O desafio poderia ser simples se os finalistas do Centro Infantil do Centro Social e Paroquial dos Pousos tivessem apenas de identificar o seu nome, espalhado num tapete no chão, entre os dos colegas de turma. Mas tornou-se mais complexo quando tiveram de reproduzir a letra inicial em língua gestual, perante adultos que não conheciam.
Mais tímidas ou mais descontraídas, todas as crianças envolvidas no projecto Ekui – Por um mundo sem barreiras na comunicação passaram com distinção no “teste”.
Apesar de terem tido poucas aulas com a terapeuta da fala, Inês Lopes, a lição estava estudada na ponta da língua. Quem é o Ekui? “É um elfo!” Onde mora? “Na floresta mágica!” O que é que nos ensina? “A língua gestual!” Para quê? “Para podermos comunicar com as pessoas cegas!” Cegas? “Surdas!” E também nos ensina…
“Braille, para podermos comunicar com as pessoas cegas!” E os bonequinhos? Como a pergunta era mais difícil, a resposta foi dada pela própria técnica. “Ensinam-nos a pôr a boca correctamente para dizermos os sons.”
Através do recurso a histórias [LER_MAIS] e a jogos, Inês Lopes tem posto em prática uma nova metodologia de alfabetização e reabilitação inclusivas, 30 a 45 minutos por mês, que combina comunicação gráfica, braille, língua gestual e alfabético fonético.
“Para capacitar o ser humano, nada melhor do que iniciar na fase de desenvolvimento da linguagem”, defende. E os resultados estão à vista. “As crianças são autênticas esponjas do conhecimento.”
A educadora Susana Pissarra confirma que os meninos memorizam com muita facilidade, gostam de aprender e querem saber mais. Desde que participam neste projecto, passaram ainda a manifestar preocupação com as pessoas que não vêem e com as pessoas que não ouvem.
Além das vantagens da aprendizagem, a responsável pelo CRID – Centro de Recursos para a Inclusão Digital do Instituto Politécnico de Leiria, Célia Sousa, acredita que o Ekui vai contribuir para tornar a sociedade mais inclusiva e mais equitativa.
Já o financiador do projecto adoptado numa turma do Centro Infantil dos Pousos, Carlos Neves, admite que, se for alargado a todo o País, “a gestão do futuro estará um passo à frente”.
Actualmente, o Ekui está a ser ensinado em 41 concelhos.
Vencer o monstro das barreiras
Mentora do projecto, Celmira Macedo aproveitou a presença na aula com as crianças dos Pousos para recordar que o Ekui tem um “inimigo muito feio, chamado monstro das barreiras, que anda pelas terras a dizer que não podemos falar uns com os outros”.
Contudo, repôs rapidamente a verdade, ao garantir que podemos falar com as pessoas com as mãos. Esta é uma das competências que está a ser trabalhada com os mais pequenos através de cartas, com as quais aprendem a comunicar de quatro formas diferentes.
Com recurso a um jogo, em que uma das personagens é a própria Celmira, que assume a identidade de Celita, os meninos são ensinados a ajudar e a respeitar os outros, pelo que o final só pode ser feliz.
Celmira Macedo gostaria de alargar o projecto a todo o País, já que está confinado a apenas 229 escolas do 1.º ciclo, mas enfrenta a barreira da dificuldade de financiamento. O Ekui já recebeu dez prémios e uma distinção.










