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Em memória de Agostinho Pedroso

João Leiria, músico João Leiria, músico
6 de Junho de 2026
em Opinião
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João Leiria, músico
João Leiria, músico6 de Junho de 2026

Um dia, no café Cimarina, o meu pai chegou ao pé de mim e disse: “Tu e a escola? Vocês não se dão muito bem, pois não? Vá lá, diz-me uma coisa: é isto mesmo que tu queres? Humanidades? Andares a estudar Latim, Filosofia, Literatura Portuguesa…? O que te faz feliz? O que é que tu gostas?” Eu respondi: “Pai, eu gosto é de palco. Gosto de música, gosto de teatro. Gosto de estar em palco. É lá que me sinto bem. É lá que eu sou feliz.”

O meu pai ficou em silêncio, como se já estivesse à espera da resposta que lhe dei. Depois meteu a mão ao bolso de um casaco preto comprido que parecia fazer parte dele. Um casaco que levava para todo o lado. Fizesse frio ou calor, lá estava o casaco. Acho que foi a única pessoa que conheci capaz de almoçar e jantar de casaco vestido, mesmo nos dias mais quentes do verão, sem achar que havia nada de estranho nisso. Foi desse mesmo casaco que ele tirou um recorte de jornal, cuidadosamente cortado à tesoura, do jornal A Bola. Nesse recorte lia-se: “Escola Profissional de Teatro de Cascais”.

Olhou para mim e perguntou: “Então e o que achas disto?” Eu olhei para aquilo e respondi: “Pai… estão mas isso era um sonho. Essa escola era onde eu queria ir.” E ele respondeu: “Então vá, chama o senhor Carlos para pedir a conta e vamos a Lisboa ver como é que isso funciona.”

Fomos nesse mesmo momento. O meu pai nunca me disse que não aos meus sonhos. Nunca. E talvez por isso tenha sido sempre o meu herói. Porque acreditou em mim quando eu próprio ainda não sabia muito bem em que acreditar. Porque sempre me apoiou. Porque me ensinou que os sonhos não servem para ficar guardados numa gaveta. Servem para ser vividos.

Talvez também porque ele próprio fosse um grande sonhador. Uma pessoa cheia de planos, cheia de ideias, cheia de vontade de viver. Muitos desses sonhos não teve tempo de concretizar. Muitos desses planos ficaram por fazer. Porque, enquanto o meu pai foi sonhando, o mundo pulou e avançou. Demasiado rápido. Para ele e para nós todos! Mas, olhando para a vida dele, o que fica não são os sonhos que não teve tempo de cumprir. O que fica é tudo aquilo que viveu. E vocês sabem. Viveu. E bem!

Viajou muito. Fez amigos para a vida. Ajudou pessoas. Partilhou histórias. Deixou memórias. Foi professor. Doutor. Esta custou mas foi. Doutor Agostinho com nota máxima. Sobresaliente Cum Laude. (Acho que é assim que se diz, eu já vos tinha dito que tinha desistido de Latim?) Foi amigo para tantos. E avô. Seus netos Tomás, Inês e Laura. O seu grande orgulho. Mas para mim foi simplesmente pai. Um grande pai. A vida também lhe trouxe momentos muito difíceis.

Perdeu a Ana, o grande amor da sua vida. E quem o conhecia sabia o tamanho da falta que ela lhe fazia. Sabia o quanto ela continuava presente nos seus pensamentos, nas suas palavras e na sua vida. Depois disso, os sonhos passaram a ser diferentes. Os planos passaram a ser outros. Mas nunca deixou de ser quem era. Um homem bom. Um homem generoso. Um homem que gostava das pessoas. Um homem que marcou a vida de muita gente.

Tudo aquilo que me ensinou, a educação que me deu, os valores que me transmitiu, vou levá-los comigo para o resto da minha vida. E vou tentar passá-los à minha filhota. Porque a melhor forma de manter viva uma pessoa é continuar a transmitir aquilo que ela nos deixou. “Foi o tempo que perdeste com a tua rosa, que tornou a tua rosa tão importante.”

E gosto de imaginar que, neste momento, o meu pai voltou a encontrar a Ana. Que estão os dois juntos. Bem agarradinhos. A dançar ao som de Chris Rea, Lou Reed, Van Morrison e de Leonard Cohen. E nós cá estaremos. A continuar. A sonhar. A viver. E a fazer o mundo pular e avançar.

Tal como tu me ensinaste. Até já, pai.

João Paulo (João Leiria)

NOTA DA DIRECÇÃO – A direcção do JORNAL DE LEIRIA em nome de todos os colaboradores envia as mais sentidas condolências aos familiares e amigos de Agostinho Pedroso (1955-2026), que connosco colaborou até muito recentemente, escrevendo uma crónica mensal sobre viagens, uma das suas paixões. Dedicou mais de quatro décadas ao ensino em Leiria e na Marinha Grande e foi fundador do projecto IF – Inglês Funcional, referência na região.

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