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Home Opinião

Declaração Aduaneira

A forma de a maioria “das pessoas” reagir 'online' não é argumentativa.

Fernando Ribeiro, músico Fernando Ribeiro, músico
7 de Setembro de 2017
em Opinião
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Fernando Ribeiro, músico
Fernando Ribeiro, músico7 de Setembro de 2017

Se assim fosse, perderiam todo o seu critério de lado, fincando reduzidas a pouco mais do que uma análise de caracteres que desconhecem profundamente. À falta de argumentos, o que se origina é uma espécie de “julgamento”, com ou sem grandes consequências. À conclusão deste processo pode-se chamar o que se quiser, mas nunca uma verdadeira discussão. 

Se para o prejuízo pessoal e as inventivas contra o carácter de quem escreve há o remédio de relativizar, por outro lado, apreciar alguns dos resultados do que publicamos é confrangedor por darmos conta do grande vazio à nossa volta, apesar de estarmos mais rodeados pelos outros do que nunca.

Essa espécie de iliteracia deriva primeiro pelo facto de as “pessoas” não lerem os textos até ao fim. Na maioria dos casos ficam pelo que está “em destaque”. Depois, mesmo os que lêem, não fazem o necessário zoom out e perdem-se nos pormenores, fazendo assim com que não entendam a história que se conta no geral. 

Peguemos num caso que está a dar que falar. AT/Alfândega contra Madonna (ou Mádona, se desejarem). Objectivamente as reacções dividem-se entre o “welcome to Portugal” ou o “isto não se faz à Mádona”. 

Mas a rainha de todas as opiniões “é o acho muito bem, ela não é mais do que os outros”. Todos os homens e mulheres nascem iguais. O problema é que se vão fazendo acertos nessa igualdade. Existem leis, condutas, códigos que limitam ou promovem essa igualdade. Nós próprios, poucas vezes, nos sentimos como um igual, em especial, se são os “nossos direitos” que estão em perigo ou em causa própria.

Depois há o imensamente desconsiderado mérito. O trabalho, a notoriedade artística, cientifica, política (quando é virtuosa), desportiva. Em vez de o descartarmos em nome da “igualdade”, devíamos, sim, enaltecê-lo, perguntando por exemplo o que a Madonna fez e deu à sociedade, em vez de estarmos sempre a tentar contabilizar a sua fama e fortuna. 

Este problema levou-nos aliás a contactar com a sua dimensão humana  o que não deixa de ser interessante. Ver que nem a Madonna escapa à parolice e aleatória discricionariedade que reina na nossa Alfândega (e que é muito mais fruto de negligência e amadorismo, do que de um sentido de dever para com o Estado), faz-nos sentir que não estamos sozinhos!

Só quem nunca teve um problema destes com a Alfândega. Só quem nunca perdeu dinheiro e tempo; material profissional; compromissos de trabalho; medicamentos. 

Só quem nunca viu as suas compras vasculhadas, as perguntas com tom de despeito e interrogatório como se estivéssemos a cometer um crime; pode agora arvorar em defensor da lei e da ordem, de um Estado e suas Autoridades e Alfândegas, cujo zelo já não é assim tão primoroso para os magnatas da banca e seus batalhões de advogados.

Fake news para fake people.

Por isso, quando escrevo que desconfio das intenções dos autarcas é porque desconfio. Se não enalteço os exemplos positivos é porque não estava a falar sobre isso. Em todo o caso, são complicados de achar. Se arregacei as mangas ou não, se faço ou não faço, ou se fiz, ninguém sabe, por razões que acho absolutamente correctas e pessoais. Não poso para as câmaras a fazer o bem. 

Se a lógica é essa, se é o carácter ou o palmares cívico que se discute, se lhes escapa a generalização, então é bem verdade o que dizem e, sim, é cerrarem fileiras a favor da Alfândega e das suas patrióticas acções.

Porque para recuperar a massa cinzenta que ficou retida nalguma fronteira da net, por algum internauta cheio de brio e zelo, ou simplesmente porque não suportamos o mérito, a fama, o dinheiro dos outros, por isso chamemos-lhes tudo online. Aí sim, não vai haver declaração de valor aduaneira que salve os “defensores da igualdade”. 

Welcome to Portugal!

*músico e vocalista dos Moonspell

Tópicos: comentarFernando Ribeirointernetmadonnaopinião
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