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Home Opinião

Dá cá toma lá

Cláudia Camponez, psicóloga educacional Cláudia Camponez, psicóloga educacional
3 de Março de 2022
em Opinião
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Cláudia Camponez, psicóloga educacional
Cláudia Camponez, psicóloga educacional3 de Março de 2022

Nas últimas semanas sugeri a alguns pais a adoção de sistemas de recompensa como forma de melhorar o comportamento dos filhos, pois nem sempre a atenção e o elogio consertam o que está desalinhado.

Há miúdos tranquilos e pacíficos e outros mais desafiadores e argumentativos. Todos eles uns doces, mas uns mais difíceis de levar que outros. O Manuel, por exemplo, foge das letras manuscritas, o Vasco arrelia o irmão mais novo, o Tomás não consegue comer sentado, a Maria bate com as portas quando contrariada, o Diogo faz birra para lavar os dentes… Obviamente que a capacidade de regulação emocional e comportamental das crianças varia de acordo com a fase de desenvolvimento em que se encontram e que não podemos esperar o mesmo de todas, mas por vezes há que dar um empurrão.

É aqui que a utilização de recompensas concretas pode fazer a diferença. Como uma espécie de reforço que motiva as crianças a adotar um determinado comportamento, funciona como estratégia de autocontrolo que trava impulsos mais descontrolados. Em troca dessa gestão, a criança terá acesso a privilégios. É um toma lá dá cá, ou melhor, um dá cá toma lá.

Como é que funciona? Os pais definem os comportamentos a apresentar pela criança diariamente e a criança escolhe as recompensas que receberá em troca. Assina-se um contrato e começa-se a jogar.

No e ntanto, não é assim tão simples como lançar os dados e avançar. Eu sei que é uma seca leras instruções dos jogos, mas há regras a seguir nesta brincadeira. Em primeiro lugar, os pais terão de selecionar os comportamentos alvo de modificação, os que perturbam a dinâmica da família e que tendem a ser mais frequentes. Não basta dizer simplesmente “Tens de te portar bem”. Portar bem é muito vago e imensamente subjetivo. Há que ser objetivo e explicar à criança exatamente o que se pretende.

Depois, os pais não podem ser muito ambiciosos e querer mudar tudo de uma vez. Dessa forma, a criança desistirá antes de tentar. Se queremos que a criança vá para a mesa quando a chamam e que permaneça sentada até ao fim da refeição, o melhor é estabelecer pequenos passos até lá chegar.

Também o número de comportamentos exigidos à criança deve ser pensado. Se vamos pedir à criança que modifique comportamentos, parte-se do princípio que são difíceis de gerir, o que já por si é complexo, quanto mais se houver pressão para que a criança obtenha êxito em diversos domínios ao mesmo tempo (ex.: comportamento, higiene, autonomia, etc.). Há que pedir também apenas o que é realista e passível de ser monitorizado.

Outra coisa muito importante na definição dos comportamentos é a identificação dos comportamentos positivos que queremos reforçar. O jogo não deve premiar o que não se pode fazer, mas antes o que se deve fazer em seu lugar. Em vez de se pedir à criança que deixe de bater à mana, peçamos-lhe antes que partilhe os seus brinquedos com ela.

Uma vez escolhidos os comportamentos, definem-se pontos que a criança vai amealhando pelo cumprimento das tarefas e a partir de que valor acumulado terá direito a um benefício.

Definir a lista das recompensas ou privilégios com a criança é o passo seguinte. As recompensas podem ser várias e vão desde escolher os cereais no supermercado, convidar um amigo para dormir em casa, ir ao cinema, comprar um jogo de tabuleiro, jogar computador, fazer um piquenique, receber uma semanada… Nunca prometer o que não se pode dar e nunca prolongar o período de tempo de atribuição da recompensa.

Por fim, é importantíssimo envolver as crianças no jogo. Não escolha e decida tudo sozinho. Ah! E não veja este jogo como um suborno, pois contrariamente a um suborno, as recompensas só surgirão depois do comportamento apropriado ocorrer.

Comece sempre por recompensar pequenos passos para chegar aos objetivos mais ambiciosos e lembre-se de ir acompanhando o jogo de reforço social/elogio, pois será esse a perdurar. Manifeste verdadeira satisfação pelo esforço da criança e não pelo que ela conseguiu.

Let’s play!

Tópicos: Cláudia Camponez
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