
Coworking
Pediu um caderno à mãe; duas semanas depois, pediu outro. Só quando ia no quinto mostrou o que andava a fazer: escrevia números em extenso. Começara em um e chegara a dezanove mil e oitocentos. Quando já passara o cinquenta mil, descobriram o seu passatempo na escola. E quando chegou aos cem mil, houve uma pequena notícia no jornal da terra. Dizia-se que estava a tentar bater o recorde mundial de escrita de números em extenso. Não se importava que pensassem isso; não iria confessar que estava a escrever para o pai; a ajudá-lo. Sabia que ele estava num país distante e que o seu trabalho era apanhar fruta; sabia – porque ele lhe explicara – que teria dinheiro suficiente para regressar a casa depois de ter apanhado oito milhões de alperces. Antes de dormir, olhava sempre a sua pilha de cadernos onde ia registando, um a um, os alperces colhidos pelo pai.
Cringe
O escritor divaga sobre a importância de encontrar um sentido para a vida. Fala de forma apaixonada e convicta, completamente seguro do que diz. A audiência escuta com atenção, aderindo ao que ouve não tanto pela excelência dos argumentos mas mais pela convicção e dramatismo com que são expostos. Até que a mulher mais bonita da audiência interrompe para explicar que não concorda: «Dizer que há um sentido para a vida é absurdo. Existe é a possibilidade de vislumbrar um sentido para determinado momento da vida. Mas para este momento em particular, que estamos aqui a viver em conjunto, não consigo encontrar qualquer sentido. Tenho de o procurar noutro lado qualquer.» E sai. O escritor fica incomodado, não tanto pela discordância pública em relação aos seus argumentos, mas por ter sido contrariado pela mulher mais bonita da audiência, que estava a tentar impressionar desde o primeiro momento.
Incel
Apenas tinha um espelho no apartamento, que estava na casa de banho. Olhava-se nele duas vezes por dia, depois de se levantar e antes de se deitar. Exceptuando esses dois momentos diários, o espelho estava sempre coberto por um pano escuro. Uma vez contara a uma mulher que convidara e que precisara de ir à casa de banho para que servia o pano: «Serve para impedir que o espelho apanhe luz; assim, resiste melhor ao ambiente, o que retarda o seu envelhecimento. Ora, se o espelho se mantém jovem, é natural que quando me olho nele também eu pareça jovem. Entendes?» A mulher rira tanto, mas tanto, que depois disso ainda não tivera coragem de levar mais ninguém a casa. Mas continuava a tapar o espelho.
Nold
As duas plantas permaneciam no seu canto há meses. Não se queixavam porque viviam perto da janela e podiam olhar para o exterior, ver as nuvens que passavam, espreitar a lua cheia. Estavam quase sempre em silêncio, mas por vezes diziam coisas uma à outra. Por exemplo: «Sabes qual é a última da minha prima? Como não está a lidar bem com a idade, fez uma cirurgia plástica; livrou-se de algumas folhas velhas e substituiu-as por folhas de plástico de aspecto jovem e saudável.» E riam.








