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Enterro do Bacalhau regressa com espectáculo “nunca antes visto”

O evento pagão regressa este sábado às ruas da aldeia do Soutocico. Conta com cerca de 280 figurantes, naquela que será a sua 14.º edição, acompanhada pelo VI Congresso do Bacalhau

Laura Alves Ferreira Laura Alves Ferreira
5 de Abril de 2024
em Sociedade
O espectáculo dar-se-á por concluído, com a tradicional Queima do Judas

O espectáculo dar-se-á por concluído, com a tradicional Queima do Judas (Foto: Jornal de Leiria/Arquivo)

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Após quase dez anos de ‘molho’, o Enterro do Bacalhau regressa este sábado, 6 de Abril, ao Soutocico, freguesia de Arrabal, concelho de Leiria.

O evento que acontece de quatro em quatro anos mostra-se através do teatro de rua amador, de teor humorístico e satírico, com o objectivo de criticar o estado sociopolítico do País.

Tem origem nos anos 30 e realiza-se actualmente pela mão do CRDS, mantendo a premissa de contestar as injustiças, desigualdades e imposições do governo português à data da criação do evento.

Já atraiu cerca de 4 mil visitantes em edições passadas e em 2020 foi finalista regional das Maravilhas da Cultura Popular. Este ano, a colectividade recria a tradição e está confiante que após 8 anos de interregno, devido à Covid-19, a adesão será “grande”, admite Sílvia Brites, presidente do Clube Recreativo e Desportivo do Soutocico (CRDS).

Nesta teatralização, reportam-se as problemáticas do país através da homenagem satírica prestada ao bacalhau, o ‘fiel amigo’ do povo.

Este que era o peixe mais acessível à época durante o período da contra-reforma, era também o maior sustento dos pobres durante as sete semanas que antecediam a Páscoa.

Era assim chamado ‘fiel amigo’ por ter sido o salvador de todas as famílias que não tinham possibilidades de pagar a bula durante este período e que estavam, por isso, impedidas de comer carne, assim como restritas a outros prazeres da vida, por imposições da Igreja Católica, que na altura assegurava um poder centralizado no País.

O bacalhau era, portanto, cozinhado de mil e uma maneiras, não fosse o único sustento do povo tonar-se fastidioso.

Foi tão consumido e tal foi a sua importância, que ao atingir a sua popularidade, indignou aqueles que de si destoavam, e acabou por ser condenado à morte.

Foi levado a julgamento pela mão do advogado de acusação, o “Filho da Maria Malvada”, no Tribunal Fantoche dos Filhos. Este a que o povo chama de “traidor”, era também de origens humildes.

Revoltava-se contra o ‘fiel amigo’ por contestar Brites que deste só lhe calhavam os restos do “malcheiroso, escamudo e mal curtido”.

E tanto argumentou contra aquele que era, afinal, também o seu salvador, que os queixumes do advogado de acusação resultaram na condenação à sua morte (do bacalhau).

Revoltados com a denúncia do bacalhau pela mão do seu traidor, o povo decide reunir-se para fazer justiça à vida do ‘fiel amigo’ em troca da cabeça do Filho da Maria Malvada.

É por isso que, naquela que é a última despedida ao bacalhau, integram o cortejo fúnebre Freiras, Padres, Varinas, Pescadores, Bispo, Padeiros, Coveiro, Músicos, Tochas, Carpideiras, Bombeiros e Cangalheiros.

Aqui, não só o povo se despede do ‘fiel amigo’, como se faz jus à sua vida com a tradicional queima de Judas, a figura bíblica que simboliza o traidor na trama.

Este é tradicionalmente executado (rebentado) em plena praça pública, encerrando assim o espectáculo.

Toda a dramatização, cujo tema central é a traição que levou à condenação à morte do bacalhau, é contextualizada através de quatro sermões actualizados quadrienalmente com base nas problemáticos do país à data do evento.

Estas são as passagens do texto que proporcionam os momentos cómicos do cortejo, ao preservarem o tom humorístico, não obstante a digna melancolia com que devem ser narrados, naquele que é, afinal, um funeral.

A Filarmónica do Soutocico, Arrabal e Cortes, juntamente com outros músicos voluntários e “amigos do evento”, terá um papel exímio no cortejo.

Ao som da marcha fúnebre de Chopin, trinta músicos irão acompanhar o espectáculo, tal como dita a tradição.

Também os cânticos dos Pescadores e Varinas, Padres e Feiras ecoarão na marcha fúnebre.

Segundo a presidente do CRDS, este ano, os visitantes podem contar com um espectáculo como “nunca antes visto”, diferente do dos anos anteriores.

A 14.ª edição do Enterro do Bacalhau conta ainda com um novo itinerário, onde os visitantes podem acompanhar o cortejo fúnebre, num percurso menos extenso pelas ruas da aldeia.

A partida do cortejo (21 horas) terá início na Rua da Barroca, no cimo do Clube do Soutocico, a sede da colectividade onde irá decorrer também a sexta edição do festival gastronómico que acompanha o evento, VI Congresso do Bacalhau, a partir das 18 horas.

Após dar-se início à marcha, o cortejo desce até ao Largo Mário Brites, junto ao CDRS, onde se realiza o I Sermão.

De seguida, ruma em direcção à capela do Soutocico, onde será proferido o II Sermão, seguindo marcha em torno da capela, para retornar ao Clube, onde serão realizados o III e o IV Sermão.

Será também neste momento em que o espectáculo dar-se-á por concluído, com a tradicional Queima do Judas.

Como este funeral simbólico é também a celebração de uma vida farta, após concluído o espectáculo, os visitantes são convidados a juntarem-se novamente no CRDS para uma noite de música e convívio, naquele que será um “enterro com festa”, conclui Sílvia Brites.

Tópicos: 2024Arrabalcaras de cucatarsechegacrítica socialcúenterro do bacalhauestado novofascismoFátimaLeiriapáscoapecadosquaresmaqueima do judassalazarSoutocico
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