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Home Sociedade

Contra mina de caulino, municípios do Oeste pedem declaração ambiental desfavorável

“Incompatível com o modelo de desenvolvimento sustentável da região”, alertam os autarcas

Redacção/Agência Lusa Redacção/Agência Lusa
11 de Setembro de 2026
em Sociedade
“Tudo farei para que esta exploração não seja uma realidade”, afirmou Filipe Sales na última AM

“Tudo farei para que esta exploração não seja uma realidade”, afirmou Filipe Sales na última AM (Foto: Ricardo Graça)

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A Comunidade Intermunicipal (CIM) do Oeste manifestou-se desfavorável ao projecto da exploração mineira prevista para o concelho de Peniche, pedindo uma Declaração de Impacto Ambiental Desfavorável.

Na reunião de quinta-feira, o conselho da OesteCIM decidiu “manifestar posição desfavorável” ao projecto, por o “considerar incompatível com a capacidade de suporte ambiental e territorial da área envolvente e com o modelo de desenvolvimento sustentável da região”, segundo o parecer a que a agência Lusa teve hoje acesso.

Leia também a entrevista ao presidente da Câmara e Peniche, Filipe Sales: “Queremos relançar e reafirmar Peniche como capital da onda”

Apesar de a área de concessão se situar no concelho de Peniche, “os efeitos do projecto não se confinam aos limites municipais”, alertou.

Segundo a OesteCIM, “não está em causa a actividade extrativa, mas este projecto nesta localização, com esta dimensão, esta duração e a base técnica em que assenta”, assim como a “compatibilização da exploração com a capacidade de suporte ambiental e territorial da envolvente”.

Habitações afectadas

Tal como já tinham alertado os municípios de Peniche e de Óbidos, a OesteCIM aponta “incorreções na localização e nas distâncias” da Avaliação de Impacto Ambiental (AIA), que coloca a exploração a quatro quilómetros de distância das habitações mais próximas, quando existem casas a 450, 150 e 20 metros da exploração.

Estas “incorreções”, determinantes na avaliação dos impactos em termos de ruído, poeiras, emissões atmosféricas, vibrações e saúde pública, “não oferecem uma base segura de avaliação dos impactos” e “impedem uma decisão ambiental devidamente fundamentada”, sublinha.

A própria AIA identifica a existência de partículas em suspensão e ruído durante os 20 anos da exploração, e de espécies de valores naturais, como 72 espécies de flora vascular, sobreiros e 50 espécies de vertebrados terrestres, algumas das quais ameaçadas.

Recurso hídricos em risco e mais camiões 

Os 12 municípios da região Oeste mostraram também preocupação com os riscos de contaminação dos recursos hídricos da região, com 24 captações de água subterrânea e a Albufeira de São Domingos na envolvente, quando está prevista uma unidade industrial de lavagem de areias, com consumos de águas e produção de efluentes.

Leia também: Consulta pública de projecto para mina de caulino em Peniche recebeu 7.368 participações

Com a circulação de 11 camiões por hora, prevêem-se alterações ao tráfego “significativas” na rede viária dimensionada para veículos ligeiros, com efeitos sobre a segurança rodoviária, conservação dos pavimentos e qualidade de vida das populações.

A OesteCIM defendeu também que a exploração a céu aberto vai implicar a “alteração profunda e duradoura da morfologia do terreno, a remoção de solos, a perda de coberto vegetal e de habitais e a transformação da paisagem durante mais de 20 anos, com efeitos que a recuperação final não elimina”.

Que retorno?

Para os autarcas, a concessão vai trazer um “contributo reduzido” para a região, quando os custos ambientais e infraestruturais são superiores às contrapartidas económicas e de emprego, quando está prevista a criação de 12 postos de trabalho directos.

As eventuais medidas de minimização “não podem compensar um projecto cujos impactos decorrem da própria localização, dimensão e duração”, é referido na posição.

Os 12 municípios da região defenderam que a Agência Portuguesa do Ambiente deverá emitir uma Declaração de Impacto Ambiental (DIA) desfavorável ao projecto.

Caso haja condições para a emissão da DIA solicitam que sejam corrigidas e validadas a cartografia e as distâncias da concessão, seja apresentada uma avaliação hidrológica e hidrogeológica detalhada que demonstre ausência de risco para as linhas de água.

Impactos no turismo

São também pedidos um plano de circulação de veículos pesados à escala intermunicipal, uma reavaliação dos valores naturais com demonstração de soluções que evitem a sua destruição e de medidas de compensação adequadas, uma avaliação sobre as actividades turística e agrícola e sobre a paisagem e um plano ambiental e de recuperação paisagística faseada.

A associação ambientalista Quercus, a Associação Portuguesa dos Arquitectos Paisagistas e os municípios de Peniche, Óbidos e Bombarral (distrito de Leiria) deram pareceres desfavoráveis ao projecto.

A exploração mineira de caulino e argila está prevista para uma área de 101 hectares a céu aberto, na freguesia de Serra d’El-Rei, designada Royal China Clay e concessionada pelo Estado durante duas décadas à Motamineral – Minerais Industriais, S. A., segundo o estudo não técnico da AIA.

Na área de concessão estão definidos três núcleos num total de 51,4 hectares de exploração e uma produção total na ordem das 569.100 toneladas/ano.

No documento é indicado que, da produção anual prevista, cerca de 31.800 toneladas serão de caulinos, 270.000 de areias lavadas e 267.300 argilas comuns.

Autarca de Peniche quer falar com o Governo

O presidente da Câmara Municipal de Peniche anunciou que vai pedir reuniões à ministra do Ambiente e à Agência Portuguesa do Ambiente para manifestar a oposição do município ao projeto da mina de caulino previsto para o concelho.

“O meu compromisso é de que tudo farei para que esta exploração não seja uma realidade e vou pedir audiências à ministra do Ambiente, ao presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e aos grupos parlamentares”, afirmou Filipe Matos Sales na sessão de quinta-feira da Assembleia Municipal.

Avaliando os custos e os benefícios do projecto, o autarca social-democrata conclui que a concessão “não é negociável” e defendeu que “falar em contrapartidas é abrir a porta” ao projecto, o que levou a recusar nesta fase reunir-se com a empresa promotora.

O presidente da câmara lembrou que o processo remonta a 2009, quando o projecto começou com uma área de concessão de 426 hectares, reduzida agora para 101, deduzindo que “houve diligências para reduzir a área a ser explorada”.

Na mesma sessão, a Assembleia Municipal aprovou por unanimidade o parecer desfavorável dado pela Câmara Municipal ao projecto.

Consulta pública

No âmbito da consulta pública da Avaliação de Impacto Ambiental (AIA) do projecto, a autarquia fundamentou a decisão na “insuficiente avaliação dos impactos do projeto sobre as populações e o território, bem como na identificação de incorreções relevantes na localização e determinação das distâncias a algumas populações”.

A autarquia destaca o caso de Casais de Mestre Mendo, na freguesia de Atouguia da Baleia, que a avaliação ambiental coloca a quatro quilómetros da exploração, quando existem habitações a 450 metros e outras a 20 metros.

Para o município, “as discrepâncias não são meros lapsos”, uma vez que a distância é determinante para a avaliação dos impactos relacionados com ruído, poeiras, emissões atmosféricas, vibrações, tráfego, segurança e qualidade de vida das populações.

Ainda segundo a câmara, o município é desfavorável à instalação de uma exploração mineira de caulino e argila no concelho, tendo também em conta a dimensão e duração do projecto, estando a exploração prevista para 20 anos e meio e sendo estimada uma circulação média de 11 camiões por hora.

O município pede uma avaliação mais aprofundada dos efeitos da exploração sobre os recursos hídricos e aquíferos, a Reserva Ecológica Nacional, os solos, a floresta e a paisagem, bem como os impactos cumulativos com outras actividades existentes ou previstas na envolvente.

Custos maiores do que benefícios

Município e freguesias do concelho defenderam que os custos do projecto são maiores do que os benefícios económicos e sociais, quando estão previstos até 12 postos de trabalho.

Através de uma pergunta por escrito entregue no parlamento, o Bloco de Esquerda questionou a ministra do Ambiente sobre as eventuais mais-valias e contrapartidas sociais e de empregabilidade do projecto para a região.

Tópicos: ambientePeniche
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