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CULTURA, UNIVER(CIDADE) E (DES)ENVOLVIMENTO – XXVIII

Um ponto de vista com 20 anos

Ricardo Vieira, professor decano do Politécnico de Leiria Ricardo Vieira, professor decano do Politécnico de Leiria
15 de Março de 2017
em Opinião
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Ricardo Vieira, professor decano do Politécnico de Leiria
Ricardo Vieira, professor decano do Politécnico de Leiria15 de Março de 2017

Escrevi, na semana passada, que das diversas comunicações apresentadas no 1.º Congresso do IPL, realizado a 16 e 17 de março de 2000, apenas três focaram, claramente, as vantagens da transformação do IPL em Universidade. Prometi que publicaria algumas das que foram as minhas ideias apresentadas então e que continuo a defender. Seguem de seguida.

Por que é que o Ensino Politécnico, sendo à partida apenas diferente do Universitário haveria de lhe ser subalterno? A máxima do “Todos Iguais Todos Diferentes” também aqui se aplicaria.

Mas, o Ensino Politécnico está de facto dependente do Universitário. Os dois subsistemas do ensino superior não estão em pé de igualdade. E por que razão? Porque a Lei e os respetivos estatutos os tornam desiguais. E também porque as representações centenárias das pessoas colocam a Universidade no topo do Ensino. São os próprios pais e os alunos que a desejam.

Muitos alunos do IPL dizem em casa, e na rua, que andam na Universidade (e na faculdade) mas de facto não andam. 

Vejamos algumas vantagens e desvantagens da existência de dois subsistemas do ensino superior. 

Vantagens: pode levar ao desenvolvimento particular (de cada escola) e do todo (o exemplo do IPL) quando as identidades se complementam e não colidem. Assim, cada escola deve desenvolver-se a partir da sua matriz de objetivos, o que não significa apenas crescer (aumentar as turmas, o número de alunos, os docentes, os funcionários, etc.) mas pensar amplamente e diversificar e ampliar os domínios, até próximo do limite, em volta dum âmbito aglutinador: é o exemplo das Escolas de Tecnologia e Gestão, Tecnologia, Arte e Design, Educação e por que não, também, Ciências Sociais… Alargamento e desenvolvimento devidamente contextualizado com o meio ambiente, como parece ser, também, o caso da Escola de Indústrias do Mar em Peniche.

Do mesmo modo, cada Instituto, como um todo, pode e deve distinguir-se não só das Universidades mais próximas ou mais longínquas bem como dos outros Institutos. E isto faz-se com o tal projeto próprio, vontade, perseverança e crenças particulares, apoios aos docentes, estratégias de desenvolvimento, etc.

Mas, quando o excesso de diversidade põe em pé de desigualdade os dois subsistemas do ensino superior, acho então preferível assegurar a manutenção da especificidade dentro dum único sistema de Ensino Superior. 

Desvantagens da diferenciação: quando o ser diferente se traduz em desigualdade. Quando se traduz em direitos reduzidos. Não há dúvidas que o Ensino Politécnico já confere hoje licenciaturas (e hoje mestrados).

Será que alguém ainda quererá apontar a sua especificidade pela atribuição máxima de bacharelato? Que por ele fique quem quiser, mas que frequentar o Ensino Público em Leiria não signifique a impossibilidade de ser licenciado (e hoje, mestre e doutor). Essa foi já uma conquista.

Uma pequena batalha ganha. Mas por que podem os docentes do IPL orientar teses de doutoramento em Universidades e não o podem fazer na instituição a que estão afetos? Por uma única razão, embora complexa: porque não há um sistema único de ensino superior; porque o Estado trata de forma muito desigual os dois subsistemas; porque Leira não tem uma Universidade Pública; porque o Politécnico é filho de um Deus menor. 

O IPL deve transformar-se na Universidade de Leiria
Os dois subsistemas estão cada vez mais a transformar-se em dois sistemas: um exclusivamente profissionalizante, o dos serventes e do operariado da sociedade, o outro, elitista, o da cultura dominante e hegemónica que continuará a governar as instituições da nação.

Se o  IPL quisesse transformar-se na Universidade de Leiria, a especificidade dos seus cursos, tecnológicos, de gestão, de educação, de arte, etc. poderia assegurar-se na mesma. Não estamos a dizer que os cursos técnicos teriam que acabar. Esses estudantes não podem é ser impedidos de progredir os estudos quando o quiserem. Mesmo até ao doutoramento. Mesmo dentro de empresas, instituições e outras organizações. E por que não na sua região? 

A diversidade do conhecimento mais técnico e do mais académico poderá sempre coexistir. Deve, aliás, conviver e coexistir.

Ganharíamos ainda muita coisa. Todos nós, professores, alunos, funcionários, pais, empresas, organizações diversas e, também, Leiria e a sua Região. As nossas escolas poderiam, desta forma, reproduzir-se sem recurso necessário às universidades nacionais e estrangeiras para obtenção do grau de doutor.

Os seus quadros poderiam formar-se (também) dentro da própria instituição. Os docentes teriam que fazer, obrigatoriamente, doutoramento, assegurando a qualidade do ensino, a certeza da investigação e a credibilidade global da instituição. Os doutores poderiam fazer investigação em pé de igualdade com os colegas das outras universidades. Não teriam de a elas voltar para fazer a Agregação, título académico hoje obrigatório no ensino politécnico para se aceder ao topo da carreira.

Outra prova que volta a fazer depender o Ensino Politécnico do Universitário. 
E, já agora, numa perspetiva mais macro, mais sistémica e menos pessoal, penso que ganharia também o próprio país e por que não também a justiça e a igualdade… 

Leiria não é periferia. Leiria merece ser uma cidade central, geográfica e politicamente. Leiria merece ser, também por isso mesmo, uma cidade universitária.

*Professor Decano do Instituto Politécnico de Leiria
Professor Coordenador Principal da ESECS-IPLeiria 
Investigador do CICS.NOVA.IPLeiria

(O autor escreve segundo as regras do "Acordo" Ortográfico de 1990)

Tópicos: culturadiscussãoopiniãopolitécnicouniversidade
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