Se ainda cá estivesse, José haveria de orgulhar-se como se agora se visse ao espelho, na fachada da casa que dá para o Jardim Municipal de Figueiró dos Vinhos, onde trabalhou a vida inteira. Talvez seja essa homenagem uma das páginas mais importantes do legado que o festival Fazunchar está a deixar na vila, e um pouco por toda a parte naquele concelho. Por estes dias, começa tudo de novo: os artistas que chegam e fazem renascer becos esquecidos, a música que acompanha as pinturas, os visitantes que aparecem, a alegria de ver a terra cheia de vida, outra vez. Sempre foi esse, afinal, o objectivo maior do evento, nascido em 2019 como reflexo de resposta à tragédia dos incêndios, dois anos antes.
Imortalizado desde 2024 na pintura de Mariana Duarte Santos e Regg Salgado, José (já falecido) foi o último jardineiro a fazer topiaria – a arte de esculpir arbustos – no jardim que é cartão de visita da vila. “Não era para ser nada disto. A ideia inicial era uma cesta com pessoas lá dentro”, recorda Marina Prior, que em nome da Câmara Municipal este ano assume a curadoria do Fazunchar. Imaginou o impacto (nem por isso positivo) que poderia ter na comunidade, e pesquisou muito, como sempre faz, até chegar ao último jardineiro com esse dom. No mural, José vai esculpindo a figura de Inês de Castro, evocando assim “uma escultura que descobrimos há uns anos, perdida num jardim”, explica Marina ao JORNAL DE LEIRIA. É dessa simbiose entre o tempo e o modo, a terra e a gente, a obra e os artistas, que se vai contando a história do Fazunchar. O termo, extraído do “laínte”, um dialecto exclusivo dos comerciantes de têxteis na região, assentou como luva à ideia da autarquia, quando em 2019 avançou para a criação do festival de arte urbana.
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