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Home Sociedade

“Gosto de trabalhar os sabores para criar emoções nas pessoas”

Francisco Rosa é mestre destilador na mais sustentável destilaria do mundo

Jacinto Silva Duro Jacinto Silva Duro
11 de Novembro de 2021
em Sociedade
“Gosto de trabalhar os sabores para criar emoções nas pessoas”
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Quando perguntavam a Francisco Rosa o que queria ser quando “fosse grande”, a resposta estava ensaiada e preparada para sair leda da ponta da língua: “enólogo!”.

Tinha necessidade de sentir a textura e o cheiro da terra nas mãos e dela fazer brotar vida. Hoje, vive em Oxford e lidera uma equipa que criou uma vodka orgânica, considerada como a melhor do mundo dois anos seguidos.

É produzida com a chancela da Oxford Artisan Distillery, reconhecida pela sua preocupação com a sustentabilidade. Entre o trabalho que Francisco já desenvolveu está um “whiskey tropical” com sabor que recorda maracujá e ananás.

Nascido numa família de Leiria onde o negócio são as vinhas e o vinho, quando chegou a hora de escolher o percurso académico, ninguém estranhou que optasse pelo percurso na Faculdade de Agronomia.

“Quando lá estava a estudar descobri que era possível fazer cerveja em casa e aquilo, em especial, o mundo das leveduras, fascinou-me. Comecei a trabalhar, em part-time, numa cervejeira em Lisboa, enquanto estudava as fermentações e percebia como produzir sabores.”

“Portugal parece-me um pouco retrógrado em termos culturais e as políticas actuais decepcionam-me. […] No sector agrícola e alimentar somos dos mais retrógrados, muito financiados por farmacêuticas” 
Francisco Rosa

O jovem, agora com 27 anos, admite que até as suas papilas gustativas conspiraram para o levarem para o admirável mundo novo da fermentação de cerveja, numa busca de conhecimento e sabor em vários estágios em adegas de Norte a Sul de Portugal.

Quando concluiu o curso, foi trabalhar na empresa do pai e no mundo da vitivinicultura.

Mas a vontade de encontrar modos de produzir novos sabores impeliram-no a inscrever-se num mestrado em Cervejaria e Destilaria, na Escócia. Porém, nada o preparara para a variedade de sabores que conseguia experimentar com bebidas destiladas como o whiskey, aguardentes ou absinto.

“Escrevi a dissertação a partir do meu trabalho na Oxford Artisan Distillery onde, actualmente, trabalho, sobre a fermentação de whiskey com leveduras selvagens.”

Durante uma semana, percorreu a pequena cidade de Oxford, que o jovem diz ser cosmopolita e pouco maior do que Leiria, porém com muitos espaços verdes e culturais, em busca de amostras de leveduras.

“Elas são fungos que existem em todo o lado, até dentro e fora do corpo humano. A melhor levedura que consegui foi retirada do bigode do meu patrão na época, que deu um sabor a ananás e maracujá ao whiskey…. Foi um whiskey super tropical! Ainda tenho essa levedura guardada no congelador, para um dia a introduzir na produção”, conta.

“Gosto de trabalhar os sabores para criar emoções nas pessoas. Um sabor pode ser tão delicioso que nos altera o estado de espírito.” Ao fim de dois anos e meio, mudou o rumo.

Restaurou uma caravana, despediu-se e partiu para a Noruega onde passou nove meses a aprender novos métodos de destilação. Quando o mestre destilador da Oxford [LER_MAIS]Artisan Distillery se reformou, abriu-se uma vaga e Francisco candidatou-se. Ficou.

Tornou-se responsável pelo produto, da receita ao produto final, e lidera uma equipa de quatro pessoas. Em Abril, a empresa produziu o primeiro whiskey, bebida que tem de ser envelhecida, no mínimo, durante três anos. “A recepção foi incrível. Tivemos muito boas críticas e classificações.

O mesmo acontece com o nosso gin e vodka. Aliás, esta última ganhou o prémio de melhor vodka do mundo, em dois anos consecutivos.” Os ingredientes utilizados na destilaria são orgânicos, produzidos por métodos ancestrais onde nem sequer o solo é lavrado.

“Promovemos um ecossistema saudável para produzir os nossos cereais, sem químicos. Usamos a sinergia de diferentes plantas para aumentar a produtividade e protecção das culturas, e colaboramos com os agricultores locais.”

Entre as vantagens desta forma de cultivo, garante, está a captura de carbono no solo, uma das formas de combater as alterações climáticas. “Somos, reconhecidamente, a destilaria mais sustentável do mundo.”

Até os alambiques foram construídos pelo último fabricante de comboios a vapor do Reino Unido. Por tudo isto, Francisco Rosa já tem uma ideia de futuro: pegar num pedaço de terreno, investir na natureza e na biodiversidade.

“Em aguardentes, em animais, em queijo, em mel, embora ainda não tenha pensado bem no modelo de negócio.” E até quer voltar para Portugal… o problema?

“Portugal parece-me um pouco retrógrado em termos culturais e as políticas actuais decepcionam-me. O desenvolvimento é muito lento. No sector agrícola e alimentar somos dos mais retrógrados, muito financiados por farmacêuticas.”

Tópicos: alterações climáticasbebidas orgânicascervejacomunidadesemigraçãoFrancisco RosaginLondresOxfordOxford Artisan DistilleryReino Unidosaboressociedadevinhovodkawiskey
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