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Deixa-me estar calado | As praias não fecham

Bruno Gaspar, artista plástico e investigador Bruno Gaspar, artista plástico e investigador
7 de Agosto de 2026
em Opinião
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Bruno Gaspar, artista plástico e investigador
Bruno Gaspar, artista plástico e investigador7 de Agosto de 2026

Há uma coisa curiosa nas praias portuguesas.

Fecham.

Ninguém lhes põe um cadeado. Ninguém lhes proíbe a entrada. Mas, mal termina a primeira quinzena de Setembro, desaparecem as pessoas, recolhem-se as espreguiçadeiras, fecham muitas esplanadas e ficamos todos convencidos de que o Atlântico entrou de férias.

É um desperdício.

O Osso da Baleia, o Pedrógão, a Vieira, São Pedro de Moel e tantas outras praias desta costa tiveram o azar de nascer num país onde ainda se acredita que uma praia serve apenas para apanhar sol. Se o céu está cinzento, deixa de servir. Basta levantar-se o vento e já não presta. Se chove, parece que o mar fez as malas.

Pela Europa fora acontece, muitas vezes, o contrário. Na Bretanha, a talassoterapia mantém as localidades costeiras vivas durante todo o ano. Na Holanda, o vento é um desporto. Na Finlândia, aquecem-se em saunas antes de mergulharem no mar gelado.

Nós já temos tudo aquilo que nenhum investimento consegue construir.

O oceano já cá está.

Só nos falta deixar de lhe passar a carta de despedimento no fim de cada Verão.

Depois há a ciclovia da Estrada Atlântica. Uma ligação exemplar entre o Osso da Baleia e a Nazaré. Dezenas de quilómetros, quase sempre planos, feitos para pedalar junto ao mar. No entanto, durante boa parte do ano, pedala mais o vento do que as bicicletas. Mesmo no Verão continua longe de ter a utilização que merece. E, no entanto, é uma obra notável, daquelas de que devíamos ter orgulho e, sobretudo, saber potenciar.

Porque não criar um sistema de bicicletas partilhadas entre o Pedrógão e a Vieira? Porque não permitir que os autocarros que ligam Leiria e a Marinha Grande às praias também transportem bicicletas? Porque não pensar em piscinas oceânicas onde o mar pudesse ser vivido em segurança durante todo o ano, ou em espaços de talassoterapia que transformassem o Inverno numa estação de bem-estar? E porque não criar uma Casa do Atlântico, um lugar onde se fosse simplesmente olhar o mar, acompanhar as tempestades, as marés, as aves e os cetáceos? Afinal, há dias em que observar o oceano é tão fascinante como mergulhar nele.

Entretanto, o Atlântico continuará lá.

A questão é saber se estaremos nós.

Depois da tempestade que atingiu esta costa e dos incêndios que a marcaram profundamente, o desafio já não é apenas reconstruir.

É aproveitar para fazer melhor.

Alguns sinais já existiam muito antes destas tragédias. O parque de merendas do saudoso Corre Água era apenas um dos exemplos de espaços que, com o tempo, foram perdendo o cuidado que mereciam.

Às vezes, o problema não é a natureza.

Somos nós que deixamos de cuidar.

Ilustração de Bruno Gaspar

O mesmo acontece com o Pinhal de Leiria. Continua ferido, mas começa lentamente a respirar outra vez. As árvores novas ainda são pequenas. Demorarão muitos anos a fazer sombra. E, apesar disso, fica sempre a sensação de que ainda há qualquer coisa por fazer.

Talvez porque a verdadeira pergunta já não seja apenas quando voltaremos a ter um pinhal.

Talvez seja outra: queremos apenas recuperar o que perdemos ou aproveitar esta oportunidade para criar uma paisagem mais diversa, mais resistente e mais preparada para o futuro?

Nem tudo tem de estar cheio o ano inteiro. Ainda bem que existem dias em que conseguimos ouvir apenas o mar. Mas entre o silêncio do Inverno e a confusão de Agosto existe um oceano de possibilidades.

Quem sabe se um dia esta costa não será conhecida pelos Jogos do Atlântico? Uma celebração do vento, do mar, da natureza, da gastronomia, da arte e do desporto.

Seria um belo paradoxo. Enquanto tantos esperam pelo Verão, nós descobriríamos aquilo que o Atlântico sempre soube: que tem quatro estações.

Porque as praias não fecham.

Quem lhes vira as costas somos nós.

E talvez esteja aí o maior desperdício de todos.

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