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Despique ou o tamanho da coisa

João Lázaro, psicólogo clínico e director do TE-ATO João Lázaro, psicólogo clínico e director do TE-ATO
4 de Agosto de 2022
em Opinião
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João Lázaro, psicólogo clínico e director do TE-ATO
João Lázaro, psicólogo clínico e director do TE-ATO4 de Agosto de 2022

A rotunda tem a dimensão e atitude que lhe é própria de coisa inerte: feita para servir de eixo circular a quem por ali transita.

Se ninguém ultrapassar os limites do lancil poderá preservar intactas as flores dispostas em órbitas perfeitas e simétricas à estátua epicêntrica, tão inerte quanto ela.

É uma espécie de sistema solar plantado ali no coração da cidade. Previsível e estático.

Já de quem em torno dela circula, conduzindo-se em duas ou quatro rodas, é menos espectável ter uma atitude tão previsível quanto a desejada.

O espírito e a letra da Lei, os diagramas, desenhos esclarecedores ou explicações pormenorizadas, de pouco ou quase nada têm servido a muitos condutores para saberem como agir quando circulam numa rotunda.

Não que se presuma serem sujeitos de fraco entendimento, mas tão-somente reféns de uma ideia colada à pele que os impele a que se encostem sempre à direita, mesmo quando a sua direita estorva a direita dos outros, pelo que a sua direita é sempre a mais direita e de interesse superior por comparação com as outras.

Neste despique de qual das direitas tem prioridade sobre as outras, há dias, dois ufanos cavalheiros conduzindo as suas garbosas e polidíssimas viaturas tomaram-se de razões em plena rotunda.

Um porque já nela vinha, outro porque nela queria entrar, os dois a teimarem quem primeiro deveria aceder à via ascendente que na rotunda se inicia.

Primeiro um arremedo de aceleração sem pretensão de parar, mas mesmo a ver-se que ambos travariam antes da colisão que entre o gesto afoito e a hipótese de macular a preciosidade metálica, há de o bom senso imperar que isto chapa batida, declarações nunca nada amigáveis, impropérios e viaturas de substituição enquanto a lindeza de carro está na oficina tem muito que se lhe diga.

E o que queria forçar a entrada levou avante o intento e seguiu rua acima.

O que já circulava na rotunda é que não se deu por vencido, sangrado na sua virilidade e, na impossibilidade de ser ouvido pelo adversário de contenda, sacou da arma que tinha ali mais à mão, sonora de facto, mas que causa dano aos ouvidos e fere a honra do inimigo expondo-o à censura pública de ter asneado na condução.

O nobre cavalheiro que ia à frente é que não esteve pelos ajustes e logo ali demonstrou que o seu instrumento debitava ainda mais decibéis.

E um pressiona a buzina e o outro a buzinar também e tem por resposta outra buzinadela que juntas se transformaram numa cacofonia ascendente e incómoda para os transeuntes mesmo que curiosos.

A disputa subia de tom e havia que salvaguardar a honra dos nobres cavaleiros.

O que ia na dianteira reduziu a marcha até um quase parado e o da retaguarda ia-se encostando com aceleradelas sonoras, mas inconsequentes.

E nós, ali atrás, naquela procissão penitente à espera que ambos se resolvem-se e nos evitassem o tempo mal gasto e o combustível desnecessário.

A via ascendente ganha novas faixas logo após a curva. Talvez se resolvam se, com um pedaço de sorte, cada um for para seu lado.

Qual quê? A fúria estava acesa e presente.

Ainda pensei que quando parassem lado a lado se enchessem de brio, saíssem dos carros e baixassem as calças para compararem o tamanho das pilas para conferirem ali qual era o mais viril.

Por sorte, ali mesmo ao lado, na via mais à direita, no seu velocípede de serviço, um pacato agente da autoridade esperava a vez de passar quando o semáforo verde acendesse.

Fardado que ia ostentava à ilharga o cassetete.

Não havia necessidade de comparações: a figura tutelar exibia o tamanho do seu poder e os cavalheiros-gaiatos e duvidosos de si resignaram-se e seguiram caminho, pacatos e mansos.

 

Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990

 

 

Tópicos: João Lázaroopinião
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