ser importantes e espero que sejam uma realidade a breve trecho.

Dê-nos alguns exemplos.

O próprio PRR tem uma linha ligada ao wi-fi. Há um fundo significativo para isso. E que vamos naturalmente aproveitar. Isso implicará a colocação de pontos de rede, de internet, em diversas zonas do edifício. É fundamental para permitir de facto que se tenha acesso a uma interpretação do monumento, que neste momento é muito escassa. Através da utilização de QR codes, por exemplo, ter acesso a informação sobre o próprio monumento, ter acesso a imagens, a pequenos vídeos, há muitas possibilidades que podem advir daqui, sem prejuízo de alguma interpretação analógica no próprio espaço, que também há carência disso. O monumento tem muito pouca interpretação. E sobre a realidade aumentada, se me permitir, posso acrescentar algumas ideias. Houve uma iniciativa de investigação sobre a policromia da Capela do Fundador e há material para se poder ter uma ideia de como seria aquele espaço, com os altares, com as pinturas, com as alfaias litúrgicas. E com a sinfonia de cores que foi identificada. Uma experiência imersiva.

Há zonas novas visitáveis no Mosteiro ou está previsto que venha a haver?

Há uma zona que mencionei que está a ser intervencionada, que é a Sacristia. A intervenção precisava de ser mais extensa, para que pudesse ser visitável pontualmente, porque de facto a Sacristia tem muito interesse do ponto de vista artístico. É o único sítio no Mosteiro onde ainda se observa talha dourada. Outra área que eu gostava de permitir uma maior fruição seria na Adega dos Frades. Ela pode-se espreitar, mas não se pode usufruir daquela espacialidade. Gostava muito de fazer voltar a escola de canteiros, pelo menos uma parte da escola de canteiros, e gostava também muito de poder reactivar a oficina de vitral que temos aqui, que está toda equipada e não funciona por falta de um programa de formação de continuidade. Tornaram-se ainda mais prementes com os efeitos da tempestade. E estes espaços são espaços para também poderem ser fruídos pelos visitantes. Entre os monumentos tutelados pelo Museus e Monumentos de Portugal, o Mosteiro da Batalha continua a ser dos mais visitados. Ainda não foram divulgados os dados para 2025, mas estava posicionado, no ano anterior, no quinto monumento mais visitado.

É possível manter essa relevância e que análise é que faz da evolução do número de visitantes?

De 2024 para 2025 foi registada uma subida, não é muito significativa, mas é uma subida, há uma inversão da tendência que se registou no ano anterior. Podemos fazer mais coisas? Podemos sempre. Queremos que os números aumentem e o interesse no Mosteiro é muito significativo.

Perfil
Universidade e património

Há um ano em funções como directora do Mosteiro da Batalha, Clara Moura Soares tem licenciatura em História, mestrado em Arte, Património e Restauro e doutoramento em História de Arte, sendo professora convidada do Instituto de História de Arte da Faculdade de Letras de Lisboa.

Apresentou, em 2024, o livro Luís Mousinho de Albuquerque e o restauro do Mosteiro da Batalha no século XIX.

Entre 1998 e 2006, exerceu funções no departamento de conservação e restauro da Escola Superior de Tecnologia do Instituto Politécnico de Tomar.

Tem trabalhado em iniciativas de investigação no âmbito do inventário artístico e da história e teoria da conservação e restauro do património artístico.

Tópicos: clara moura soaresdirectora do Mosteiro da Batalha

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