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Entre a arte e a terapia, olaria da Bajouca preserva o passado e abre espaço ao futuro

Associação Barro na Mão do Oleiro, instalada na antiga EB1 do Vale da Bajouca, resulta da união dos oleiros da Bajouca

Claúdia Gameiro Claúdia Gameiro
27 de Abril de 2026
em Sociedade
Entre a arte e a terapia, olaria da Bajouca preserva o passado e abre espaço ao futuro

(Foto: Ricardo Graça)

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Enquanto a roda gira, as mãos dançam num ritmado abraço ao barro, criando as formas mais inesperadas. Parece mais fácil do que, de facto, é, avisa-se. Quem visita a associação Barro na Mão do Oleiro, na antiga EB1 do Vale da Bajouca, é rapidamente convidado a sentar-se e a experimentar a arte mais característica da freguesia: a olaria. Um desafio criativo que cativa curiosos e amantes de artesanato e que tem nesta escola um dos maiores promotores da sua continuidade. As novas gerações procuram aqui não perder as raízes ou acrescentar conhecimentos à sua formação. Mas há também um grupo crescente de estrangeiros a procurar os cursos de olaria.

“O primeiro passo é sempre centrar o barro” — Céu Neves, presidente da associação, inicia assim mais uma aula de olaria na roda. São cerca de 15 alunos, a maioria já iniciou o trabalho sem quaisquer instruções. Céu molha então o barro e começa a moldar, mostrando a destreza dos dedos treinados.

Nem sempre é possível fazer a peça conceptualizada, explicam-nos, as mãos vão-se adaptando ao barro. Para muitos, funciona como terapia, mas as dificuldades criativas podem tornar esta arte frustrante. O observador só consegue ficar maravilhado com a forma como, em poucos minutos, pedaços toscos de terra barrenta molhada se transformam em chapéus, vasos e esculturas com as mais variadas características.

Nem todos são estreantes nestas lides. Mónica Santos, 18 anos, natural da Bajouca, cresceu com a olaria. “Vivo neste mundo desde pequena. Como já acabei a escola, desafiaram-me a tentar” as aulas de olaria. Mónica admite que tinha os conhecimentos básicos e que a formação a tem ajudado a aprofundar as técnicas, preservando assim uma tradição familiar que vem do trisavô. “Foi também por isso que vim, para compreender as minhas raízes”, explica. Não vê, porém, a actividade como futuro, mas como um passatempo e um “anti-stress”. “Sempre cresci neste mundo; para mim não é novidade”.

Martina Allende, 31 anos, é uma argentina a viver na Figueira da Foz. Não é a primeira estrangeira que aparece nestas aulas. No seu país, explica, já vendia peças de cerâmica e, em Portugal, abriu um atelier, onde promove workshops. “Agora estou a inteirar-me da roda de oleiro”, refere, acrescentando assim mais técnicas à sua formação. Apesar de o barro ser diferente em relação à sua terra natal, constata que as técnicas são semelhantes. “Lá não se fazia tanto mosaico”, explica, sendo que o barro da Bajouca “é muito bom para a roda”.

Em Portugal, Martina procura o seu caminho artístico. Quer crescer como artista e com o seu atelier. “Chegámos a Portugal na aventura”, recorda, tendo-se estabelecido numa região que considera tranquila e onde existe uma grande comunidade de latinos.

Beatriz Pedrosa, 31 anos, é de Paião, Figueira da Foz, e dinamiza as redes sociais da associação. Depois de ter integrado as primeiras formações, encontra-se a tentar entrar, a tempo integral, no mercado da olaria. “Estudei Design de Produto em Lisboa, tinha experiência em cerâmica e vim experimentar, na Bajouca, a roda de oleiro. É intimidante”, reflecte, admitindo que atravessou um nível que a assustava.Para esta artesã, há mercado para este tipo de produto, sobretudo para quem procura “autenticidade”. Tem-se focado em feiras, explorando a região. “Na era do digital, penso que há quem procure o artesanal, onde se conhece o autor, e reconheça esse valor”, constata.

Rodrigo Gameiro, 26 anos, natural de Barreiros, Amor, é apontado pelo grupo como o artista inesperado. Chamado pela irmã, encontrou nas formações da associação uma forma de quebrar a rotina. “Foge um pouco ao quotidiano, em que aparece tudo feito”, explica. “Gosto muito de criar, ver as coisas a crescer e a transformar-se — as mãos a transformar a matéria”. Para este designer de mobiliário, o futuro é uma incógnita. “Ainda estou no início para perceber” se a olaria pode tornar-se mais do que um hobby.

Lucie Ferreira, 40 anos, de Matos de Ranha, Pombal, sempre gostou de comprar peças de olaria na Bajouca e tem experimentado as formações de moldagem e agora a roda. Amante de trabalhos manuais, constata que “são precisas muitas horas de prática para fazer algo”. “Para já, é um hobby e para uso próprio. Gosto de ter peças que tenham história”, explica, enquanto vai ensinando a trabalhar o barro e como, rapidamente, uma peça perfeita pode desmoronar-se.

A Barro na Mão do Oleiro conta quatro anos. Céu Pedrosa fala com orgulho da associação, que tem por objectivo preservar e representar, nomeadamente através da escola, a história da olaria. O espaço promove residências artísticas, formações, possui uma olaria comunitária e tem em projecto a criação de um forno a lenha. A olaria “é como uma terapia”, explica Céu Pedrosa; “o barro é terra, limpa-nos, transforma-nos”. Aqui “vêm ter muitos tipos de artistas, alguns, inclusive, que não sabem que o são”. A associação resulta da união dos oleiros da Bajouca e tem o apoio da CEARTE — Centro de Formação Profissional para o Artesanato e Património.

Tópicos: artesãosbajoucaescolaLeiriaolaria
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