
Sou praticante desta arte desde que me lembro. Desde bem pequenino, que “destroco” lágrimas com um à vontade digno de “lacrimejador” olímpico, e agora aos 43 anos, apesar de o meu corpo já não me deixar fazer tudo como antigamente, chorar é um desporto que continuo a praticar com grande regularidade e sinto-me bastante apto para o fazer várias vezes por semana.
Sinto muito, sinto imenso, sinto de várias formas, e muitas dessas “sentidelas” traduzem-se em gotas que teimam vir não sei de onde, e encontrar na minha face, a rampa ideal para um salto para o mundo, maioritariamente de sabor salgadas, mas também agridoces e até já vieram doces, que isto de chorar há tantos anos, faz com que tenhamos de ser criativos e ir renovando o palato lacrimal.
Sou daqueles que se emociona com quase tudo: com uma música que trespassa o meu coração que nem uma flecha ao transformar palavras em espadas tão afiadas ou em abraços tão ternos; ao ler uma notícia sobre algo que acontece a um milhão de quilómetros de distância, mas eu sinto que está mesmo, mesmo, mesmo a acontecer aqui ao meu ladinho e só me apetece vestir uma das diversas capas (que acho que tenho, mas na verdade não tenho) de super-herói, para resolver num piscar (ou lacrimejar) de olhos; com um filme para crianças em que há mães, pais, filhos e filhas dinossauros, que nunca os conheci na minha vida, mas parecem em anúncios de televisão, trailers de filmes, ao ver pessoas conhecidas e por vezes também desconhecidas, ao ouvir histórias, ao contar histórias, ao escrever, ao ler, ao ver fotografias recentes e antigas, ao lembrar-me de mil e um momentos que já me aconteceram ou aconteceram aos outros, até já chorei a dormir e acordei com a almofada como uma amiga que está lá para limpar as lágrimas e dizer: volta a deitar aqui a cabeça que está tudo bem, são só mais umas gotas na tua vida.
Tenho também diversos choros, uma espécie de rodízio de H2O para todas as ocasiões: temos o emoção, o comoção, o alegria, o tristeza, o desespero, o excitação, o surpresa, o incrédulo, o raiva, o amor… temos choros à vontade do freguês e da freguesa, e após tantos anos a chorar, sozinho, à frente de pessoas que conheço, outras que não conheço, sinto-me bastante confortável nesta minha prática de “chorador” profissional, e reconheço a importância do choro na minha vida.
Acho que ainda tenho muita água em mim e já que tenho o nome Fontes, amo profundamente a aldeia das Fontes (e a sua admirável comunidade), acho que continuarei a ser uma espécie de fonte ambulante.
Não chores amanhã o que podes chorar hoje.







![Helena Serra: “[Crianças sobredotadas] Sentem que estão sempre a ouvir a mesma coisa”](https://novo.jornaldeleiria.pt/wp-content/uploads/2026/10/helena-serra-maio24-leiria-rg-2024-0-3-4-org-nkee-120x86.jpg)