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Home Viver

“DG Artes cilindrou o reconhecimento europeu da nossa qualidade”

José Gil, director artístico e marionetista da SA Marionetas

Jacinto Silva Duro Jacinto Silva Duro
9 de Outubro de 2015
em Viver
“DG Artes cilindrou o reconhecimento europeu da nossa qualidade”
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Como correu a deslocação da SA. Marionetas ao Reino Unido, no fim-de-semana?
Correu bem. Estivemos no 6th International Skipton Puppet Festival, que é bastante conceituado no Reino Unido e internacionalmente. Apresenta sempre um programa bastante forte com as principais companhias de teatro de marionetas e foi com grande orgulho que participámos, com promessas de estarmos presentes na próxima edição e, se calhar, com mais do que um espectáculo.

Que espectáculo levaram desta vez?
Levámos teatro de Dom Roberto que é uma forma de teatro tradicional português. Desde o seu início que a companhia luta por preservar a tradição portuguesa do teatro de bonecos. É preciso fazer a manutenção, recuperação e investigação do que resta do teatro de Dom Roberto. Por outro lado, há a procura de novas soluções de encenação em teatro de marionetas. Foi com estas duas premissas que a companhia começou e, naturalmente, fazer produções para o público português, em português.

No próximo fim-de-semana, a SA Marionetas vai estar na Roménia a mostrar mais da arte dos bonecreiros portugueses. Também é uma vida de saltimbancos…
É o percurso natural das companhias profissionais. Apostámos muito não apenas na produção de espectáculos falados, mas também nos que podem viver sem palavras e que são mais contemporâneos. Isso faz com que as produções que desenvolvemos, de teatro popular português e com nova estética de produção e apresentação do teatro do boneco, acaba por, felizmente, servir para nos reconhecerem o trabalho e convidaremos a estar em vários eventos internacionais de renome.

Mas nem todos reconhecem o vosso valor. Em Portugal, a nível oficial o reconhecimento nem sempre acontece…
Tentamos concorrer ao máximo de concursos públicos de apoio às artes, da Direcção-Geral das Artes. Conseguimos apoios algumas vezes e outras não. Infelizmente, a maior parte das vezes não somos apoiados.

Na semana passada, houve mais um reconhecimento do vosso trabalho, desta vez, de um organismo da União Europeia, enquanto a DG Artes vos continua a ignorar “olimpicamente”.
O que aconteceu foi que concorremos com a 18.ª edição do Festival Marionetas na Cidade, de Alcobaça, aos apoios estatais às artes e não fomos reconhecidos ou tivemos quaisquer apoios. Temos um dos mais antigos festivais deste tipo em Portugal… com artistas e espectáculos em português. Em 18 edições recebemos quatro vezes apoio vindo do Estado. Fora de Portugal este evento é reconhecido e depois não tem qualidade que chegue para ser apoiado pelo Estado português? É estranho. Recebemos o selo de evento de qualidade artística europeu e juntámo-nos a outros eventos de grande qualidade a nível mundial, que também têm este reconhecimento. O Super Bock Super Rock tem este selo, o maior festival de marionetas de França, que já tem 54 anos, também o tem. A DG Artes cilindrou o reconhecimento europeu da nossa qualidade e isso é embaraçoso para eles. Como é que uma companhia que faz um festival há 18 anos e é reconhecida fora do País, não é reconhecida ou recebe apoios da DG Artes? Não sabemos se existe algum desagrado da parte de quem decide por sermos de uma região fora da zona metropolitana de Lisboa.

A SA Marionetas tem de se candidatar dentro da Região de Lisboa e Vale do Tejo?
Sim. Estamos a concorrer com outras estruturas que existem em Lisboa. Estamos a hora e meia de distância e noutra realidade diferente. É ridículo continuarmos a pertencer àquela região.

O que destacaria da programação do 18.ª edição do Festival Marionetas na Cidade, de Alcobaça?
Temos uma programação maior que a do ano passado. Serão sete dias, entre 12 e 18 de Outubro, com 11 companhias e 25 apresentações de 11 espectáculos. É um festival pequeno, mas destacaria algumas coisas muito boas. Para começar a extensão do festival ao concelho. Várias Juntas de Freguesia apoiaram o evento e, por isso, ele deixou de estar só na cidade e passou a abranger mais território. Destacaria a inclusão de um espectáculo feito pelos alunos do Centro de Educação Especial, Reabilitação e Integração de Alcobaça (CEERIA). Eles têm um grupo de teatro que faz espectáculos com marionetas e resolvemos colocá-los na programação do festival. Algumas das apresentações já estão esgotadas. Destacaria também os dois espectáculos que acontecem à noite no cine-teatro de Alcobaça – sexta, 16, e sábado, 17, à noite. O Rei Ubu às 23 horas, do dia 16, no Tertúlia Café, com conversa com Nuno Pinto, encenador e actor da peça, é um dos melhores espectáculos que vi nos últimos tempos. No dia 17, às 21:30 horas, a Peregrinação, por La Fontana – formas animadas, que tem muita tecnologia e é muito interessante de ver, que aconselho a todos e que assenta no livro de Fernão Mendes Pinto. No sábado e domingo seguintes, Em frente ao mosteiro, na praça 25 de Abril, durante toda a tarde acontecem várias actuações com técnicas diferentes, de várias companhias. Temos este ano dois convidados estrangeiros que mostrarão o teatro tradicional dos seus países. De Inglaterra, vem o Professor Clive Chandler, com o seu Punch & Judy Show, que é um primo do teatro de Dom Roberto, e do Brasil, vem o Mamolengo sem fronteiras. Serão duas tardes agradáveis e quase todos os espectáculos do festival são de entrada livre.

E a SA Marionetas, o que vai levar?
Vamos fazer teatro de Dom Roberto no mercado, no sábado de manhã. É uma apresentação que é já um clássico e teremos, nos dias 12 e dia 18, apresentações de Dom Roberto, em frente ao mosteiro. A percorrer as freguesias, teremos o espectáculo Portucale, sobre D. Afonso Henriques

Perfil
A trabalhar para o boneco há 18 anos

José Gil, 47 anos, é natural de Alcobaça. Descobriu a paixão pelo teatro tradicional de marionetas na escola, com um professor que também gostava de bonecos. Incentivado pelo docente, aplicou-se àquela arte tradicional. Acabou por tirar um mestrado em teatro de marionetas e está a meio de um doutoramento em História de Arte aplicada ao teatro de marionetas em Portugal. “É um processo de pesquisa e de estudo sobre o que fiz ao longo da vida.” É um dos fundadores da SA Marionetas, companhia de que é director artístico. O colectivo é também, o responsável pelo Festival Marionetas na Cidade, de Alcobaça, criado há 18 anos para comemorar o primeiro aniversário da SA Marionetas como estrutura profissional. “O sucesso desse evento foi tão grande que os jornais até o apelidaram de 'festival nacional da marioneta'. É um filho nosso, já na maioridade, que nunca teria sido possível sem o apoio incondicional da Câmara, da Junta de Alcobaça e do comércio e indústria locais.”

Tópicos: alcobaçadrobertoentrevistafestivaljosegilMarionetasprémiosamarionetas
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