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Deixa-me estar calado | A cidade jardim

Imaginem Leiria com um viveiro municipal de árvores e arbustos autóctones, distribuídos gratuitamente ou por um valor simbólico, a quem os queira plantar. Concursos para a rua mais verde, envolvendo moradores, escolas, associações, empresas e comerciantes. Mas, acima de tudo, uma cidade que ensine as suas crianças — e recorde os adultos — a reconhecer as árvores, as plantas e a biodiversidade que fazem parte do seu património

Bruno Gaspar, artista plástico e investigador Bruno Gaspar, artista plástico e investigador
28 de Agosto de 2026
em Opinião
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Bruno Gaspar, artista plástico e investigador
Bruno Gaspar, artista plástico e investigador28 de Agosto de 2026

Ao longo dos anos fui recebendo fotografias de árvores abatidas em Leiria. Umas estavam doentes. Outras caíram porque era inevitável. Mas houve também demasiadas que desapareceram sem que a maioria das pessoas percebesse bem porquê. E quando não se explica, cresce a desconfiança.

Não tenho dúvidas de que, muitas vezes, houve boas razões para as cortar. Nalguns casos até foram substituídas por espécies mais adequadas. A questão nunca foi apenas o abate. A questão é explicar as razões, envolver a comunidade e, sobretudo, mostrar que as novas árvores serão cuidadas durante décadas.

Plantar uma árvore é fácil. Difícil é merecer a sombra que ela dará a quem vier depois de nós.

Depois do incêndio que devastou o Pinhal de Leiria, da tempestade Kristin, que derrubou cerca de oito milhões de árvores, e da perda de 156 árvores septuagenárias na cidade, talvez tenha chegado o momento de fazer do acto de plantar uma causa comum.

Ilustração de Bruno Gaspar

Este é o momento certo para recomeçar. Fazer tábua rasa, não da paisagem, que essa já levou demasiadas machadadas, mas da forma como olhamos para ela. Em vez de discutirmos quem cortou a última árvore, porque não começarmos a falar de quem planta a próxima?

Imaginem Leiria com um viveiro municipal de árvores e arbustos autóctones, distribuídos gratuitamente ou por um valor simbólico, a quem os queira plantar. Concursos para a rua mais verde, envolvendo moradores, escolas, associações, empresas e comerciantes. Mas, acima de tudo, uma cidade que ensine as suas crianças — e recorde os adultos — a reconhecer as árvores, as plantas e a biodiversidade que fazem parte do seu património. É difícil amar uma árvore sem saber sequer o seu nome. Uma cidade que medisse o seu sucesso não apenas pelos metros quadrados de construção, mas também pelos metros quadrados de sombra que oferece aos seus habitantes.

Singapura percebeu que os jardins podem fazer muito mais do que embelezar uma cidade. Até 2030 terá 30 jardins terapêuticos públicos, concebidos com a ajuda de cientistas para estimular o olfacto, o tacto, a audição, a visão e até o paladar, promovendo a saúde mental de pessoas com ansiedade, autismo, demência ou défice de atenção. Não precisamos de copiar Singapura. Mas podemos aprender uma lição simples: as árvores não são um luxo paisagístico. São uma infra-estrutura de saúde, bem-estar e qualidade de vida.

Não basta plantar. É preciso cuidar. Regar. Podar. Substituir quando for necessário. Uma cidade verde não se inaugura. Cultiva-se.

As eleições passam de quatro em quatro anos. Um carvalho, se tiver sorte, passa por quatro séculos. Está na altura de começarmos a governar um pouco mais como quem planta um carvalho e um pouco menos como quem prepara a próxima campanha.

Se um dia existir um partido capaz de reunir toda a gente, talvez não seja de esquerda nem de direita. Talvez seja apenas o Partido das Árvores.

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