
Circula pela Rede uma ideia da escritora Joanna Maciejewska que merece mais que os habituais cinco minutos de esperança média de vida de um meme: “Eu quero que a Inteligência Artificial (IA) me lave a loiça e a roupa para eu poder focar-me em escrever e em fazer arte, não que a IA escreva e faça a arte por mim, para que eu possa lavar a loiça e a roupa”.
Este é o meu principal problema com a IA (tirando o roubo de propriedade intelectual e o tornar pessoas redundantes): está tudo doido com o que ela pode fazer nas áreas que cada vez mais humanos gostariam de estar a trabalhar e menos naquelas que cada vez menos de nós queremos fazer.
Quer dizer: os techbros enchem web summits para nos dizer que querem tornar o mundo um lugar melhor e criar valor social e depois apresentam Sophies que… conversam?
Por que não estão eles investidos em que a IA nos limpe o pó da casa, recolha o lixo das ruas ou apanhe as framboesas no Alentejo?
Quando virá o dia da prometida vida melhor trazida pelos fantásticos avanços tecnológicos, cujo valor produzido permitirá uma incrível redistribuição de riqueza por todos, e em que cada um poderá atingir o seu verdadeiro potencial humano, através da arte, conhecimento e imaginação?
É ou não é esta a parangona repetida ad infinitum nas summits e talks? O que é que impede estas mentes brilhantes de investir mais neste tipo de missão e menos em startups que fazem vídeos de cães a uivar com bebés?
Será que nos andam a mentir nas suas intenções estes visionários do mundo cripto e querem o que sempre quiseram todos os outros que vieram antes deles: maximização de lucros e minimização de custos?
Não será antes esta a última estação do capitalismo tardio – aquela em que a maioria dos seres humanos se tornam descartáveis?
Poderia o chat GPT ter pensado nisto se eu tivesse pedido um texto de 2000 caracteres para uma crónica de jornal em tom filosófico, mas leve, com um toque de sarcasmo e sem travessões, para não dar cana?
Nunca saberei, porque em vez de desenrascar algo em 30 segundos, gastei o meu tempo e criatividade a escrever estas linhas, enquanto o pó se acumulava nas prateleiras dos meus livros, porque o meu aspirador robô ainda não limpa pó em altura!









